SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO

Tomás de Celano

INDICE DOS CAPITULOS

PROLOGO

PRIMEIRO LIVRO

CAPITULO 1

Primeiro recebe o nome de João, depois o de Francisco. Profecia de sua mãe e dele próprio a seu respeito. Sua paciência na prisão

CAPITULO 2

Veste um soldado pobre. Ainda no mundo, tem uma visão sobre sua sua vocação

CAPITULO 3

Para agradar seus companheiros, faz-se o chefe de seu bando de jovens. Sua mudança

CAPITULO 4

Vestido de pobre, come com os pobres na porta da igreja de São Pedro. Esmolas que aí recebe

CAPITULO 5

Estando a rezar, o diabo lhe apresenta uma mulher. Resposta que Deus lhe dá. Sua ação com os leprosos

CAPITULO 6

O Crucificado fala com ele. Sua devoção

CAPITULO 7

A perseguição do pai e de seu irmão de sangue

CAPITULO 8

Vence a vergonha. Profecia das virgens pobres

CAPITULO 9

Pede esmolas de porta em porta

CAPITULO 10

A renúncia de Frei Bernardo

CAPITULO 11

A parábola que contou ao Papa

CAPITULO 12

Amor do santo para com esse lugar. A vida dos frades. Amor da própria santa Virgem para com ele

CAPITULO 13

Uma visão

CAPITULO 14

O rigor da disciplina

CAPITULO 15

Discrição de São Francisco

CAPITULO 16

Sua providência. Submete seu modo de viver à Igreja de Roma. Uma visão

CAPITULO 17

Pede o bispo de Óstia como representante do Papa

SEGUNDO LIVRO

INTRODUCÃO

CAPITULO 1

CAPITULO 2

Descobre a falsidade de um irmão tido por santo

CAPITULO 3

Outro caso semelhante. Contra a singularidade

CAPITULO 4

Em Damieta, prediz a derrota dos cristãos

CAPITULO 5

Descobre os pensamentos secretos de um frade

CAPITULO 6

Vê um demônio em cima de um frade. Contra os que quebram a unidade

CAPITULO 7

Livra os habitantes de Gréccio dos lobos e do granizo

CAPITULO 8

Pregando em Perusa anuncia uma sedição futura e recomenda unidade

CAPITULO 9

Profetiza a uma mulher a conversão do marido

CAPITULO 10

Descobre por inspiração que um frade escandalizou a outro e prediz que haveria de sair da Ordem

CAPITULO 11

Descobre que um jovem que entrou na Ordem não é guiado pelo espírito de Deus

CAPITULO 12

Cura um clérigo, mas prediz que, por causa de seu pecado, haverá de sofrer coisas piores

CAPITULO 13

Um frade assaltado por tentações

CAPITULO 14

Um homem que oferece pano, de acordo com o pedido do santo

CAPITULO 15

Convida seu médico para almoçar em uma ocasião em que os frades nada têm. Quantas coisas recebem do Senhor de uma hora para outra. Providência de Deus para com os seus

CAPITULO 16

Saindo de sua cela, abençoa dois irmãos, cujo desejo tinha conhecido pelo Espírito Santo

CAPITULO 17

Rezando, tira água de uma pedra e a dá a um aldeão com sede

CAPITULO 18

Dá de comer aos passarinhos. Um deles morre por causa de sua avareza

CAPITULO 19

Cumprem-se todas as predições a respeito de Frei Bernardo

CAPITULO 20

O frade tentado que quer ter alguma coisa escrita pela mão do santo

CAPITULO 21

Dá uma túnica ao mesmo religioso, satisfazendo seu desejo

CAPITULO 22

O aipo encontrado de noite, entre ervas agrestes

CAPITULO 23

Prediz fome para depois de sua morte

CAPITULO 24

Grandeza do santo e pequenez nossa

CAPITULO 25

Louvor à Pobreza

CAPITULO 26

CAPITULO 27

Começa a destruir uma casa na Porciúncula

CAPITULO 28

Na casa de Bolonha, põe os doentes para fora

CAPITULO 29

Nega-se a entrar numa cela com o seu nome

CAPITULO 30

CAPITULO 31

Exemplo da mesa que prepararam em Gréccio no dia da Páscoa. Apresenta-se como peregrino, a exemplo de Cristo

CAPITULO 32

Contra a preciosidade dos livros

CAPITULO 33

Exemplo do bispo de Óstia, e seu elogio

CAPITULO 34

O que lhe acontece numa noite ao usar um travesseiro de penas

CAPITULO 35

Dura correção para um frade que o toca com as mãos

CAPITULO 36

Castigo de um frade que apanhou uma moeda

CAPITULO 37

Repreende a um frade que quer guardar dinheiro com a desculpa de que é necessário

CAPITULO 38

O dinheiro transformado numa cobra

CAPITULO 39

Repreensão do santo, por palavras e por exemplo, aos que se vestem com luxo

CAPITULO 40

Diz que os que se afastam da pobreza serão corrigidos pela necessidade

CAPITULO 41

Recomendação da mendicância

CAPITULO 42

Exemplo do santo ao pedir esmola

CAPITULO 43

Seu exemplo no palácio do bispo de Óstia. Resposta ao bispo

CAPITULO 44

Sua exortação a pedir esmolas pelo exemplo e pela palavra

CAPITULO 45

Repreensão a um frade que não quer mendigar

CAPITULO 46

Corre ao encontro de um frade que traz esmolas e lhe beija o ombro

CAPITULO 47

Convence até alguns cavaleiros a pedir esmolas

CAPITULO 48

Em Alexandria, transforma um pedaço de frango em peixe

CAPITULO 49

O santo reprova um candidato que distribui suas coisas entre os parentes e não entre os pobres

CAPITULO 50

Uma visão relacionada com a pobreza

CAPITULO 51

Sua compaixão dos pobres. Inveja os que são mais pobres

CAPITULO 52

Correção a um frade que estava falando mal de um pobre

CAPITULO 53

Em Celano, dá uma capa a uma velhinha

CAPITULO 54

Outro pobre a quem dá sua capa

CAPITULO 55

Age de maneira semelhante com outro pobre

CAPITULO 56

A outro, dá a capa com a condição de não odiar seu patrão

CAPITULO 57

A outro pobre dá um pedaço de seu hábito

CAPITULO 58

Dá a uma pobre, mãe de dois frades, o primeiro Novo Testamento que houve na Ordem

CAPITULO 59

Deu sua capa a uma pobre que sofria da vista

CAPITULO 60

Aparecem-lhe, no caminho, três mulheres, que o saúdam e desaparece

CAPITULO 61

Tempo, lugar e fervor de sua oração

CAPITULO 62

Recitação devota das horas canônicas

CAPITULO 63

Como afasta as distrações na oração

CAPITULO 64

Êxtases

CAPITULO 65

Como se comporta depois da oração

CAPITULO 66

O bispo perde a fala quando o encontra a rezar

CAPITULO 67

Um abade experimenta a força de sua oração

CAPITULO 68

Conhecimento e memória

CAPITULO 69

A pedido de um dominicano, interpreta um texto profético

CAPITULO 70

Respostas a um cardeal

CAPITULO 71

Manifesta o que sabe a um frade que lhe recomenda o estudo

CAPITULO 72

Frei Pacífico vê espadas brilhantes em sua boca

CAPITULO 73

Eficácia de suas palavras e testemunho de um médico

CAPITULO 74

Pela virtude de suas palavras, Frei Silvestre espanta demônios de Arezzo

CAPITULO 75

Conversão de Frei Silvestre. Visão com que é agraciado

CAPITULO 76

Um frade libertado do assalto do demônio

CAPITULO 77

A porca malvada que comeu um cordeirinho

CAPITULO 78

Deve-se evitar a familiaridade com mulheres. Como conversa com elas

CAPITULO 79

Parábola contra os olhares para as mulheres

CAPITULO 80

Exemplo do santo contra a familiaridade exagerada

CAPITULO 81

Tentações do santo e como as supera

CAPITULO 82

O demônio o chama, e o tenta para a luxúria. Como o santo vence

CAPITULO 83

Livra um frade da tentação. Vantagem da tentação

CAPITULO 84

Assalto dos demônios. As cortes devem ser evitadas

CAPITULO 85

Um exemplo a propósito

CAPITULO 86

CAPITULO 87

Um frade libertado da tentação

CAPITULO 88

A alegria espiritual e seu louvor. O mal da tristeza

CAPITULO 89

Ouve um anjo tocando cítara

CAPITULO 90

Canta em francês quando está entusiasmado

CAPITULO 91

Repreende um frade triste, ensinando-lhe como se comportar

CAPITULO 92

Como tratar o corpo, para que não se queixe

CAPITULO 93

Contra a hipocrisia e a vaidade

CAPITULO 94

Confessa-se hipócrita

CAPITULO 95

Acusa-se de vanglória

CAPITULO 96

Palavras contra os que o louvam

CAPITULO 97

Palavras aos que se louvam

CAPITULO 98

Resposta que dá a uma pergunta sobre os estigmas. Cuidado com que os cobre

CAPITULO 99

Um frade consegue vê-las, enganando-o piedosamente

CAPITULO 100

Um irmão vê a chaga do peito

CAPITULO 101

Ocultamento das virtudes

CAPITULO 102

Humildade de São Francisco no comportamento, no porte e nos costumes. Contra o próprio parecer

CAPITULO 103

Sua humildade diante do bispo de Terni e diante de um homem rude

CAPITULO 104

Durante um capítulo, renuncia a ser superior. Uma oração

CAPITULO 105

Renuncia até a seus companheiros

CAPITULO 106

Palavras contra os que querem ser superiores. Descrição do frade menor

CAPITULO 107

Como e porque quer que os frades sejam submissos aos clérigos

CAPITULO 108

Respeito que demonstra para com o bispo de Ímola

CAPITULO 109

Humildade e caridade mútuas entre ele e São Domingos

CAPITULO 110

Como se recomendam um ao outro

CAPITULO 111

Para praticar a verdadeira obediência, quer ter sempre um guardião

CAPITULO 112

Descrição do obediente. As três obediências

CAPITULO 113

Não se deve mandar por obediência em coisas leves

CAPITULO 114

Joga no fogo o capuz de um frade, porque tinha vindo sem obediência, embora trazido pela devoção

CAPITULO 115

Exemplo de um bom frade. Costumes dos frades antigos

CAPITULO 116

Maldição e sofrimento do santo por causa de alguns de má conduta

CAPITULO 117

Revelação divina sobre a situação da Ordem, que nunca há de acabar

CAPITULO 118

Deus lhe revela quando é seu servo e quando não

CAPITULO 119

Penitência contra as palavras ociosas na Porciúncula

CAPITULO 120

Operosidade do santo e desgosto pelos preguiçosos

CAPITULO 121

Queixa feita ao santo dos preguiçosos e dos gulosos

CAPITULO 122

Como deve ser um pregador

CAPITULO 123

Contra os pregadores ávidos de glória. Explicação de um texto profético

CAPITULO 124

Amor do santo para com as criaturas sensíveis e insensíveis

CAPITULO 125

As criaturas lhe retribuem o amor. O fogo que não o queima

CAPITULO 126

Um passarinho pousa em sua mão

CAPITULO 127

O falcão

CAPITULO 128

As abelhas

CAPITULO 129

O faisão

CAPITULO 130

A cigarra

CAPITULO 131

Caridade de São Francisco. Apresenta-se como um modelo de perfeição na salvação das almas

CAPITULO 132

Solicitude com os súditos

CAPITULO 133

Compaixão para com os enfermos

CAPITULO 134

Compaixão para com os doentes do espírito. Os que fazem o contrário

CAPITULO 135

Os frades espanhóis

CAPITULO 136

Contra os que vivem mal nos eremitérios. Quer que tudo seja comum

CAPITULO 137

Dá a túnica a dois frades franceses

CAPITULO 138

Punição para os detratores

CAPITULO 139

Como deve agir com os companheiros

CAPITULO 140

Os ministros provinciais

CAPITULO 141

Resposta do santo sobre os ministros

CAPITULO 142

O que é a verdadeira simplicidade

CAPITULO 143

Frei João, o simples

CAPITULO 144

Encoraja a união entre seus filhos. Uma parábola sobre este assunto

CAPITULO 145

Como deseja que cortem o cabelo

CAPITULO 146

Como quer que se despojem os homens cultos que entram na Ordem

CAPITULO 147

Como deseja que estudem. Aparição a um companheiro ocupado com pregações

CAPITULO 148

Como se comove ao lhe falarem do amor de Deus

CAPITULO 149

Devoção aos anjos. O que faz por devoção a São Miguel

CAPITULO 150

Devoção a Nossa Senhora, a quem consagra particularmente a Ordem

CAPITULO 151

Devoção ao Natal do Senhor. Como quer que atendam a todos nesse dia

CAPITULO 152

Devoção ao Corpo do Senhor

CAPITULO 153

Devoção para com as santas relíquias

CAPITULO 154

Devoção para com a cruz. Um mistério oculto

CAPITULO 155

Como queria que os frades tratassem com elas

CAPITULO 156

Repreensão para alguns que gostam de ir aos mosteiros

CAPITULO 157

A pregação feita mais pelo exemplo que pelas palavras

CAPITULO 158

Recomendação da Regra de São Francisco. Um frade que a leva consigo

CAPITULO 159

Uma visão que recomenda a Regra

CAPITULO 160

Conversa com um frade sobre como tratar o corpo

CAPITULO 161

Promessa do Senhor em recompensa de suas enfermidades

CAPITULO 162

Exortação e bênção final aos frades

CAPITULO 163

Sua morte e o que faz antes de morrer

CAPITULO 164

Visão de Frei Agostinho em sua morte

CAPITULO 165

Aparição do santo pai a um frade, depois de sua morte

CAPITULO 166

Visão do bispo de Assis na morte do santo pai

CAPITULO 167

 

 

PROLOGO

Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. Ao ministro geral da Ordem dos Frades Menores.

Começa o prólogo.

1. Reverendíssimo Padre, aprouve ao santo conselho do último capítulo geral e a vós, não sem disposição da vontade divina, confiar à nossa pequenez escrever os atos e até os ditos de nosso Pai Francisco, para consolação dos presentes e memória dos futuros. Tivemos o privilégio, mais que outros, de um conhecimento direto, por convivência assídua e mútua familiaridade com ele. Apressamo-nos a obedecer com devoção a esse santo mandato, pois dele não poderíamos furtar-nos, de maneira alguma.

Mas, pensando melhor em nossa pouca capacidade, temos justificado receio de que tão importante assunto, deixando de ser tratado como deve, desagrade aos outros por nossa culpa. Pois tememos que esse manjar tão saboroso se torne insípido pela incapacidade de quem o prepara e possam dizer que o fizemos mais por presunção que por obediência.

Se o resultado de todo este trabalho devesse ser apresentado somente à vossa benevolência, bem-aventurado pai,e não ao público, receberíamos com prazer tanto as correções como uma agradável aprovação. Quem conseguirá, nessa profusão de atos e palavras, ponderar todas as coisas com o cuidado suficiente para que todos os ouvintes aceitem da mesma maneira tudo que for dito?

Entretanto, como somos simples, buscando apenas o proveitode todos e de cada um, pedimos aos leitores que nos julguem com bondade e perdoem ou corrijam essa simplicidade do narrador, de maneira que não se perca a reverência devida àquele de quem estamos falando.

Nossa memória, prejudicada pelo tempo como a das pessoas incultas, tem dificuldade para dominar as alturas de suas palavras ou a extraordinária excelência de seus feitos, o que seria difícil mesmo para a acuidade de uma inteligência exercitada, mesmo diante dos fatos. Queiram desculpar-nos todos por nossa imperícia, levando em consideração a autoridade de quem insistentemente nos mandou fazer este trabalho.

2. Este opúsculo contém, em primeiro lugar, alguns fatos admiráveis da conversão de São Francisco, não colocados nas biografias anteriores porque não tinham chegado ao conhecimento do autor.

Além disso, quisemos apresentar e demonstrar esmeradamente qual foi o ideal generoso, amável e perfeito do santo pai para si e para os seus na execução dos ensinamentos divinos e no esforço de perfeição, que sempre manteve em seus afetos para com Deus e em seus exemplos para todos. Apresentamos também alguns milagres, de acordo com a oportunidade. Procuramos descrever o que foi possível em estilo simples e chão, procurando satisfazer, se possível, tanto os menos cultos como os mais doutos.

Por isso vos pedimos, pai cheio de bondade, que vos digneis consagrar com vossa bênção o dom, pequeno mas não desprezível, deste trabalho que não nos custou pouco. Corrigi os erros e cortai fora o que é supérfluo, para que aquilo que a vosso juizo parecer bem apresentado, de acordo com o vosso nome, Crescêncio, cresça por toda parte e se multiplique em Cristo. Amém.

Termina o prólogo.

PRIMEIRO LIVRO

Começa a "recordaçäo pela qual a alma aspira" dos feitos e palavras de nosso pai Säo Francisco

SUA CONVERSÃO

CAPITULO 1
Primeiro recebe o nome de João, depois o de Francisco. 
Profecia de sua mãe e dele próprio a seu respeito. Sua paciência na prisão

3. Servo e amigo do Altíssimo, Francisco recebeu esse nome por providência divina, para que, por sua singular originalidade, mais rapidamente se difundisse por todo o mundo o conhecimento de sua missão. Ao renascer da água e do Espírito Santo, deixando de ser filho da ira para ser filho da graça, recebeu de sua mãe o nome de João.

Essa mulher, modelo de retidão, era de uma virtude notável, e teve o privilégio de se parecer com Santa Isabel, tanto pelo nome que deu ao filho como pelo espírito profético. Pois, quando os vizinhos se admiravam da grandeza de alma e da integridade de Francisco, dizia, como que inspirada: "Quem vocês pensam que vai ser este meu filho? Ainda vão ver que, pelos seus merecimentos, vai ser um verdadeiro filho de Deus".

De fato, era essa a opinião de várias pessoas quando, já mais grandinho, Francisco conquistou a simpatia de todos por suas boas qualidades. Evitava tudo que pudesse ser ofensivo e era um adolescente tão educado que não parecia filho de seus pais mas de gente mais nobre. O nome de João cabia bem à missão que recebeu, mas o de Francisco coube melhor à difusão de sua fama que chegou rapidamente a toda parte, quando ele se converteu totalmente a Deus.

Para ele a festa mais importante entre as de todos os santos era a de São João Batista, cujo nome insigne o havia marcado com uma força mística. Assim como entre os nascidos de mulher não apareceu nenhum maior do que João, entre os fundadores de Ordens não houve nenhum mais perfeito do que Francisco. Esta observação é digna de nota.

4. João profetizou fechado no segredo do seio materno. Francisco predisse o futuro no cárcere do mundo, quando ainda desconhecia os planos de Deus. De fato, numa ocasião em que os cidadãos de Perusa e os de Assis se viram envolvidos em não pequena desgraça por causa da guerra, Francisco foi preso com muitos outros e sofreu com eles as penúrias do cárcere. Os companheiros deixavam-se abater pela tristeza, lamentando-se do cativeiro, mas Francisco exultava no Senhor, ria-se e fazia pouco da cadeia. Ofendidos, os outros increparam esse louco e demente que se alegrava na prisão. Francisco respondeu profeticamente: "Por que vocês pensam que eu estou contente? Estou pensando em outra coisa: ainda vou ser venerado como santo por todo mundo". E, de fato, cumpriu-se o que ele disse.

Entre os prisioneiros havia um soldado soberbo e insuportável, que todos os outros resolveram ignorar. Mas a paciência de Francisco foi firme: tolerava o insuportável e conseguiu fazer com que todos voltassem às pazes com ele. Aberto a todas as graças, era um vaso escolhido de virtudes, já a transbordar de carismas por todos os lados.

CAPITULO 2
Veste um soldado pobre. Ainda no mundo, tem uma visão sobre sua sua vocação

5. Libertado pouco tempo depois, tornou-se ainda mais bondoso para com os necessitados. Resolveu, desde então, não desviar o rosto de pobre nenhum, de ninguém que lhe pedisse alguma coisa por amor de Deus.

Um dia encontrou um soldado pobre e quase nú, ficou com pena e, levado pelo amor de Cristo, deu-lhe generosamente a roupa elegante que estava vestindo. Não fez menos que São Martinho, ainda que as circunstâncias tenham sido diferentes, porque a intenção e o ato foram os mesmos. Francisco deu primeiro as vestes e depois o resto. Martinho entregou tudo primeiro e a roupa no fim. Ambos foram pobres e necessitados no mundo, ambos entraram ricos no céu. Aquele, soldado e pobre, vestiu um pobre com uma parte de sua roupa. Este, que não era soldado mas rico, vestiu com uma roupa boa um pobre soldado. Ambos, por terem obedecido ao mandamento de Cristo, mereceram uma visão de Cristo: Um foi louvado pela perfeição e o outro recebeu um honroso convite para o que ainda tinha que fazer.

6. De fato, pouco depois, teve a visão de um esplêndido palácio, em que encontrou toda sorte de armas e uma noiva belíssima. No sonho, foi chamado de Francisco e seduzido pela promessa de possuir todas aquelas coisas. Tentou, por isso, ir à Apúlia para entrar no exército e preparou com muita largueza tudo que era preciso, com pressa de ser armado cavaleiro. É que seu espírito, ainda carnal, estava dando uma interpretação mundana à visão que tinha tido, na realidade muito mais valiosa nos tesouros da sabedoria de Deus.

Foi assim que uma noite, estando a dormir, ouviu pela segunda vez em sonhos alguém que lhe falava, interessado em saber para onde estava indo. Contou seus planos e disse que ia combater na Apúlia. Mas a voz insistiu:

- "Quem lhe pode ser mais útil: o senhor ou o servo?"

- "O senhor", respondeu Francisco.

- "Então, por que preferes o servo ao senhor?"

- "Que queres que eu faça, Senhor?" perguntou Francisco.

- "Volta para a terra em que nasceste, porque é espiritualmente que vou fazer cumprir a visão que tivestes".

Voltou imediatamente, já exemplarmente obediente e, deixando de lado a própria vontade, passou de Saulo a Paulo. Paulo foi derrubado e, duramente castigado, proferiu palavras admiráveis. Francisco trocou as armas materiais pelas espirituais, e recebeu o comando de Deus no lugar da glória militar. Aos muitos que se admiravam de sua invulgar alegria, dizia que haveria de ser um grande príncipe.

CAPITULO 3
Para agradar seus companheiros, faz-se o chefe de seu bando de jovens. Sua mudança

7. Começou a transformar-se num homem perfeito e passou a ser outra pessoa. De volta para casa, foi seguido pelos filhos de Babilônia, que tentavam levá-lo para onde não queria, mesmo contra sua vontade. Porque um grupo de jovens de Assis, que antes o tinha tido como líder de suas aventuras, continuoua convidá-lo a seus banquetes, em que sempre se serviam lascívia e chocarrices. Escolheram-no como chefe, porque tinham experiência de sua liberalidade e esperavam que pagasse as despesas de todos. Obedeciam para encher a barriga e se submetiam para poder saciar-se.

Francisco não rejeitou a honra para não parecer avarento e, mesmo absorvido em suas santas reflexões, não deixou de se comportar como devia: preparou um banquete suntuoso e mandou servir iguarias em abundância. Saturados a ponto de vomitar, mancharam as praças da cidade com suas canções de bêbados.

Francisco acompanhava-os como comandante levando o cetro na mão, mas, devagar, foi se distanciando deles. Interiormente já estava surdo a tudo aquilo, e ia cantando a Deus em seu coração. Como ele mesmo contou depois, foi tamanha a doçura divina que sentiu nessa ocasião, que não podia dizer palavra ou dar um passo. Invadira-o um afeto espiritual que o arrebatou para as realidades invisíveis, diante das quais achou que todas as coisas da terraeram absolutamente frívolas, sem valor.

Estupenda bondade de Deus, que aos que fazem as coisas menores dá as maiores, e no meio de um dilúvio de águas caudalosas preserva e promove o que é seu. Cristo alimentou com pães e peixes a multidão e não repeliu os pecadores de sua mesa. Convidado para ser rei, fugiu e subiu à montanha para rezar. São mistérios de Deus, que Francisco entendeu e que, embora ignorante, foi levado a compreender com perfeição.

CAPITULO 4
Vestido de pobre, come com os pobres na porta da igreja de São Pedro. 
Esmolas que aí recebe

8. Desde esse tempo, passou a ser o maior amigo dos pobres, fazendo ver, nesse começo, a perfeição que haveria de atingir mais tarde. Muitas vezes despiu-se para vestir os pobres, procurando assemelhar-se a eles se não de fato, nesse tempo, pelo menos de todo coração.

Numa peregrinação a Roma, o amor da pobreza levou-o a tirar sua roupa rica e a vestir a de um pobre. Juntou-se alegremente aos mendigos no átrio da igreja de São Pedro, onde são numerosos, e comeu avidamente com eles, sentindo-se seu companheiro. E se não fosse pela presença de conhecidos, teria feito a mesma coisa muitas outras vezes.

Diante do altar do príncipe dos apóstolos, admirado de serem tão poucas as esmolas lá deixadas pelos visitantes, jogou uma mão cheia de dinheiro, para mostrar que devia ser especialmente honrado por todos aquele que por Deus foi honrado acima de todos os demais.

Muitas vezes presenteou sacerdotes pobrezinhos com paramentos sagrados, pois prestava a todos a devida honra, mesmo nos graus mais inferiores. Absolutamente íntegro na fé católica e destinado a receber uma missão apostólica, sempre teve a maior reverência para com os ministros de Deus e os seus ministérios.

CAPITULO 5
Estando a rezar, o diabo lhe apresenta uma mulher. 
Resposta que Deus lhe dá. Sua ação com os leprosos

9. Ainda se vestia como um leigo mas já tinha espírito religioso e começou a preferir os lugares solitários, onde era freqüentemente visitado por inspirações do Espírito Santo. Sua fundamental doçura o atraíra e arrebatara, tão transbordante desde o início, que nunca mais o abandonou durante toda a vida.

Mas quando se retirava para lugares escondidos por serem melhores para a oração, o demônio tentava perturbá-lo com diabólica malvadeza. Despertou-lhe a lembrança de uma mulher monstruosamente corcunda que havia em sua cidade. Dizia que o tornaria igual a ela se não desistisse de seus propósitos.

Confortado pelo Senhor, teve a alegria de uma resposta de salvação e de graça: "Francisco, disse-lhe Deus em espírito, se queres o meu conhececimento, tens que trocar as coisas vãs e carnais pelas espirituais, tens que preferir as coisas amargas às doces, tens que desprezar a ti mesmo. Haverá uma transformação e tudo isso vai te parecer delicioso". Sentiu-se imediatamente obrigado a obedecer ao que Deus mandava e enfrentou a experiência.

Ele, que tinha natural aversão pelos leprosos, julgando-os a monstruosidade mais infeliz do mundo, encontrou-se um dia com um, quando andava a cavalo por perto de Assis. Ficou muito aborrecido e enjoado mas, para não quebrar o propósito que fizera, apeou e foi beijá-lo. O leproso estendeu-lhe a mão para receber alguma coisa e recebeu de volta o dinheiro e um beijo. Francisco tornou a montar e olhou para todos os lados mas, apesar de estar em campo aberto,e não viu mais o leproso.

Cheio de admiração e de alegria, poucos dias depois tratou de repetir a boa obra. Dirigiu-se para onde moravam os leprosos, deu dinheiro a cada um deles e beijou-lhes a mão e a boca. Assim substituiu o amargo pelo doce e se dispôs corajosamente para o que ainda estava por vir.

CAPITULO 6
O Crucificado fala com ele. Sua devoção

10. Já inteiramente mudado de coração, e a ponto de mudar de vida, passou um dia pela igreja de São Damião, abandonada e quase em ruinas. Levado pelo Espírito, entrou para rezar e se ajoelhou devotamente diante do crucifixo. Tocado por uma sensação insólita, sentiu-se todo transformado. Pouco depois, coisa inaudita, a imagem do Crucificado mexeu os lábios e falou com ele. Chamando-o pelo nome, disse: "Francisco, vai e repara minha casa que, como vês, está em ruinas". A tremer, Francisco espantou-se não pouco e ficou fora de si com o que ouviu. Tratou de obedecer e se entregou todo à obra. Mas, como nem ele mesmo conseguiu exprimir a sensação inefável que teve, também nós vamos nos calar.

Desde essa época, domina-o enorme compaixão pelo Crucificado, e podemos julgar piedosamente que os estigmas da paixão ficaram gravados nele desde esse dia: no corpo ainda não, mas sim no coração.

11. Coisa admirável e inaudita em nosso tempo! Quem não se há de admirar? Quem já viu coisa parecida? Quem não acreditará que Francisco estava crucificado quando foi para o céu, sabendo que mesmo quando não tinha desprezado plenamente o mundo exterior ouviu Cristo falar da cruz, em um milagre novo e inaudito? Desde essa hora, em que o amado se dirigiu a ele, sua alma ficou transformada. E o amor do coração manifestou-se posteriormente pelas feridas do corpo.

Mas desde essa época foi incapaz de deixar de chorar a paixão de Cristo, mesmo em voz alta, como se a tivesse diante dos olhos. Enchia os caminhos de gemidos, e não admitia consolação alguma lembrando-se das chagas de Cristo. Um dia encontrou um amigo íntimo e também o levou a chorar amargamente quando contou a causa de sua dor.

Mas não se esqueceu de cuidar daquela imagem nem deixou de obedecer a sua ordem. Na mesma hora deu dinheiro a um padre para comprar uma lâmpada e óleo, para que a imagem não ficasse um só momento sem a devida honra. E, sem preguiça, tratou de fazer o resto, trabalhando sem cessar na reparação daquela igreja. Porque, embora lhe tivesse sido falado da Igreja que Cristo conquistou com seu próprio sangue, não quis ir de repente ao alto, porque devia passar aos poucos da carne para o espírito.

CAPITULO 7
A perseguição do pai e de seu irmão de sangue

12. Entregue às obras de piedade, foi perseguido por seu pai que, julgando uma loucura seu serviço a Cristo, amaldiçoava-o por toda parte. Por isso o servo de Deus tomou como pai um homem do povo, muito simples, e pediu que lhe desse a bênção cada vez que seu pai o amaldiçoasse. Executou, assim, concretamente, o que foi dito pelo profeta: "Eles poderão amaldiçoar; tu abençoarás".

Devolveu ao pai o dinheiro que, como homem de Deus, gostaria de ter gasto na reforma daquela igreja. Fez isso a conselho do bispo da cidade, homem muito piedoso, que lhe disse não ser lícito gastar em coisas sagradas bens mal adquiridos. E disse, na frente de muitas pessoas que se tinham ajuntado: "Agora poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai, e a ele devolvo tanto o dinheiro como a minha roupa toda. Irei nu para o Senhor".

Era um homem verdadeiramente livre, para quem só Cristo já era suficiente! Nessa ocasião, foi possível ver que ele usava um cilício embaixo da roupa, e dava mais valor a ser que a parecer virtuoso.

Seu irmão de sangue também o feria com palavras envenenadas, a exemplo do pai. Numa manhã de inverno, vendo Francisco a orar coberto de trapos e tremendo de frio, disse com perversidade a um concidadão: "Pede a Francisco para te vender um tostão de suor". Ouvindo isso, o homem de Deus se alegrou muito e respondeu sorrindo: "De fato, vou vendê-lo muito caro ao meu Senhor".

Nada mais verdadeiro, porque recebeu o cêntuplo e até mil vezes mais neste mundo, e ainda ganhou, no mundo futuro,a vida eterna para si e para muitos outros.

CAPITULO 8
Vence a vergonha. Profecia das virgens pobres

13. Cuidou de reformar seus costumes delicados e de reduzir ao bem seu corpo desregrado.

Andava um dia por Assis, mendigando óleo para as lâmpadas da igreja de São Damião, que estava reparando. Dando com uma porção de pessoas a se divertir na porta da casa em que queria entrar, ficou envergonhado e se afastou. Mas soube volver seu nobre espírito para o céu, recriminou a própria fraqueza e venceu a si mesmo. Voltou imediatamente para a casa e expôs abertamente, diante de todos, as causas de sua vergonha. Como que embriagado de espírito, pediu óleo em francês e o conseguiu.

Com o maior fervor, animou todo mundo a reconstruir a referida igreja e profetizou diante de todos, em francês, que naquele lugar haveria no futuro um mosteiro de virgens consagradas a Cristo. Falava sempre em francês quando se sentia tomado pelo ardor do Espírito Santo, proferindo palavras ardentes, como se conhecesse desde então que haveria de ser venerado de maneira toda especial por esse povo.

CAPITULO 9
Pede esmolas de porta em porta

14. Desde que começou a servir o Senhor comum de todas as coisas, gostava de fazer coisas comuns, fugindo às singularidades, que sempre acabam manchadas de algum vício.

Trabalhando duro na reforma daquela igreja, para obedecer a Cristo, transformou-se de um jovem excessivamente delicado em um homem rude e acostumado ao trabalho. O padre ficou com pena. Vendo-o tão extenuado, começou a dar-lhe todos o dias alguma comida especial, embora não saborosa, porque era pobre. Recebendo a esmola, Francisco louvou a discrição do sacerdote, dizendo a si mesmo: "Não hás de encontrar em toda parte um sacerdote como este, que sempre te sirva desse jeito. Não é essa a vida de um homem que professa a pobreza. Não te deves acostumar com isso: acabarás voltando ao que desprezaste e terás outra vez coisas finas em abundância. Levanta depressa e vai pedir restos de porta em porta!"

Foi mendigar comida cozida pelas portas de Assis. Quando viu o prato cheio de restos misturados, sua primeira reação foi de nojo, mas lembrou-se de Deus, venceu a si mesmo e comeu aquilo com alegria da alma. O amor suaviza tudo e faz o amargo ficar doce.

CAPITULO 10
A renúncia de Frei Bernardo

15. Um certo Bernardo, de Assis, que depois foi modelo de perfeição, desejando, a exemplo do homem de Deus, desprezar completamente o mundo que passa, foi pedir seu conselho, dizendo:

- "Pai, se alguém tivesse possuído por muito tempo os bens de algum senhor, e já não os quisesse mais, qual seria a melhor coisa a fazer?" O homem de Deus respondeu que deveria devolver tudo ao senhor de quem recebera. Então Bernardo disse:

- "Sei que tudo que tenho me foi dado por Deus. Estou resolvido a dar tudo de volta, de acordo com o teu conselho". Respondeu o santo:

- "Se queres provar o que dizes, iremos bem cedo à igreja, tomaremos o Evangelho e pediremos conselho a Cristo".

Por isso foram à igreja logo de manhã, rezaram primeiro com devoção e depois abriram o Evangelho, dispostos a fazer a primeira proposta que ocorresse. Abriram o livro e foi este o conselho de Cristo: "Se queres ser perfeito, vai e vende tudo que tens, edá-o aos pobres". Na segunda vez: "Não leveis nada pelo caminho". E numa terceira vez: "Quem quer vir após mim, renuncie a si mesmo". Bernardo não perdeu tempo para cumprir tudo isso e não deixou de observar uma vírgula do conselho recebido.

Em pouco tempo, foram muitos os que se converteram dos corrosivos cuidados do mundo e, guiados por Francisco para o bem infinito, voltaram para a casa paterna. Seria longo contar como cada um deles conquistou o galardão da vocação superna.

CAPITULO 11
A parábola que contou ao Papa

16. Na ocasião em que se apresentou com os seus ao papa Inocêncio, para pedir a aprovação de sua regra de vida, o Papa achou que seu propósito estava acima de suas forças e, como era dotado da maior discrição, disse: "Meu filho, pede a Cristo que nos manifeste sua vontade, para que possamos concordar com maior segurança com os teus piedosos desejos".

O santo obedeceu à ordem do Pastor supremo e correu a Cristo confiantemente. Rezou bastante e exortou os irmãos a suplicarem a Deus com devoção. Obteve uma resposta na oração e contou aos filhos a salutar novidade. A conversa familiar com Cristo foi conhecida numa parábola: "Francisco, dirás isto ao Papa: uma mulher pobrezinha, mas bonita, morava em um deserto. Um rei se apaixonou por ela por causa de sua grande formosura, desposou-a todo feliz e teve com ela filhos muito bonitos. Quando já estavam adultos e nobremente educados, a mãe lhes disse: 'Não vos envergonheis, meus queridos, porque sois pobres, pois sois todos filhos daquele grande rei. Ide com alegria para sua corte, e pedi-lhe tudo que precisais'. Surpresos e felizes quando ouviram isso e, orgulhosos por saberem que eram de linhagem real, pois previam que seriam os herdeiros, já imaginaram sua pobreza transformada em riqueza. Apresentaram-se ousadamente ao rei, sem temer o rosto que era parecido com o deles. Vendo essa semelhança, o rei perguntou, admirado, de quem eram filhos. Quando disseram que eram filhos daquela mulher pobrezinha do deserto, o rei os abraçou dizendo: 'Sois meus filhos e meus herdeiros, não tenhais medo! Se até estranhos comem à minha mesa será muito mais justo que eu alimente aqueles a quem está destinada por direito a minha herança toda'. E mandou que a mulher levasse todos os seus filhos para serem educados em sua corte". O santo gostou muuito da parábola e foi logo contar ao Papa a resposta de Deus.

17. Essa mulher era Francisco, pela fecundidade de seus muitos filhos, não pela moleza de sua vida. O deserto era o mundo, então inculto por falta de doutrina e estéril em virtudes. A prole abundante e formosa era a multidão dos frades, ricos de valores espirituais. O rei era o Filho de Deus, de quem se tornaram parecidos pela santa pobreza, em cuja abundante mesa real foram alimentados por terem desprezado toda vergonha das coisas vis, pois estavam contentes com a imitação de Cristo e viviam de esmolas, sabendo que haveriam de conquistar a bem aventurança através dos desprezos do mundo.

Admirado com a parábola, o Papa não teve dúvida de que Cristo lhe falava através de Francisco. Lembrou uma visão que tivera poucos dias antes e, iluminado pelo Espírito Santo, afirmou que haveria de cumprir-se naquele mesmo homem. Em sonhos, tinha visto a basílica de Latrão prestes a ruir mas sendo sustentada por um religioso, pequeno e desprezível, que a firmara com seu ombro para não cair. E disse: "Na verdade este é o homem que, por sua obra e por sua doutrina, haverá de sustentar a Igreja".

Foi por isso que aquele senhor acedeu tão facilmente ao seu pedido e, a partir daí, cheio de devoção, sempre teve especial predileção pelo servo de Cristo. Concedeu-lhe imediatamente tudo que queria e prometeu que ainda haveria de fazer mais concessões.

Com a autoridade que lhe foi concedida, o santo começou a lançar as sementes das virtudes e a percorrer as cidades e vilas pregando com fervor.

SANTA MARIA DA PORCIUNCULA

CAPITULO 12
Amor do santo para com esse lugar. A vida dos frades. Amor da própria santa Virgem para com ele

18. O servo de Deus Francisco, pequeno de estatura, humilde de pensamento e menor por profissão, escolheu para si e para os seus um pedacinho desta terra, enquanto aqui tinha de viver, pois não poderia servir a Cristo sem ter alguma coisa do mundo. Devem ter sido inspirados por Deus os que, desde os tempos mais antigos, chamaram de Porciúncula - pedacinho - o lugar que deveria caber em sorte àqueles que deste mundo não queriam ter quase nada.

Nele tinha sido construída uma igreja em honra da Virgem Mãe, aquela que, por sua humildade singular, mereceu ser cabeça de todos os santos logo depois de seu Filho. Nela teve início a Ordem dos Menores, e sobre ela se ergueu, como em sólido fundamento, sua nobre estrutura de inumerável multidão. O santo teve uma preferência especial por esse lugar, quis que os frades o venerassem de maneira toda particular e quis que fosse conservado na humildade e na altíssima pobreza, como espelho de toda a sua Ordem, deixando a propriedade para outros e reservando para si e para os seus apenas o uso.

19. Aí se observava a mais rígida disciplina, tanto no silêncio e no trabalho, como nos outros pontos da vida regular. Não eram admitidos senão frades especialmente escolhidos entre os que afluíam de todas as partes. O santo exigia que fossem verdadeiramente devotados a Deus e perfeitos em tudo que fosse possível. Era absolutamente proibida a entrada de pessoas seculares: ele não queria que os frades, vivendo ali em número reduzido, poluíssem seus ouvidos com o relacionamento dos seculares, para não deixarem a meditação das coisas celestes, arrastados para assuntos menos dignos por espalhadores de boatos. Nesse lugar ninguém podia dizer coisas ociosas, nem narrar as que tinham sido contadas por outros. Quando isso acontecia, aplicava-se uma pena salutar para corrigir o culpado. Os que ali moravam ocupavam-se, dia e noite, com os louvores divinos, levando uma vida angelical, cujo perfume admirável se espalhava por toda parte.

Aliás, o local era apropriado, pois, conforme diziam os antigos moradores, também se chamava Santa Maria dos Anjos. O bem- aventurado pai dizia que lhe tinha sido revelado por Deus que Nossa Senhora tinha uma predileção por aquele lugar, entre todas as outras igrejas construídas no mundo em sua honra. E era por isso que o santo gostava mais dela que das outras.

CAPITULO 13
Uma visão

20. Um devoto irmão tinha tido, antes de sua conversão, uma visão a respeito dessa igreja, que merece ser contada. Viu muitos homens feridos de cruel cegueira, com o rosto voltado para o céu e de joelhos ao redor da igreja. Todos, com voz chorosa, de mãos estendidas para o alto, clamavam a Deus pedindo misericórdia e a visão. Veio de céu um esplendor enorme, que se difundiu por todos e a cada um deu luz e a desejada saúde.

COMO VIVIAM SÃO FRANCISCO E DOS FRADES

CAPITULO 14
O rigor da disciplina

21. O valoroso soldado de Cristo nunca poupava o corpo, expondo-o, como se nem fosse o seu, a toda espécie de injúrias, por atos ou palavras. Se alguém tentasse numerar todos os seus sofrimentos, ultrapassaria os que nos são referidos pelo Apóstolo sobre os santos. Da mesma maneira, toda a sua primeira escola submetia-se a todos os incômodos, a ponto de julgar mal se alguém ambicionasse alguma outra coisa que não fosse a consolação do espírito. Muitas vezes, teriam desfalecido pelo uso de argolas de ferro e cilícios e pelos jejuns contínuos, se não abrandassem um pouco o rigor de tamanha abstinência pelas admoestações atentas do piedoso pastor.

CAPITULO 15
Discrição de São Francisco

22. Certa noite, quando todos descansavam, uma daquelas ovelhas começou a gritar: "Estou morrendo, irmãos, estou morrendo de fome!" O valoroso pastor levantou-se imediatamente a acudir sua ovelhinha doente com o devido remédio. Mandou preparar a mesa, embora cheia de pobres iguarias, onde havia água no lugar de vinho, como era freqüente. Ele mesmo começou a comer e, por caridade, para que o frade não ficasse envergonhado, convidou também os outros irmãos.

Depois de terem tomado o alimento no temor do Senhor, para que nada faltasse ao dever da caridade, contou-lhes o pai uma parábola sobre a virtude da discrição. Disse que o sacrifício oferecido a Deus deve ser sempre bem temperado e aconselhou carinhosamente cada um a levar em conta as próprias forças quando pensa em prestar obséquio a Deus. Afirmou que tanto era pecado deixar de dar o que era devido ao corpo quanto dar-lhe o supérfluo por gula.

E acrescentou: "Deveis saber, caríssimos, que agora comi por cortesia e não por gosto, porque assim mandava a caridade fraterna. Tomem como exemplo a caridade e não o fato de comer, porque o comer serve à gula, e a caridade ao espírito".

CAPITULO 16
Sua providência. Submete seu modo de viver à Igreja de Roma. Uma visão

23. Progredindo o santo pai continuamente em merecimentos e em virtude, e tendo os seus filhos aumentado muito em número e em santidade, pois estendiam até os confins do mundo seus ramos carregados de frutos maravilhosos, começou a pensar seriamente no que teria que fazer para conservar e fazer crescer aquela planta nova sem perder o vínculo da união.

Percebia que havia muitos que eram como lobos enraivecidos contra o seu pequeno rebanho. Inveterados no mal, buscariam pretexto para prejudicá-los só porque eram uma novidade. Previa que mesmo entre seus próprios filhos poderiam suceder coisas contrárias à santa paz e unidade e temia que, como pode acontecer com os escolhidos, pudessem aparecer alguns, inflados por sua própria sensualidade, dispostos a contendas e inclinados aos escândalos.

24. Como o homem de Deus estava sempre com essas preocupações e outras semelhantes, numa noite teve esta visão enquanto dormia: viu uma galinha, pequena e preta, parecida até com uma pomba, que tinha penas nas pernas e até nos pés. Seus pintainhos, sem número, rodeavam-na por toda parte, sem poder juntar-se sob suas asas. Quando se levantou e recordou tudo, o homem de Deus apresentou sua própria interpretação: "Essa galinha sou eu, moreno e baixinho. Devo procurar ter a simplicidade da pomba pela inocência de vida, que é rara neste mundo e voa mais facilmente para o céu. Os pintainhos são os frades, que se multiplicaram em número e santidade, a quem não bastam minhas pobres forças para defender da maldade dos homens e da oposição das más línguas...

Por isso vou recomendá-los à santa Igreja Romana, cuja vara poderosa castigará os malvados, fazendo com que os filhos de Deus possam gozar em toda parte de plena liberdade para crescer na salvação eterna. Nisso reconhecerão os filhos os doces benefícios da mãe, e seguirão sempre os seus passos com especial devoção. Sob a sua proteção, não haverá de ocorrer o mal na Ordem, nem passará impune pela vinha do Senhor o filho de Belial. Ela mesma, que é santa, há de gloriar-se de emular nossa pobreza, e não permitirá que os elogios da humildade sejam ofuscados pelas nuvens da soberba. Conservará entre nós ilesos os vínculos da caridade e da paz, censurando os dissidentes com rigor.

Diante dela, florescerá continuamente a santa observância da pureza evangélica: ela não há de permitir que se perca o bom perfume de nossa vida por uma hora sequer".

Essa foi a verdadeira intenção do santo de Deus quando decidiu confiar-se à Igreja. Aí está um documento santíssimo de sua previdência para garantir o futuro.

CAPITULO 17
Pede o bispo de Óstia como representante do Papa

25. Por isso o santo foi a Roma, onde foi recebido com muita devoção pelo Papa Honório e por todos os cardeais. E com razão, porque viam brilhar em sua presença e em suas palavras tudo que já conheciam de fama: não era possível ficar indiferente diante dele. Pregou diante do Papa e dos cardeais com inspiração e fervor, transbordando plenamente tudo que o espírito lhe sugeria. 'A sua palavra comoveram-se as eminências e, movidos na profundidade, lavaram suas almas em lágrimas.

Terminada a pregação, depois de breve e familiar conversa com o Senhor Papa, dirigiu-lhe o seguinte pedido: "Senhor, como sabeis, não é fácil o acesso dos pobres e dos desprezados a tão sublime majestade. Pois tendes o mundo nas mãos, e os negócios importantíssimos não permitem que cuideis das coisas de importância mínima. Por isso, Senhor, peço que Vossa Santidade queira conceder-nos como papa o senhor de O'stia, para que, sempre salva a dignidade de vossa preeminência, os frades possam recorrer a ele quando precisarem, conseguindo tanto o benefíciodo amparo como o da orientação".

O Papa gostou de tão santo pedido, e logo colocou o Senhor Hugolino, então bispo de O'stia, à frente da Ordem, como queria o homem de Deus. O santo cardeal acolheu com carinho o rebanho que lhe foi confiado e, feito seu zeloso pai, foi pastor e irmão até sua bem-aventurada morte. A essa especial submissão devemos o amor e cuidado que a santa Igreja de Roma nunca deixa de manifestar para com a Ordem dos Menores.

Aqui termina a primeira parte.

 

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