SEGUNDA VIDA DE SÃO FRANCISCO

Tomás de Celano

SEGUNDO LIVRO

INTRODUCÃO

26. Guardar para a memória dos filhos os feitos insignes dos pais é sinal tanto da honra que estes tiveram quanto de amor para com aqueles. Com efeito, os que não os conheceram corporalmente podem pelo menos ser levados ao bem por seus feitos, e são animados para coisas melhores porque os pais, separados pelo tempo, oferecem aos filhos exemplos dignos de serem lembrados. E não é pequeno o fruto que conseguimos só de percebermos como somos pequenos, vendo como eles tinham de sobra os méritos que nos faltam.

Na minha opinião, São Francisco é um espelho santíssimo da santidade do Senhor e uma imagem de sua perfeição. Suas palavras e ações trescalam alguma coisa de divino e, se encontrarem um discípulo atento, diligente e humilde, dentro de pouco tempo, com seu ensino salutar, haverão de conduzí-lo à mais alta sabedoria. Por isso, depois de ter contado alguma coisa a seu respeito, embora em estilo simples e como que de passagem, acho que é bom acrescentar mais alguns pontos, escolhidos entre tantos, para recomendar o santo e animar nosso sonolento afeto.

O ESPIRITO PROFETICO DE SÃO FRANCISCO

CAPITULO 1

27. Elevado acima das coisas deste mundo, o bem-aventurado Pai tinha dominado de maneira muito especial tudo que havia no mundo, pois tinha os olhos sempre voltados para a luz do alto, e não só conhecia por revelação divina o que devia fazer, como também predizia muitas coisas com espírito profético, penetrava os segredos dos corações, estava informado de coisas ausentes, previa e aunciava o futuro. Vamos dar alguns exemplos.

CAPITULO 2
Descobre a falsidade de um irmão tido por santo

28. Havia um frade que, a julgar pelas aparências, demonstrava uma santidade insigne, embora singular. Estava sempre entregue à oração, observava um silêncio tão rigoroso que até se acostumara a confessar-se por gestos e não por palavras. Tinha grande entusiasmo pelas palavras da Sagrada Escritura e, quando as ouvia, sentia um admirável prazer. Todos achavam que era três vezes santo. Mas aconteceu que o santo pai foi a esse lugar, viu o frade, ouviu o santo. Enquanto todos o louvavam e elogiavam, ele comentou: "Deixai disso, irmãos, não me venhais louvar seu diabólico fingimento. Podeis ficar sabendo que isso é tentação do demônio e engano. Tenho certeza, e o fato de não querer confessar-se é uma prova".

Os frades ficaram chocados, principalmente o vigário do santo. Perguntaram: "Mas como é possível haver engano em todos esses sinais de perfeição?" Disse-lhes o pai: "Aconselhai-o a confessar-se uma ou duas vezes por semana. Se não obedecer, sabereis que é verdade o que eu disse".

O vigário chamou-o à parte e, depois de conversar familiarmente com ele, acabou mandando que se confessasse. Ele não quis saber. Pôs o dedo nos lábios, cobriu a cabeça e deu a entender que não se confessaria de maneira alguma. Os frades emudeceram, com medo do escândalo do falso santo. Não muitos dias depois, ele saiu espontaneamente da Ordem, voltou para o mundo, retornou ao seu vômito. Afinal, dobrando seus crimes, foi privado tanto a penitência como da vida.

Precisamos tomar sempre muito cuidado com a singularidade, que não é mais do que um precipício atraente. Temos a experiência de tantas pessoas singulares, que pareciam estar subindo aos céus e se precipitaram no abismo. Também devemos considerar o valor da confissão bem feita, porque não só faz mas também mostra quem é santo.

CAPITULO 3
Outro caso semelhante. Contra a singularidade

29. Coisa parecida aconteceu com outro frade, chamado Tomás de Espoleto. Todos o tinham em boa conta e estavam certos de que era santo. O santo pai achava que ele era perverso, e sua apostasia o confirmou. Não aguentou muito tempo, porque a virtude baseada na simulação não dura muito. Saiu da Ordem e morreu fora dela: agora já sabe o que fez.

CAPITULO 4
Em Damieta, prediz a derrota dos cristãos

30. No tempo em que o exército cristão estava sitiando Damieta, lá estavam o santo de Deus e seus companheiros: desejosos do martírio, tinham atravessado o mar.

Ouvindo dizer que os nossos estavam se preparando para o dia da batalha, o santo ficou muito triste. Disse a seu companheiro: "O Senhor me revelou que, se houver um combate nesse dia, os cristãos não vão sair-se bem. Se eu disser isso, vão achar que estou louco; se me calar, minha consciência não vai me deixar em paz. Que te parece?" O companheiro respondeu: "Pai, não te importes de ser julgado pelos homens, pois não vai ser a primeira vez que te chamarão de louco. Descarrega tua consciência, teme mais a Deus que aos homens".

O santo foi correndo dar bons conselhos aos cristãos, dizendo que não deveriam ir à guerra e avisando que haveriam de fracassar. Mas eles levaram a verdade na brincadeira, endureceram seus corações e não aceitaram o aviso. Partiram, atacaram, combateram e foram derrotados pelo inimigo. Durante a batalha, o santo, angustiado, mandou o companheiro levantar-se para olhar. Como não visse nada na primeira e na segunda vez, mandou olhar uma terceira. E viu o exército cristão em debandada, carregando no fim da guerra não o triunfo mas a vergonha. O desastre foi tão grande que os nossos perderam seis mil, entre mortos e prisioneiros. O santo ficou cheio de compaixão, e eles não tiveram menor arrependimento. Compadeceu-se especialmente dos espanhóis porque eram mais audaciosos e tinham sobrado muito poucos.

Pensem nisso os príncipes de todo o mundo, convençam-se de que não se pode combater impunemente contra Deus, isto é, contra a vontade do Senhor. Costuma acabar mesmo em desgraça o atrevimento, porque confia em suas próprias forças e não merece o auxílio do céu. Se é do céu que esperamos a vitória, já devemos entrar na luta com o espírito de Deus.

CAPITULO 5
Descobre os pensamentos secretos de um frade

31. Ao voltar de além-mar acompanhado por Frei Leonardo de Assis, fatigado e cansado pela viagem, o santo teve que fazer um trecho montado num jumento. O companheiro, que vinha atrás e também não estava menos cansado, começou a dizer consigo mesmo, levado por fraqueza humana: "Os pais dele e os meus não jogavam juntos. Mas agora ele vai montado e eu guiando o burro".

Estava pensando nisso quando o santo apeou de repente e disse: "Não, irmão, não convém que eu vá montado e tu a pé, tu que no mundo eras mais nobre e mais poderoso do que eu". O frade caiu das nuvens e ficou todo envergonhado, vendo que tinha sido surpreendido pelo santo. Lançou-se a seus pés confessando, em lágrimas o que tinha pensado, e pediu perdão.

CAPITULO 6
Vê um demônio em cima de um frade. Contra os que quebram a unidade

32. Havia outro frade, famoso entre os homens e ainda mais estimado diante de Deus, por sua santidade. Invejoso de suas virtudes, o pai de toda inveja quis cortar a árvore que já estava chegando aos céus e arrancar a coroa de suas mãos. Rodeia, revira, discute e examina os seus costumes, para encontrar um bom tropeço para o frade. Com a desculpa de maior perfeição, inspira- lhe o desejo da solidão. Mas era para atacá-lo a sós e derrubá-lo mais depressa e também para que, caindo sozinho, não tivesse ninguém para ajudá-lo a levantar-se.

Digamos logo: ele se afastou do convívio dos frades e foi pelo mundo como peregrino e forasteiro. Reduziu seu hábito a uma túnica curta, com o capuz solto. Percorria assim as regiões, desprezando-se em tudo.

Mas aconteceu que, viajando dessa maneira, bem depressa perdeu a consolação divina e começou a ser sacudido por tormentosas tentações. Subiram-lhe as águas até a alma e, desolado por dentro e por fora, foi adiante como um pássaro prestes a cair na armadilha. Já estava á beira do precipício quando a providência paterna teve pena e olhou para ele com bondade. Teve a graça de compreender o próprio engano e, voltando a si, finalmente, disse: "Volta para a Ordem, miserável, porque lá está a tua salvação". Não deixou para depois, levantou-se logo e correu para o regaço materno.

33. Quando chegou a Sena, onde moravam os frades, lá estava São Francisco. Coisa admirável! Logo que o santo o viu, fugiu dele e foi correndo fechar-se em sua cela. Os frades ficaram desconcertados e perguntaram por que tinha fugido. Respondeu o santo: "Por que vos admirais de minha fuga, se não conheceis o motivo? Fugi para a proteção da oração, para livrar um errado. Senti nesse meu filho alguma coisa que justamente me desgostou. Mas agora, pela graça de Cristo, já se afastou todo engano".

O irmão se ajoelhou e se confessou culpado, todo envergonhado. Disse-lhe o santo: "Deus te perdoe, irmão. Mas toma cuidado daqui para frente para não te separares de tua Ordem e de teus irmãos mesmo a pretexto de santidade". Desde então, esse frade passou a ser amigo da vida em comum e da companhia dos frades, e tinha especial devoção para com as comunidades em que mais imperava a observância regular.

Como são admiráveis as obras do Senhor quando os justos se reúnem e se congregam! Porque então os tentados resistem, os caídos são levantados, os tíbios são estimulados, o ferro se afia no ferro e os frades se ajudam uns aos outros estabelecendo-se como uma cidadela inabalável. As multidões deste mundo impedem ver Jesus, mas não é isso que acontece quando a multidão é de anjos do céu. Quem for fiel até a morte e não fugir, receberá a coroa da vida.

Outro caso semelhante

34. Pouco depois, aconteceu outro caso semelhante. Um dos frades não se submetia ao vigário do santo, mas seguia um outro frade como seu preceptor. Avisado por um intermediário do santo, que também estava presente, o frade lançou-se imediatamente aos pés do vigário e, deixando de lado seu antigo preceptor, passou a obedecer àquele que o santo tinha constituído como prelado. Mas o santo, dando um profundo suspiro, disse ao frade que lhe tinha servido de intermediário: "Irmão, eu vi um diabo nas costas do desobediente, apertando-lhe o pescoço. Guiado por tal condutor, desprezava o freio da obediência e seguia as rédeas do seu instinto. Roguei ao Senhor e logo o demônio foi embora todo confuso".

Essa era a perspicácia do santo, que tinha os olhos fracos para ver as coisas do corpo, mas enxergava muito bem as coisas espirituais. De fato, não temos de que nos admirar por ele ter visto carregado com esse peso torpe aquele que não queria suportar o Senhor da majestade. Não há meio-termo: ou levamos a carga leve, que na verdade nos carrega, ou vamos ter uma mó de burro pendurada no pescoço, com a iniquidade sentada em cima como se fosse um talento de chumbo.

CAPITULO 7
Livra os habitantes de Gréccio dos lobos e do granizo

35. O santo gostava de morar na eremitério dos frades em Gréccio, tanto porque achava rica a sua pobreza como porque podia entregar-se com maior liberdade aos exercícios espirituais numa pequena cela construída na ponta de um rochedo. Foi nesse lugar que recordou pela primeira vez o Natal do Menino de Belém, fazendo-se menino com o Menino.

Mas o povo do lugar estava sofrendo diversas calamidades: um bando de lobos vorazes atacava não só os animais mas até pessoas, e uma tempestade de granizo acabava todos os anos com o trigo e as vinhas. Num dia em que estava pregando para eles, São Francisco disse: "Para honra e louvor de Deus onipotente, ouvi a verdade que eu vos anuncio. Se cada um de vós confessar seus pecados e fizer frutos dignos de penitência, eu vos garanto que esse mal se afastará e que o Senhor olhará para vós e multiplicará os vossos bens materiais. Mas ouvi isto também, que tenho outro aviso: se fordes ingratos aos benefícios e voltardes ao próprio vômito, a praga se renovará, o castigo vai ser duplo e uma ira ainda maior cairá sobre vós".

36. De fato, pelos merecimentos e orações do santo pai, desde aquela hora acabaram as pragas, cessaram os perigos, e os lobos e o granizo não lhes causaram mais nenhum mal. Até mais: quando o granizo assolava os campos dos vizinhos e chegava perto dos deles, ou parava por ali ou se desviava para outro lado.

Tranqüilos, cresceram muito e se encheram de bens temporais. Mas a prosperidade fez o que costuma fazer: eles enterraram o rosto na gordura das coisas temporais, ou melhor, ficaram cegos com o esterco.

Por fim, caindo em coisas piores, esqueceram-se de Deus que os tinha salvo. E isso não ficou impune, porque a censura da justiça divina castiga menos quem cai do que quem recai. Excitou-se o furor de Deus contra eles, voltaram os males que tinham ido embora e mais a guerra, e ainda caiu do céu uma epidemia que acabou com muitos. É justo que os benefícios se transformem em castigo para os que são ingratos.

CAPITULO 8
Pregando em Perusa anuncia uma sedição futura e recomenda unidade

37. Alguns dias mais tarde, quando o bem-aventurado pai desceu daquela cela, disse com voz sofrida aos frades presentes: "Os habitantes de Perusa fizeram muito mal a seus vizinhos, e seu coração se exaltou, mas para sua vergonha. Na verdade, a vingança de Deus está próxima: Ele já está com a mão na espada". Depois de mais alguns dias, levantou-se afervorado e foi para Perusa. Os frades puderam concluir que tinha tido alguma visão em sua cela.

Em Perusa, reuniu o povo e começou a pregar. Mas, como os cavaleiros estavam fazendo seus exercícios e impediam a palavra de Deus, o santo se voltou para eles e disse gemendo: "Homens perversos, dignos de compaixão, que não respeitais nem temeis o juízo de Deus! Ouvi o que o Senhor vos anuncia por intermédio deste pobrezinho. O Senhor vos exaltou acima de todos os que estão ao vosso redor. Justamente por isso deveríeis ser mais bondosos com os vizinhos e mais agradecidos a Deus. Mas estais sendo ingratos, atacais os vizinhos à mão armada, matando e saqueando. Eu vos digo que isso não vai ficar sem vingança, porque Deus, para maior punição, vai fazer com que enfrenteis uma guerra interna, levantando-vos uns contra os outros. E a indignação vai instruir aqueles que a bondade não conseguiu ensinar".

Não demorou muito para se levantar a discórdia entre eles. Empunharam armas contra os companheiros: o povo se amotinou contra os cavaleiros e os nobres atacaram os plebeus à espada. Numa palavra, lutaram com tamanha ferocidade e estrago, que até os vizinhos, a quem tanto mal tinham feito, ficaram com pena.

Foi um castigo merecido! Afastaram-se daquele que é Uno e Sumo, e perderam a unidade entre eles mesmos. Não há vínculo que mais una uma nação do que o fiel amor a Deus, numa fé sincera e sem fingimento.

CAPITULO 9
Profetiza a uma mulher a conversão do marido

38. Naqueles dias, viajando o servo de Deus para Celle de Cortona, uma nobre dama da aldeia de Volusiano teve conhecimento disso e correu ao seu encontro. Após uma viagem muito cansativa, porque era de compleição muito delicada, acabou chegando ao santo. Percebendo como estava ofegante e exausta, o santo pai ficou com pena e lhe disse: "Que desejais, Senhora?" "Que me abençoeis, pai". E o santo: "Sois casada ou solteira?"

"Pai, respondeu, tenho um marido muito cruel, que me impede de servir a Jesus Cristo. Essa é minha maior dor, porque, por causa de meu marido, não posso cumprir os bons propósitos que o Senhor me inspirou. Por isso, ó santo, eu vos peço que intercedais por ele, para que a misericórdia divina lhe transforme o coração".

Admirado da fortaleza e maturidade de uma mulher tão jovem, o pai teve compaixão e disse: "Vai, filha abençoada. Podes ter a certeza de que bem depressa terás uma consolação por parte de teu marido". E acrescentou: "Diz-lhe, da parte de Deus e da minha, que agora é o tempo de salvação, e depois virá o da justiça".

Tendo recebido a bênção, a mulher foi embora. Quando encontrou o marido e lhe deu o recado, o Espírito Santo desceu de repente sobre ele e o renovou, fazendo com que dissesse com toda a mansidão: "Senhora, vamos servir ao Senhor em nossa casa e salvar nossas almas".

A mulher disse: "Acho que devemos colocar a continência como fundamento de nossa vida espiritual, para edificar sobre ela as outras virtudes".

"Eu também estou de acordo", disse ele.

A partir desse dia viveram como celibatários durante muitos anose tiveram uma morte feliz no mesmo dia, um como o holocausto da manhã e o outro como o sacrifício da tarde.

Feliz mulher que assim conseguiu convencer seu senhor, restituindo-o à vida! Cumpriu-se nela o que foi dito pelo Apóstolo: "O marido infiel é salvo pela mulher fiel". Mas pessoas assim, como se diz comumente hoje em dia, podem contar-se nos dedos.

CAPITULO 10
Descobre por inspiração que um frade escandalizou a outro 
e prediz que haveria de sair da Ordem

39. Certa ocasião, vieram da Terra do Labor dois frades. O mais velho tinha escandalizado muito o mais novo: não era um companheiro mas um tirano. Mas o mais jovem suportava tudo em silêncio por amor de Deus.

Quando chegaram a Assis, e o mais novo foi visitar São Francisco (porque era muito conhecido dele), o santo disse entre outras coisas: "Como é que se comportou contigo o teu companheiro nessa viagem?" O frade respondeu: "Muito bem, pai caríssimo". Mas o santo retrucou: "Cuidado, irmão, para não mentires, pensando em ser humilde, porque eu sei como ele te tratou. Mas espera um pouco e hás de ver".

O frade ficou muito admirado de que ele tivesse conhecido pelo espírito coisas que não presenciara. De fato, não muitos dias depois, desprezando a Ordem, foi-se embora o que tinha escandalizado seu irmão. Sem dúvida, é um sinal de maldade e demonstração de falta de juízo fazer o mesmo caminho e não saber andar de acordo com o companheiro.

CAPITULO 11
Descobre que um jovem que entrou na Ordem não é guiado pelo espírito de Deus

40. Por esses mesmos dias chegou a Assis um jovem da nobreza de Lucca, querendo entrar na Ordem. Apresentado a São Francisco, suplicou de joelhos e entre lágrimas que o recebesse. Mas o homem de Deus enxergou dentro dele e teve a inspiração de que ele não estava sendo trazido pelo espírito. Disse-lhe: "Pobre homem carnal, por que pensas que podes enganar ao Espírito Santo e a mim? Estás chorando por motivos humanos, e teu coração não está com Deus. Vai, porque não entendes coisa alguma espiritualmente".

Acabava de dizer isso quando avisaram que seus pais estavam à porta, querendo levá-lo à força. Mas ele saiu ao seu encontro e foi embora de boa vontade. Os frades ficaram muito admirados e louvaram ao Senhor em seu santo.

CAPITULO 12
Cura um clérigo, mas prediz que, por causa de seu pecado, 
haverá de sofrer coisas piores

41. No tempo em que o santo pai esteve doente no palácio episcopal de Rieti, um cônego chamado Gedeão, sensual e mundano, também estava de cama, com dores por todos os lados. Fez com que o levassem a São Francisco e pediu, entre lágrimas, que lhe fizesse o sinal da cruz.

O santo disse: "Como é que vou fazer o sinal da cruz se estás vivendo há muito tempo de acordo com os desejos da carne, sem temer os juizos de Deus?" E acrescentou: "Eu te assinalo em nome de Cristo, mas fica sabendo que sofrerás coisas ainda piores se, depois de libertado, voltares ao vômito". Ainda concluiu: "Quando há um pecado da ingratidão, os castigos são sempre piores que os anteriores".

Fez o sinal da cruz, e logo o cônego, que estivera deitado e contraído, levantou-se curado e entoando louvores. Disse: "Estou livre". Muita gente ouviu seus ossos estalarem, como quando se quebra lenha seca com as mãos.

Mas, pouco tempo depois, esquecido de Deus, entregou-se outra vez à sensualidade. Numa noite em que tinha jantado em casa de um cônego seu colega, tendo lá ficado para dormir, o teto da casa ruiu de repente sobre todos. Os outros escaparam da morte, mas ele não conseguiu e foi esmagado.

Nem devemos admirar que, como disse o santo, tenham acontecido coisas piores que as anteriores, porque devemos ser agradecidos pelos favores recebidos, e um pecado repetido ofende duas vezes mais.

CAPITULO 13
Um frade assaltado por tentações

42. Estando o santo ainda no mesmo lugar, um frade muito espiritual, que pertencia à custódia de Mársica e sofria graves tentações, disse consigo mesmo: "Oh! se eu tivesse comigo alguma coisa de São Francisco, pelo menos um pedacinho de suas unhas, acho que toda essa tempestade de tentações iria embora, e eu voltaria a viver em paz, com o auxílio de Deus".

Conseguiu a licença, foi para onde estava o santo pai e expôs o assunto a um de seus companheiros. O frade respondeu: "Acho que não vai ser possível dar-te alguma coisa de suas unhas, porque, embora nós as cortemos de vez em quando, ele manda jogá-las fora, proibindo que as conservemos".

Logo depois, o frade foi chamado e o mandaram ir ao santo, que queria falar com ele. "Filho, disse, vai buscar uma tesoura para cortar minhas unhas". O frade mostrou a tesoura, que já tinha trazido para isso e depois pegou as aparas e as entregou ao irmão que as pedira. Este recebeu-as com devoção, guardou-as com mais devoção ainda, e logo ficou livre de todas as tentações.

CAPITULO 14
Um homem que oferece pano, de acordo com o pedido do santo

43. Nesse mesmo lugar, o pai dos pobres, que vestia uma túnica velha, disse uma vez a um de seus companheiros, a quem constituíra seu guardião: "Gostaria, irmão, se fosse possível, que me arranjasses fazenda para fazer uma túnica". Ouvindo isso, o frade ficou pensando em como poderia adquirir esse pano tão necessário e tão humildemente pedido.

No dia seguinte, saiu bem cedo para ir à cidade arranjar o pano. Mas havia um homem sentado junto à porta, querendo falar com ele. Disse-lhe: "Por amor de Deus, recebe esta fazenda para fazer seis túnicas, guarda uma para ti e distribui as outras como te aprouver, pela salvação de minha alma". O frade voltou muito alegre para junto de Frei Francisco e contou como tinha recebido esse presente do céu. O pai disse: "Recebe as túnicas, porque esse homem foi enviado para satisfazer dessa forma a minha necessidade. Demos graças àquele que parece que só precisa cuidar de nós".

CAPITULO 15
Convida seu médico para almoçar em uma ocasião em que os frades nada têm. 
Quantas coisas recebem do Senhor de uma hora para outra. 
Providência de Deus para com os seus

44. Quando São Francisco morava em um eremitério perto de Rieti, visitava-o um médico, todos os dias, para cuidar de seus olhos. Certo dia, disse o santo aos frades: "Convidai o médico e dai-lhe um bom almoço". O guardião respondeu: "Pai, digo ruborizado que tenho vergonha de convidá-lo, porque estamos muito pobres".

O santo retrucou: "Será que vou ter que repetir?" E o médico, que estava presente, disse: "Irmãos caríssimos, para mim vai ser muito bom partilhar da vossa pobreza".

Os frades correram e puseram na mesa toda a provisão da sua dispensa, isto é, um pouquinho de pão, um pouco de vinho e, para comerem alguma coisa melhor, alguns legumes trazidos da cozinha. Nesse meio tempo, a mesa do Senhor teve pena da mesa dos servos: bateram à porta e eles foram atender. Era uma mulher que lhes deu uma cesta cheia: um belo pão, peixes e pastéis de camarão, coroados, por cima, com mel e uvas.

Diante de todas essas coisas, a família dos pobres ficou exultante e, deixando os pratos miseráveis para o dia seguinte, comeu logo os mais preciosos. Comovido, o médico disse: "Irmãos, nem vós religiosos nem nós seculares sabemos apreciar devidamente a santidade deste homem". Teriam ficado saturados, se não os tivesse satisfeito mais o milagre que a comida.

Pois é assim que o olhar paterno de Deus jamais abandona os seus; pelo contrário, serve-os melhor quanto mais são necessitados. Como Deus é mais generoso que o homem, alimenta-se melhor o pobre que o tirano.

Livra Frei Ricério de uma tentação

44a. Um frade chamado Ricério, tão nobre de coração como de nascimento, tinha tamanha confiança nos merecimentos de São Francisco, que achava que mereceria a graça de Deus aquele a quem São Francisco desse algum sinal de sua benevolência, mas que mereceria a ira de Deus quem não tivesse a sua amizade. Como tinha uma vontade enorme de merecer a amizade do santo, tinha muito medo de que o pai descobrisse nele algum defeito ignorado, fazendo com que seu favor ainda ficasse mais distante.

Numa ocasião em que esse frade já estava sendo afligido diária e gravemente por esse temor, sem nunca ter revelado seu pensamento a ninguém, passou por perto da cela em que São Francisco estava rezando. Estava perturbado como de costume. Percebendo tanto a sua chegada como seu estado de ânimo, o homem de Deus o chamou com bondade e lhe disse: "Não tenhas mais medo, filho, nem te perturbe nenhuma tentação, porque gosto muito de ti, e és mesmo um dos mais queridos, a quem tenho um amor especial. Aqui podes vir confiadamente quando quiseres, ou ir embora quando te parecer". O frade se espantou bastante e ficou contente com as palavras do santo pai. A partir desse dia, seguro de sua amizade, cresceu também na graça do Salvador, conforme acreditava.

CAPITULO 16
Saindo de sua cela, abençoa dois irmãos, 
cujo desejo tinha conhecido pelo Espírito Santo

45. São Francisco costumava passar o dia inteiro numa cela solitária, e não voltava para o meio dos frades a não ser que sentisse muita necessidade de tomar algum alimento. Mas não saía em horas certas para comer, porque em geral a fome maior de contemplação tomava-o inteiramente.

Uma vez chegaram a Gréccio dois frades vindos de longe, e que eram homens de santa conversação com Deus. A única razão de sua vinda era ver o santo e receber sua bênção, que desejavam havia muito tempo. Mas como chegaram e não o encontraram, porque já se havia retirado para sua cela, ficaram muito tristes: como não se podia dizer quando ia sair, a demora seria longa. Eles acharam que isso era merecido e se retiraram, desolados.

Alguns dos que viviam com São Francisco os acompanharam, tentando consolá-los. Quando já estavam à distância de uma pedrada, o santo os chamou inesperadamente e disse a um dos companheiros: "Vai dizer àqueles meus irmãos que aqui vieram que olhem para mim". Quando os frades se voltaram para ele, fez-lhes o sinal da cruz e os abençoou com muito afeto.

Eles ficaram mais do que satisfeitos, porque conseguiram o que queriam e mais um milagre, e voltaram louvando e bendizendo a Deus.

CAPITULO 17
Rezando, tira água de uma pedra e a dá a um aldeão com sede

46. Uma vez São Francisco quis ir a um certo eremitério para se entregar mais livremente à contemplação, mas estava um bocado enfraquecido e conseguiu com um homem pobre um jumento para montar.

Era tempo de calor, e o camponês, cansado daquela longa e dura caminhada subindo atrás do santo, começou a desfalecer de sede antes de chegarem. Ficando para trás, gritou insistentemente pelo santo e pediu que tivesse pena dele: disse que ia morrer se não fosse reanimado com algum pouco de água.

O santo de Deus, que sempre tinha compaixão dos aflitos, desceu imediatamente do jumento, ajoelhou-se no chão, estendeu as mãos para o alto e não parou de rezar enquanto não sentiu que tinha sido atendido. Disse, então, ao camponês: "Vai depressa, que ali mesmo encontrarás água para beber, produzida neste instante pela misericórdia de Cristo".

Estupenda bondade de Deus, que tão facilmente se inclina aos rogos de seus servidores! Um aldeão pôde beber a água que a virtude de um homem de oração fez brotar da rocha viva. Nesse lugar nunca tinha havido fonte alguma, nem a puderam encontrar mais tarde, de acordo com uma escrupulosa pesquisa.

Por que admirar, se este homem, cheio do Espírito Santo, reproduz em si mesmo os feitos admiráveis de todos os santos? Não nos devemos surpreender de que uma pessoa unida a Cristo por graças tão singulares realize prodígios iguais aos que foram operados pelos outros santos.

CAPITULO 18
Dá de comer aos passarinhos. 
Um deles morre por causa de sua avareza

47. Uma vez, São Francisco estava sentado à mesa com os frades quando chegou um casal de passarinhos que ia sempre buscar migalhas para cuidar de seus filhotes. O santo ficou todo contente, fez-lhes carícias como era seu costume e tratou de juntar- lhes o sustento. Certo dia, pai e mãe apresentaram os filhotes aos frades, como que para agradecer por os terem alimentado, entregaram-nos e não apareceram mais.

Os filhotes se acostumaram com os frades e andavam empoleirados em suas mãos,não como hóspedes mas como de casa. Fugiam da presença dos seculares e só se aproximavam dos frades. O santo observou isso admirado e convidou os frades a se alegrarem. "Olhai, disse, o que fizeram nossos irmãos pintarroxos. Até parece que têm razão e disseram: Irmãos, aqui estão nossos filhotes, alimentados com as vossas migalhas. Fazei deles o que quiserdes, que nós vamos para outro ninho". Assim os passarinhos se familiarizaram de uma vez com os frades, e todos tomavam a refeição em comum.

Mas essa harmonia foi quebrada pela voracidade do maiorzinho, que começou a perseguir petulantemente os mais pequenos: comia à vontade e não deixava os outros chegarem perto. Disse o santo pai: "Vede o que está fazendo esse comilão. Mesmo cheio e empanturrado, tem inveja de seus esfomeados irmãozinhos. Ele ainda vai acabar mal". Não demorou muito para se cumprir o que o santo dissera. O perturbador de seus irmãos subiu a um vaso de água para beber, caiu e morreu afogado. E não houve gato ou qualquer outro animal que quisesse comer o passarinho anatematizado pelo santo.

Horroroso mal é o egoísmo dos homens, quando é punido dessa maneira nos pássaros. E também é para temer a condenação dos santos, uma vez que o castigo vaticinado vem com tanta facilidade.

CAPITULO 19
Cumprem-se todas as predições a respeito de Frei Bernardo

48. Numa outra ocasião, fez esta profecia a respeito de Frei Bernardo, que tinha sido o segundo frade da Ordem: "Eu vos afirmo que ele recebeu, para sua provação, os piores e mais astutos dos demônios. Mas não vão conseguir nada apesar de todo o seu esforço para fazer cair do céu essa estrela. Ele vai sofrer tribulações, tentações e angústias mas haverá de triunfar de tudo". E acrescentou: "Mais perto de sua morte, afastada a borrasca e vencida toda tentação, gozará de admirável paz e tranqüilidade e, tendo terminado sua carreira, partirá feliz para Cristo".

E foi assim mesmo. Sua morte ficou conhecida por diversos milagres e tudo que o homem de Deus havia predito realizou-se ao pé da letra. Os frades até disseram: "De fato, esse irmão não foi suficientemente conhecido enquanto estava vivo". Mas vamos deixar os louvores de Frei Bernardo para serem contados por outras pessoas.

CAPITULO 20
O frade tentado que quer ter alguma coisa escrita pela mão do santo

49. No tempo em que o santo estava recolhido a sua cela no Monte Alverne, um de seus companheiros tinha muita vontade de ter algum escrito edificante com as palavras do Senhor, anotadas brevemente pela mão de São Francisco. Achava que, dessa maneira, ficaria livre de uma grave tentação não da carne mas do espírito, ou que pelo menos conseguiria suportá-la melhor.

Preocupado com esse desejo, tinha receio de abrir-se com o santíssimo pai. Mas, se ele não o disse, revelou-lho o Espírito Santo. Porque um dia São Francisco o chamou e disse: "Traz-me papel e tinta: quero escrever umas palavras e louvores do Senhor, que estive meditando em meu coração".

Quando recebeu o que pedira, o santo escreveu de próprio punho os Louvores de Deus e as palavras que quis, e por último uma bênção para o frade, dizendo-lhe: "Recebe este pedaço de papel e guarda-o diligentemente até o dia de tua morte". A tentação desapareceu na mesma hora. O escrito foi guardado e, posteriormente, realizou coisas admiráveis.

CAPITULO 21
Dá uma túnica ao mesmo religioso, satisfazendo seu desejo

50. No mesmo frade resplandeceu outro milagre. No tempo em que o santo pai estava doente no palácio de Assis, esse frade pensou consigo mesmo: "O pai está para morrer. Minha alma ficaria muito consolada se, depois de sua morte, eu tivesse uma túnica do meu pai".

Como se o seu desejo do coração fosse um pedido feito com a boca, pouco depois foi chamado por São Francisco, que lhe disse: "Dou-te esta túnica. Recebe-a e passará a ser tua: vou usá-la enquanto estiver vivo, mas será tua quando eu morrer". Admirado de tão profunda penetração, o frade recebeu a túnica muito consolado. Mais tarde, ela foi levada para a França, com muita devoção.

CAPITULO 22
O aipo encontrado de noite, entre ervas agrestes

51. Nos últimos tempos de sua doença, teve vontade de comer aipo, tarde da noite, e o pediu com humildade. Chamaram o cozinheiro para que o trouxesse, mas ele disse que não poderia colher nada na horta: "Eu apanho aipos todos os dias, e já cortei tanto, que até de dia mal consigo achar algum. De noite, com a escuridão, nem seria capaz de distinguí-lo das outras ervas".

Mas o santo disse: "Vai, meu irmão, e para não te dar trabalho, traz as primeiras ervas em que puseres as mãos". O frade foi à horta, arrancou as primeiras plantas que encontrou, sem enxergar, e as trouxe para casa. Os frades olharam as ervas do mato e, revirando-as, encontraram entre elas um aipo folhudo e tenro.

O santo comeu um pouquinho e ficou muito confortado. E disse aos irmãos: "Irmãos caríssimos, cumpri as ordens sempre à primeira palavra, sem esperar que sejam repetidas. Não fiqueis pensando na impossibilidade porque, mesmo que eu desse alguma ordem acima das forças, a própria obediência tem suas forças". Até esse ponto o dotara-o o Espírito Santo com o dom da profecia.

CAPITULO 23
Prediz fome para depois de sua morte

52. Os santos às vezes são obrigados pela força do Espírito Santo a falar coisas maravilhosas a respeito de si mesmos, quando é a glória de Deus que exige uma revelação, ou há alguma exigência da caridade para edificação do próximo.

Foi por essa razão que, um dia, o santo pai contou a um frade a quem tinha grande estima uma revelação que tinha tido em sua comunicação familiar com a majestade divina: "Em nossos dias, existe na terra um servo de Deus, por quem o Senhor não vai permitir que a fome se abata sobre a humanidade enquanto ele viver".

Não tinha vaidade nenhuma. Só a santa caridade, que busca seus interesses, fez com ele que relatasse isso para nossa edificação, em palavras santas e modestas. E nem devia mesmo esconder com um silêncio inútil tão admirável prerrogativa da predileção de Deus para com seu servo.

Todos que estivemos presentes sabemos como foram calmos e pacíficos os tempos enquanto o santo viveu, e transbordaram na fertilidade de todos os bens. Não havia fome da palavra de Deus, porque as palavras dos pregadores eram então cheias de maior virtude, e os corações de todos os ouvintes estavam mais dispostos para Deus. Refulgiam os exemplos de santidade na figura dos religiosos, a hipocrisia dos "caiados" ainda não tinha atacado tantos santos, e a doutrina dos "transfigurados" ainda não tinha despertado tanta curiosidade. Era justo que houvesse abundância dos bens temporais quando todos tinham tanto amor pelos bens eternos.

53. Quando ele nos foi tirado, houve uma alteração e tudo ficou diferente. Guerras e revoluções se espalharam por toda parte, e de uma hora para outra muitos reinos foram invadidos por calamidades mortais. Uma fome atroz se estendeu em todas as direções, e sua crueldade, superando todos os males, acabou com muita gente. A necessidade transformou tudo em alimento, e os homens comeram o que nem os animais costumam comer. Chegaram a fazer pães com cascas de nozes e de árvores. Para falarmos um tanto veladamente, há testemunhas para confirmar que nem a morte de um filho chegou a comover um pai torturado pela fome.

Mas, para que fique bem certo quem era aquele servo fiel, por cujo amor a mão de Deus estava suspendendo a vingança, o próprio pai São Francisco, poucos dias depois de sua morte, apareceu ao frade a quem tinha predito a desgraça e afirmou claramente que era ele aquele servo do Senhor.

Certa noite, estando o frade a dormir, chamou-o com voz clara e disse: "Irmão, já chegou a fome que Deus não permitiu que viesse sobre a terra enquanto eu estava vivo". Acordado pela voz, o frade contou depois tudo direitinho. Três noites depois, o santo apareceu de novo e repetiu as mesmas palavras.

CAPITULO 24
Grandeza do santo e pequenez nossa

54. Ninguém deve estranhar que o profeta de nosso tempo gozasse de tais privilégios. Livre da escuridão das coisas terrenas, não submisso aos desejos da carne, sua inteligência voava para as alturas mais sublimes e penetrava na luz com pureza. Iluminado pelos resplendores da luz eterna, tirava da Palavra eterna o que ressoava em suas palavras.

Ai, como somos diferentes hoje! Envolvidos nas trevas, nem o necessário conhecemos! O motivo não é nenhum outro: somos amigos da carne e estamos também envolvidos no pó dos mundanos. Se elevássemos nossos corações para os céus junto com as mãos, se aspirássemos pelas coisas eternas, provavelmente ficaríamos sabendo o que ignoramos: Deus e nós mesmos. Quem se revira na lama tem que ver lama; quem puser os olhos no céu não poderá deixar de ver as coisas celestiais.

 

A POBREZA

CAPITULO 25
Louvor à Pobreza

55. Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza.

Vendo que era estimada pelo Filho de Deus e estava sendo desprezada por toda a terra, quis desposá-la com um amor eterno. Apaixonado por sua beleza e querendo unir-se mais estreitamente a sua esposa, como se fossem dois em um só espírito, abandonou não só pai e mãe mas tudo. Abraçou-a por isso em ternos abraços e não quis deixar de ser seu esposo em nenhum momento. Dizia a seus filhos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas.

Jamais houve alguém tão ambicioso de ouro quanto ele de pobreza, e nunca houve guarda mais cuidadoso de um tesouro do que ele o foi da pérola evangélica. O que mais o ofendia era ver, dentro ou fora de casa, alguma coisa nos frades que fosse contrária à pobreza. Desde sua entrada na Ordem até à morte, sua única riqueza foram uma túnica, o cordão e as calças. Sua roupa pobre mostrava que riquezas estava amontoando. Por isso, alegre, seguro e livre para correr, tinha o prazer de ter trocado as riquezas que perecem pelo cêntuplo.

POBREZA DAS CASAS

CAPITULO 26

56. Ensinava os seus a construírem habitações pequenas e pobres, de madeira e não de pedra, como as choças das pessoas mais miseráveis. Muitas vezes, falando da pobreza, recordava aos frades aquela passagem do Evangelho: "As raposas têm tocas e os pássaros do céu têm ninhos, mas o Filho de Deus não tem onde repousar a cabeça".

CAPITULO 27
Começa a destruir uma casa na Porciúncula

57. Certa feita, deveria haver um capítulo em Santa Maria da Porciúncula. Já estava em cima da hora e o povo de Assis, achando que não havia um local adequado, construiu rapidamente uma casa para o capítulo, sem que o soubesse o homem de Deus, que estava ausente.

Quando o santo voltou e viu a casa, ficou muito triste e aborrecido. Achou que devia ser o primeiro a eliminar o edifício. Subiu ao telhado e com mão forte pôs abaixo telhas e cobertura. Mandou os frades subirem também para acabar de uma vez com aquele monstro contrário à pobreza. Porque dizia que logo se haveria de espalhar pela Ordem e ser tomado por exemplo tudo que se visse de mais pretencioso naquele lugar.

Teria acabado de uma vez com o prédio se os soldados que lá estavam não tivessem feito frente ao seu fervor dizendo que ele pertencia à comuna e não aos frades.

CAPITULO 28
Na casa de Bolonha, põe os doentes para fora

58. Uma vez, voltando de Verona, ia passar por Bolonha mas ouviu dizer que aí tinha sido construída uma casa nova para os frades. Só de ouvir falar em "casa dos frades", mudou de direção e foi por outro lado, sem passar por Bolonha. Depois mandou que frades saíssem imediatamente da casa: não ficaram nem os doentes, postos para fora como os outros.

E não deu licença para voltarem enquanto o cardeal Hugolino, então bispo de Óstia e legado na Lombardia, não afirmasse em pública pregação que a casa era sua. Quem o referiu e testemunhou também teve que sair doente da casa nessa ocasião.

CAPITULO 29
Nega-se a entrar numa cela com o seu nome

59. Não queria que os frades habitassem lugar algum, pormenor que fosse, a não ser que constasse com certeza quem era o seu dono. Sempre exigiu que seus filhos observassem as leis dos peregrinos: abrigar-se sob teto alheio, passar em paz, ansiar pela pátria.

No eremitério de Sarciano, uma vez um frade perguntou ao outro de onde vinha, e este respondeu que "da cela de Frei Francisco". O santo ouviu e disse: "Já que deste à cela o nome de Francisco, tomando posse dela para mim, que ela arranje outro morador, porque eu não vou mais morar lá. O Senhor, quando esteve no deserto em que orou e jejuou por quarenta dias, não mandou fazer uma cela nem uma casa, mas ficou embaixo de uma rocha da montanha. Nós podemos seguí-lo na forma determinada, deixando de ter qualquer propriedade, embora não possamos viver sem casas".

POBREZA DOS UTENSILIOS

CAPITULO 30

60. Não só abominava a ostentação das casas como tinha horror a utensílios muito numerosos ou de valor. Não gostava de nada que, nas mesas ou nos recipientes, recordasse o mundanismo, para que tudo cantasse a peregrinação e o exílio.

CAPITULO 31
Exemplo da mesa que prepararam em Gréccio no dia da Páscoa. 
Apresenta-se como peregrino, a exemplo de Cristo

61. Num dia de Páscoa, os frades prepararam no eremitério de Gréccio uma mesa mais bonita, com toalhas brancas e copos de vidro. Quando o santo pai desceu de sua cela e foi para a mesa, viu-a arrumada em lugar elevado e ostentosamente enfeitada: toda ela ria, mas ele não sorriu.

Às escondidas e devagarinho, saiu, pôs na cabeça o chapéu de um pobre que lá estava, tomou um bordão e foi para fora. Esperou à porta até que os frades começaram a comer, porque estavam acostumados a não esperá-lo quando não vinha ao sinal.

Quando iniciaram o almoço, clamou à porta como um pobre de verdade: "Uma esmola, por amor de Deus, para um peregrino pobre e doente". Os frades responderam: "Entra, homem, pelo amor daquele que invocaste".

Entrou logo e se apresentou aos comensais. Que espanto provocou esse peregrino! Deram-lhe uma escudela, e ele se sentou à parte, pondo o prato na cinza. E disse: "Agora estou sentado como um frade menor". Dirigindo-se aos irmãos, disse: "Mais do que os outros religiosos, devemos deixar-nos levar pela pobreza do Filho de Deus. Vi a mesa preparada e enfeitada, e vi que não era de pobres que pedem esmola de porta em porta".

O fato demonstra que ele era semelhante àquele outro peregrino que ficou sozinho em Jerusalém nesse mesmo dia de Páscoa. Mas, quando falou, deixou abrasado o coração de seus discípulos.

CAPITULO 32
Contra a preciosidade dos livros

62. Ensinava que nos livros devemos procurar o testemunho do Senhor e não o seu valor material; a edificação e não a aparência. Queria que fossem poucos e à disposição dos frades que precisavam. Por isso, quando um ministro lhe pediu licença para ter uns livros de luxo e muito preciosos, ouviu esta resposta: "Não quero perder pelos teus livros o livro do Evangelho, que professei. Faz o que quiseres, contanto que não seja com a desculpa da minha licença".

POBREZA DAS CAMAS

CAPITULO 33
Exemplo do bispo de Óstia, e seu elogio

63. Era tão grande a pobreza em questão de camas e cobertas, que alguém que tivesse algum pedaço de pano gasto para pôr em cima da palha achava que estava ocupando um leito nupcial.

Durante um capítulo em Santa Maria da Porciúncula, chegou o bispo de O'stia, com uma multidão de soldados e clérigos, para visitar os frades. Vendo-os deitados no chão e olhando suas camas, que mais pareciam ninhos de feras, chorou muito e disse diante de todos: "Olhem onde dormem os frades. Que será de nós, miseráveis, que tanto abusamos do supérfluo?" Todos os presentes se comoveram até as lágrimas e foram embora muito edificados.

Foi esse o bispo de Óstia que, feito mais tarde porta principal da Igreja, resistiu sempre aos inimigos, até que entregou a Deus sua alma bendita, como uma hóstia sagrada. Que coração piedoso, que entranhas de caridade! Colocado no alto, doía-se por não ter altos merecimentos, mas na realidade era mais sublime pela virtude que pelo cargo.

CAPITULO 34
O que lhe acontece numa noite ao usar um travesseiro de penas

64. Por falar em camas, lembro-me de um outro fato que talvez seja bom contar. Desde o tempo em que o santo se converteu para Cristo e tratou de esquecer as coisas do mundo, não quis mais deitar sobre um colchão ou pôr a cabeça num travesseiro de penas. E não quebrava essa resolução nem quando estava doente ou hospedado em casa de outros.

Mas, no eremitério de Greccio, quando sua doença dos olhos se agravou, foi obrigado contra sua vontade a usar um pequeno travesseiro. Quando amanheceu a primeira noite, chamou seu companheiro e disse: "Irmão, não pude dormir nesta noite, nem ficar em pé para rezar. A cabeça tremia, os joelhos cediam, e o corpo se sacudia todo, como se tivesse comido pão de joio. Acho que o diabo está nesse travesseiro em que pus a cabeça. Leva-o, que não quero mais saber de diabo na cabeça".

O frade se compadeceu do pai, que continuava a se lamuriar, e pegou o travesseiro que lhe foi jogado para levar embora. Quando saiu, perdeu a fala, e se sentiu oprimido e preso por tamanho horror, que nem podia mover os pés do lugar nem mexer os braços de lado algum.

Depois de algum tempo, quando o santo ficou sabendo disso, mandou chamá-lo. Então ficou livre, voltou e contou o que tinha sofrido. Disse-lhe o santo: "'A tarde, quando estava rezando Completas, tive certeza de que o diabo vinha para a minha cela". E acrescentou: "É muito esperto e matreiro o nosso inimigo. Quando não pode fazer o mal dentro da alma, faz com que o corpo tenha oportunidade de murmurar".

Ouçam-no os que espalham almofadas por todos os lados, para caírem sempre no mole. O diabo segue o luxo de boa vontade, gosta de estar ao lado das camas muito cômodas, principalmente quando não há necessidade e quando são contrárias à vida que se professou. Mas a antiga serpente foge com horror do homem despojado, ou porque detesta a companhia dos pobres, ou porque tem medo da grandiosidade da pobreza. Se o frade se convencer de que o diabo está embaixo das penas, ficará contente com palha para a cabeça.

EXEMPLOS CONTRA O DINHEIRO

CAPITULO 35
Dura correção para um frade que o toca com as mãos

65. Verdadeiramente apaixonado por Deus, desprezava profundamente tudo que era do mundo mas, acima de tudo, detestava o dinheiro. Fez pouco dele desde o início de sua conversão, e aos seus seguidores sempre disse que deviam fugir do dinheiro como do próprio demônio. Costumava repetir que deviam dar o mesmo valor ao esterco e ao dinheiro.

Certo dia, entrou um leigo para rezar na igreja de Santa Maria da Porciúncula, e pôs dinheiro de esmola junto da cruz. Quando ele foi embora, um frade pegou o dinheiro com simplicidade e o jogou numa janela. O santo ficou sabendo que o frade fizera isso e ele, vendo-se descoberto, correu pedir perdão e se prostrou no chão pedindo penitência. O santo o repreendeu e lhe disse coisas duras por ter tocado o dinheiro. Depois mandou que o pegasse na janela com a boca e que assim o levasse para fora do terreno e colocasse em cima de esterco de asnos. O frade obedeceu de bom grado e os presentes ficaram cheios de temor. Tiveram ainda maior aversão pelo dinheiro que assim tinha sido comparado ao esterco e se encorajavam a desprezá-lo cada dia com novos exemplos.

CAPITULO 36
Castigo de um frade que apanhou uma moeda

66. Dois frades iam a caminho de um hospital de leprosos. No caminho, encontraram uma moeda, pararam e ficaram discutindo sobre o que deviam fazer com aquele esterco. Um deles, rindo-se dos escrúpulos do confrade, tentou pegar o dinheiro para levá-lo aos enfermeiros dos leprosos. O companheiro disse que não deveria fazer isso, enganado por uma falsa piedade e desprezando temerariamente o preceito da Regra, que dizia muito claramente que dinheiro achado deve ser pisado como pó. Mas o outro não quis ouvir, porque sempre tinha sido de cabeça dura. Desprezou a Regra, abaixou-se e apanhou a moeda. Mas não escapou ao julgamento divino. Perdeu a fala na hora, rangia os dentes e não podia se comunicar.

Dessa maneira, o castigo fez bem para o louco, e a punição ensinou o soberbo a obedecer às leis do pai. Finalmente, jogou fora aquele fedor, e seus lábios lavados na água da penitência prorromperam em louvores. É velho o ditado: "Corrige o néscio e terás um amigo".

CAPITULO 37
Repreende a um frade que quer guardar dinheiro com a desculpa de que é necessário

67. Uma ocasião, Frei Pedro Cattani, vigário do santo, considerando que uma multidão de frades de fora freqüentava Santa Maria da Porciúncula, e que as esmolas não eram suficientes para prover o necessário, disse a São Francisco: "Irmão, não sei o que fazer quando vêm grupos de irmãos de toda parte e não tenho o suficiente para lhes oferecer. Peço que permitas guardar algumas coisas quando entram noviços, para recorrer a elas no tempo oportuno".

- "Irmão caríssimo - respondeu o santo -, longe de nós essa piedade. Não vamos ofender a Regra para servir quem quer que seja".

- "Que farei, então?", disse o frade.

- "Se não houver outro meio de prover às necessidades, despe o altar da Virgem e tira seus ornamentos. Podes crer que é melhor guardar o Evangelho de seu Filho e despojar o altar do que deixar o altar ornado e seu Filho desprezado. O Senhor mandará que alguém restitua à sua Mãe o que ela nos tiver emprestado".

CAPITULO 38
O dinheiro transformado numa cobra

68. Passando o homem de Deus com um companheiro pela Apúlia, perto de Bari, encontrou no caminho uma bolsa grande, dessas que chamam de alforje de negociante, cheia de moedas. O companheiro chamou a atenção do santo e insistiu com ele para recolher a bolsa e dar o dinheiro aos pobres. Falou em piedade para com os necessitados e fez o elogio das obras de misericórdia que podiam ser feitas com aquele dinheiro.

O santo se recusou absolutamente e disse que aquilo era manha do diabo. Disse: "Filho, não é lícito pegar o que é dos outros. Dar o que não é nosso é pecado e não merecimento".

Afastaram-se, apressando-se para terminar a viagem. Mas o frade não sossegou, iludido por sua falsa piedade. Continuou a sugerir a obra má.

Então o santo concordou em voltar, não para cumprir a vontade do frade, mas para esclarecer àquele insensato o mistério divino. Chamou um rapaz que estava sentado em cima de um poço à beira da estrada, para dar testemunho da Trindade "na boca de duas ou três testemunhas". Quando os três chegaram onde estava a bolsa, viram-na gorda de dinheiro.

Mas o santo não deixou nenhum deles se aproximar, querendo demonstrar com a força da oração a ilusão diabólica. Afastou-se à distância de uma pedrada e se pôs a rezar. Quando voltou, mandou o frade pegar a bolsa que, por efeito de sua oração, continha uma cobra no lugar do dinheiro.

O frade começou a tremer de medo, tomado de estranho pressentimento. No fim, por respeito à santa obediência deixou de duvidar e pegou a bolsa. Não era pequena a cobra que saiu lá de dentro, convencendo o frade da falsidade do demônio.

Disse o santo: "Irmão, para os servos de Deus, o dinheiro é apenas o diabo e uma cobra venenosa".

POBREZA DAS ROUPAS

CAPITULO 39
Repreensão do santo, por palavras e por exemplo, 
aos que se vestem com luxo

69. Revestido da virtude do alto, o santo se aquecia mais com o fogo divino que tinha por dentro do que com a roupa que lhe recobria o corpo. Não suportava os que, na Ordem, usavam roupas a mais ou de qualidade mais fina. Afirmava que a necessidade que não se firma em razões válidas mas na veleidade é sinal de perda do espírito: "Quando o espírito está frio e se vai esfriando na graça, a carne e o sangue precisam procurar o que é seu".

Também dizia: "Que resta para a alma que só encontra prazer nas delícias da carne? É então que a vontade animal se disfarça em necessidade, e o sentido da carne forma a consciência". Acrescentava: "Se um de meus frades tiver uma necessidade verdadeira, próxima da indigência, e se apressar em satisfazê-la, em afastá-la de si, qual será o seu mérito? Teve uma oportunidade de merecimento, mas procurou demonstrar que não a apreciou". Submetia os principiantes a essas necessidades e a outras semelhantes, porque não suportá-las com paciência é o mesmo que retornar ao Egito.

Afinal, não queria que em nenhuma oportunidade os frades tivessem mais que duas túnicas, embora permitisse que as reforçassem com remendos. Ensinava a detestarem os panos luxuosos, e aos que faziam o contrário repreendia fortemente diante de todos. Para escarmentar tais frades com seu exemplo, costurou sobre sua túnica um saco rude. Mesmo na hora da morte pediu para cobrirem a túnica que seria sua mortalha com outro pano mais pobre.

Mas aos frades que eram forçados pela doença ou por outra necessidade permitia que usassem outra túnica mais fina junto ao corpo, mas de forma que exteriormente se observasse a aspereza e pobreza. Dizia: "Ainda vai haver tamanho relaxamento no fervor, e um domínio tão grande da tibieza, que filhos do pobre pai não vão se envergonhar de usar até púrpura, cuidando apenas de mudar a cor". Com isso, pai, não é a ti que enganamos como filhos falsos; nossa maldade engana a si mesma. E isso está aumentando e se fazendo cada dia mais evidente.

CAPITULO 40
Diz que os que se afastam da pobreza serão corrigidos pela necessidade

70. Algumas vezes, o santo se lamentou dizendo: "Quanto mais os frades se afastarem da pobreza, mais o mundo se há de afastar-se deles. Procurarão e não hão de encontrar. Mas, se estiverem abraçados à minha senhora pobreza, o mundo os alimentará, pois foram dados para a salvação do mundo". Também dizia: "Há um contrato entre o mundo e os frades: os frades dão bom exemplo ao mundo e o mundo provê suas necessidades. Quando forem infiéis e deixarem de dar bom exemplo, o mundo retirará sua mão, em justa repreensão".

Pelo zelo da pobreza, o homem de Deus tinha medo do número muito grande, que pode demonstrar riqueza, se não de fato, pelo menos na aparência. Por isso, dizia: "Oh! se fosse possível que o mundo só visse os frades raramente e se admirasse de serem tão poucos!"

Unido à senhora pobreza por um vínculo indissolúvel, esperava seu dote futuro, não o presente. Cantava com maior fervor e alegria os Salmos que falam da pobreza como: "Não ficará o pobre em eterno esquecimento", e "Olhai, pobres, e alegrai-vos".

A MENDICANCIA

CAPITULO 41
Recomendação da mendicância

71. O santo pai gostava mais das esmolas pedidas de porta em porta do que das que eram dadas espontaneamente. Dizia que a vergonha de mendigar era inimiga da salvação, embora afirmasse que a vergonha de mendigar que não impede de fazê-lo é coisa santa. Louvava o rubor que vem ao rosto por candura, mas não a vergonha que deixa confundido. Às vezes, quando exortava os seus a pedirem esmolas, usava estas palavras: "Ide, porque nesta última hora os frades menores foram dados ao mundo para que os eleitos cumpram com eles aquilo que vai ser elogiado pelo Juiz: "O que fizestes a um destes meus irmãos menores, foi a mim que fizestes".

Dizia que a Ordem tinha tido o privilégio de ter o seu nome citado tão claramente pelo Grande Profeta. Por isso queria que os frades morassem não só nas cidades mas também nos eremitérios, para dar oportunidade a todos e acabar com as desculpas dos relaxados.

CAPITULO 42
Exemplo do santo ao pedir esmola

72. Para não ofender uma vez sequer a pobreza, sua esposa, o servo de Deus altíssimo costumava agir assim: quando era convidado por senhores e sabia que ia ser distinguido com mesas mais lautas, primeiro pedia pedaços de pão pelas casas vizinhas e depois corria para a mesa, enriquecido pela miséria.

Quando lhe perguntavam por que tinha feito isso, respondia que não queria perder a herança firme por um favor de uma hora. Dizia: "É a pobreza que faz os herdeiros e os reis do reino dos céus, e não vossas falsas riquezas".

CAPITULO 43
Seu exemplo no palácio do bispo de Óstia. Resposta ao bispo

73. Numa ocasião em que São Francisco foi visitar o papa Gregório, antes de ser promovido a esse cargo, saiu já na hora da refeição para pedir esmolas e, quando voltou, colocou os pedaços de pão preto na mesa do bispo.

Quando viu isso, o bispo ficou um pouco envergonhado, especialmente por causa dos convidados que lá estavam pela primeira vez. Mas o santo pai distribuiu com semblante alegre as esmolas que tinha recebido para os cavaleiros e capelães. Todos receberam com admirável devoção. Uns comeram na hora e outros guardaram com respeito.

No fim da refeição, o bispo se levantou e o abraçou, dizendo: "Meu irmão, por que me envergonhaste nesta casa que é tua e dos teus frades, indo pedir esmolas?" Respondeu o santo: "Pelo contrário, eu vos honrei, porque honrei o Senhor maior. O Senhor gosta da pobreza, e principalmente quando a mendicidade é voluntária. Para mim é dignidade e nobreza insigne seguir aquele Senhor que, sendo rico, se fez pobre por amor de nós". E acrescentou: "Tenho mais prazer numa mesa pobre, posta com poucas esmolas, do que nas grandiosas, em que mal dá para contar o número de pratos".

O bispo ficou muito edificado e disse ao santo: "Filho, continua a fazer o que te parece bom, porque o Senhor está contigo".

CAPITULO 44
Sua exortação a pedir esmolas pelo exemplo e pela palavra

74. No começo, para exercitar a si mesmo e por compaixão da vergonha dos frades, ia ele muitas vezes sozinho para pedir esmolas. Mas quando viu que alguns não estavam dando a devida importância a sua vocação, disse: "Irmãos caríssimos, muito mais nobre era o Filho de Deus, que se fez pobre por nós neste mundo. Por seu amor, nós escolhemos o caminho da pobreza; não nos devemos envergonhar de pedir esmolas. Os herdeiros do reino não podem ficar com vergonha daquilo que lhes está garantindo a herança celestial. Eu vos afirmo que muitos nobres e muitos sábios vão entrar na nossa Ordem e vão se sentir muito honrados por poderem pedir esmolas. Por isso, vós que sois as primícias deles, alegrai-vos e exultai, e não vos negueis a fazer o que estais transmitindo para ser feito por esses santos".

CAPITULO 45
Repreensão a um frade que não quer mendigar

75. São Francisco dizia muitas vezes que o verdadeiro frade menor não devia ficar muito tempo sem ir mendigar. "E quanto mais nobre for meu filho, mais deve gostar de ir, porque é assim que acumulará méritos".

Havia em certo lugar um frade que não era ninguém na hora de esmolar mas valia por vários na hora de comer. Vendo que era comilão, participava dos frutos mas não do trabalho, disse-lhe uma vez: "Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres comer o suor de teus irmãos e ficar ocioso no trabalho de Deus. Pareces com o irmão zângão, que não ajuda as abelhas a trabalhar mas quer comer o mel por primeiro".

Quando esse homem carnal viu que sua glutoneria tinha sido descoberta, voltou para o mundo, que nunca tinha deixado. Saiu da Ordem: já não era frade nenhum, ele que nunca tinha sido ninguém para esmolar. E o que valia por vários na hora da mesa, passou a ser uma legião de demônios.

CAPITULO 46
Corre ao encontro de um frade que traz esmolas e lhe beija o ombro

76. Numa outra oportunidade, na Porciúncula, um frade vinha voltando de Assis com esmolas e, ao chegar perto, começou a cantar e a louvar o Senhor em voz alta. Quando ouviu isso, o santo se levantou de um salto, correu para fora, beijou o ombro do frade e carregou a bolsa, dizendo: "Bendito seja meu irmão que vai com prontidão, pede com humildade e volta com alegria".

CAPITULO 47
Convence até alguns cavaleiros a pedir esmolas

77. Quando São Francisco estava muito doente e próximo do fim, foi reclamado pelo povo de Assis, que mandou uma solene delegação a Nocera, para não dar a outros a honra de ficar com o corpo do homem de Deus. Os cavaleiros que o levavam a cavalo, com muita reverência, chegaram a uma vila paupérrima, chamada Satriano. Como estavam com fome e já fosse hora de comer, foram comprar alguma coisa mas não encontraram nada. Voltaram e disseram a São Francisco: "Vais precisar dar-nos de tuas esmolas, porque aqui não há nada que se compre".

Respondeu o santo: "Não encontrais nada porque confiais mais em vossas moscas que em Deus" (chamava o dinheiro de "mosca"). "Voltai às casas por onde passastes, oferecei o amor de Deus em vez de dinheiro, e pedi esmola com humildade. Não é preciso ficar com vergonha porque, depois do pecado, tudo que temos nos é dado como esmola, e o grande Esmoler dá com clemente piedade aos dignos e aos indignos".

Os soldados deixaram de lado o respeito humano, foram pedir esmolas e conseguiram mais com o amor de Deus que com o dinheiro. As pessoas, divertidas, até competiram em serví-los e não houve fome onde dominou a opulenta pobreza.

CAPITULO 48
Em Alexandria, transforma um pedaço de frango em peixe

78. Para ele, esmolar visava mais o proveito das almas que o sustento do corpo, e era exemplo para todos quando dava e quando recebia.

Tendo ido a Alexandria da Lombardia para pregar, foi hospedado devotamente por um homem que temia a Deus e tinha muito boa fama. Pedindo-lhe este que, de acordo com o Evangelho, comesse de tudo que lhe fosse servido, concordou bondosamente, vencido pela devoção do hospedeiro.

Este cuidou logo de preparar muito bem um franguinho gordo para o homem de Deus. Estavam sentados á mesa o patriarca dos pobres e a alegre família, quando apareceu à porta um filho de Belial, pobre de toda graça mas feito mendigo por oportunismo.

Usou astuciosamente o nome do Senhor para pedir esmolas e com voz chorosa pediu que o ajudassem por amor de Deus. Ouvindo o nome que para ele era mais doce que o mel e que é abençoado mais que qualquer outro nome, o santo pegou um pedaço de frango com toda a boa vontade, colocou-o num pão e o deu ao pedinte. Ora, o infeliz guardou o que recebera para poder falar mal do santo.

79. No dia seguinte, o santo estava pregando a palavra de Deus ao povo reunido. Rugiu de repente o malvado, querendo mostrar o pedaço de frango a todo o povo. "Vede quem é esse Francisco que está pregando, a quem honrais como um santo. Vede a carne que me deu ontem à tarde quando estava jantando".

Todo mundo o repreendeu, dizendo que parecia um possesso do demônio. Porque, na verdade, todos viam que era peixe aquilo que o homem afirmava que era frango. Até ele, coitado, espantado com o milagre, foi obrigado a confessar o que todos estavam vendo. Envergonhou-se e desfez com a penitência o crime descoberto. Pediu perdão ao santo diante de todos, revelando a má intenção que tinha tido. E a carne voltou a ser o que realmente era, depois que o pecador voltou ao juízo.

OS QUE RENUNCIAM AO MUNDO

CAPITULO 49
O santo reprova um candidato que distribui suas coisas 
entre os parentes e não entre os pobres

80. Aos que vinham para a Ordem, ensinava o santo que deviam entregar ao mundo a carta de repúdio, pondo primeiro suas coisas para fora para depois poderem oferecer a si mesmos, por dentro, ao Senhor. Só admitia na Ordem os que já se tivessem despojado de toda propriedade, sem ter guardado nada para si, tanto para observar o Evangelho como para evitar que os bens retidos fossem motivo de escândalo.

81. Uma vez, depois de uma pregação em Marca de Ancona, um homem foi ter com o santo pedindo humildemente para entrar na Ordem. O santo disse: "Se te queres juntar aos pobres de Deus, distribui primeiro o que é teu aos pobres do mundo".

Ouvindo isso, ele foi, mas, levado pelo amor carnal, distribuiu o que tinha entre os seus, sem dar nada para os pobres. Quando voltou e contou ao santo sua generosidade, respondeu-lhe o pai: "Vai embora, irmão mosca, porque ainda não deixaste tua casa e teus parentes. Deste o que era teu aos parentes e defraudaste os pobres, por isso não és digno dos pobres santos. Começaste pela carne, puseste um fundamento de ruína para o teu edifício espiritual".

Voltou para casa aquele "homem animal", pediu de volta o que era seu e não tinha querido deixar para os pobres e desanimou logo de seu propósito de virtude. São muitos, hoje, os que se enganam fazendo erradamente a distribuição de seus bens, pois querem entrar numa vida santa e lhe dão um começo material. Ninguém se consagra a Deus para enriquecer os parentes, mas para remir os pecados com o preço da misericórdia e para adquirir a vida pelo fruto das boas obras.

Ensinou muitas vezes que, se os frades passassem necessidade, deveriam recorrer a outras pessoas mas não aos que estavam entrando na Ordem, primeiro para dar exemplo e depois para evitar toda aparência de aproveitamento desonesto.

CAPITULO 50
Uma visão relacionada com a pobreza

82. Vou contar uma visão memorável do santo. Certa noite, depois de longa oração, acabou adormecendo. Sua santa alma foi levada para o santuário de Deus e viu em sonhos, entre outras coisas, uma senhora que assim se apresentava: cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre de cristal e, daí para baixo, de ferro. Era de estatura alta, talhe esbelto e bem proporcionada. Mas cobria suas belas formas com um manto muito pobre. Quando se levantou, pela manhã, o bem-aventurado pai contou a visão ao santo homem que era Frei Pacífico, mas sem revelar o significado.

Muita gente já deu suas interpretações, mas não acho fora de propósito apresentar a que foi dada pelo próprio Frei Pacífico, sugerida pelo Espírito Santo, quando ouviu o caso. Disse: "Essa mulher formosa é a bela alma de São Francisco. A cabeça de ouro é a contemplação e a sabedoria das coisas eternas. O peito e os braços de prata são as palavras de Deus meditadas no coração e postas em prática. A dureza do cristal demonstra sua sobriedade e o esplendor, sua castidade. O ferro é a firmeza da perseverança. E podemos crer que o manto miserável é o pobre corpo que continha aquela preciosa alma".

Muitos outros, que possuem o espírito de Deus, acharam que essa senhora era a pobreza, esposa do santo pai. Dizem que "ela foi feita de ouro pelo prêmio da glória, de prata por sua fama, cristalina por ser a mesma por dentro e por fora sem nada para esconder, e de ferro porque perseverou até o fim. O manto miserável foi tecido para ela pela reputação que tem entre os homens materializados".

Há outros que aplicam esse oráculo à Ordem, de acordo com a sucessão de tempos, como fez o profeta Daniel. Mas podemos acreditar que se referia principalmente ao santo pai, uma vez que, para evitar a vanglória, ele se recusou absolutamente a dar uma interpretação. Não teria deixado passar em silêncio se se referisse à Ordem.

COMPAIXÃO DE SÃO FRANCISCO PARA COM OS POBRES

CAPITULO 51
Sua compaixão dos pobres. Inveja os que são mais pobres

83. Quem poderá contar toda a compaixão que esse homem tinha para com os pobres? De fato, era de uma clemência nata, redobrada pela piedade infusa. Por isso, Francisco se derretia todo pelos pobres e aos que não podia estender a mão nunca deixava de dar seu afeto.

Qualquer necessidade ou penúria que visse em alguém faziam- no pensar na mesma hora em Jesus Cristo. Via o Filho da pobre Senhora em todos os pobres, pois o levava despojado em seu coração como ela o tinha carregado em seus braços.

Apesar de se ter livrado de toda inveja, não conseguiu libertar-se da cobiça da pobreza. Quando via alguém mais pobre do que ele, sentia-se logo invejoso e, disputando em pobreza, ficava com medo de ser vencido pelo outro.

84. Certo dia, em que o homem de Deus andava pregando, encontrou um pobrezinho na rua. Vendo-o sem roupa, ficou compungido e disse a seu companheiro: "A miséria desse homem é uma vergonha para nós, e uma censura à nossa pobreza".

O companheiro respondeu: "Por que, irmão?" E o santo, lamentando-se: "Escolhi a pobreza como minha senhora e toda minha riqueza, e ela está brilhando muito mais nesse homem. Ou não sabes que por todo o mundo correu nossa fama de pobres por amor de Cristo? Pois esse pobre está provando que isso não é verdade".

Invejável inveja! E' uma emulação que deve ser imitada por seus filhos! Pois não se aflige com os bens alheios, não teme a luz do sol, não se opõe à piedade, nem se remói de amarguras. Pensas que a pobreza evangélica não tem nada para ser invejado? Tem o próprio Cristo e, nele, tudo em todas as coisas em. Por que cobiças rendimentos, ó clérigo de nossos dias? Amanhã, quando só tiveres nas mãos os lucros dos tormentos, ficarás sabendo que rico de verdade foi São Francisco.

CAPITULO 52
Correção a um frade que estava falando mal de um pobre

85. Num outro dia de pregação, chegou ao lugar um pobrezinho doente. Compadecido por seu duplo sofrimento, a miséria e a dor, começou a conversar com um companheiro sobre a pobreza.

E quando sua compaixão já se tinha transformado em ternura, disse-lhe o companheiro: "Irmão, é verdade que esse aí é pobre, mas não deve haver outro mais rico em desejo, em toda esta região".

São Francisco repreendeu-o na hora e, quando confessou sua culpa, disse-lhe: "Tira já o teu hábito, ajoelha-te aos pés do pobre e confessa a tua culpa! Não peças apenas o perdão, roga também que reze por ti!" O irmão obedeceu, fez o que tinha sido mandado e voltou. Disse-lhe o santo: "Quando vês um pobre, meu irmão, tens à frente um espelho do Senhor e de sua pobre Mãe. E da mesma maneira, nos doentes deves ver as enfermidades que ele assumiu por nossa causa!"

Francisco tinha sempre o "ramalhete de mirra" em seu coração. Estava sempre olhando para o rosto do seu Cristo, sempre agarrado ao homem das dores, que conhece todos os sofrimentos.

CAPITULO 53
Em Celano, dá uma capa a uma velhinha

86. Uma vez, em Celano, no tempo do inverno, São Francisco estava usando como capa uma peça de pano que recebera por empréstimo de um homem de Tívoli, amigo dos frades.

Estava no palácio do bispo dos marsos, quando encontrou uma velhinha pedindo esmolas. Desamarrou imediatamente o pano do pescoço e, embora não fosse seu, deu-o à pobrezinha, dizendo: "Vai fazer um vestido, que bem estás precisando". A velhinha sorriu espantada, não sei de medo ou de alegria. Pegou o pano das mãos dele, foi embora depressa, e, com medo de demorar muito e ter que devolver, passou-lhe a tesoura.

Mas quando viu que o pano cortado não ia dar para o vestido, a experiência do primeiro favor fez com que voltasse ao santo para mostrar que a fazenda era pouca. O santo se voltou para o companheiro, que levava nas costas o mesmo tanto de fazenda e lhe disse: "Estás ouvindo, irmão? Vamos suportar o frio por amor de Deus. Dá o pano para a pobrezinha acabar o vestido". Como ele tinha dado, deu também o companheiro. Despojaram-se os dois para que a velhinha se vestisse.

CAPITULO 54
Outro pobre a quem dá sua capa

87. Outra vez, voltando de Sena, encontrou um pobre e disse ao frade que ia com ele: "Temos que devolver a capa a este pobrezinho, irmão, porque é dele. Nós a recebemos por empréstimo, até encontrarmos alguém mais pobre do que nós". O companheiro, vendo a necessidade em que se achava o santo pai, resistiu firmemente para que não ajudasse o outro à sua custa. Mas o santo retrucou: "Não quero ser ladrão. Seria roubo se não déssemos ao que precisa mais". O outro desistiu, e ele deu a capa.

CAPITULO 55
Age de maneira semelhante com outro pobre

88. Coisa semelhante aconteceu em Celle di Cortona. São Francisco estava com uma capa nova, que os frades tinham conseguido para ele com muito esforço. Chegou um pobre, chorando a morte da esposa e a família que tinha ficado na miséria. Disse o santo:

- "Por amor de Deus, eu te dou esta capa, com a condição de não a dares a ninguém, a não ser que pague bem". Correram os frades para tirar a capa e impedir essa doação. Mas o pobre, animado pela expressão de apoio do santo pai, agarrou-a e defendeu-a como sua. No fim, os frades compraram a capa, e o pobre foi embora com o seu pagamento.

CAPITULO 56
A outro, dá a capa com a condição de não odiar seu patrão

89. Outra vez, em Colle, no condado de Perúsia, São Francisco encontrou um pobrezinho que conhecia desde antes de sua conversão. Perguntou-lhe: "Como vais, irmão?" E ele, mal humorado, começou a amaldiçoar seu patrão, que lhe tinha tirado tudo que era seu: "Estou é muito mal, por causa de meu patrão. Que Deus todo-poderoso o amaldiçoe!"

São Francisco, com mais pena de sua alma que de seu corpo, por causa desse ódio mortal, disse-lhe: "Irmão, perdoa o teu patrão por amor de Deus, para libertares tua alma, e para haver possibilidade de ele devolver o que tirou. Senão, além de perderes tuas coisas, acabarás perdendo tua alma também". Ele respondeu: "Não posso perdoar de maneira alguma se ele não devolver primeiro o que me pertence". Como estava com uma pequena capa nas costas, São Francisco disse: "Eu te dou esta capa e te peço que perdoes teu patrão em nome do Senhor Deus".

Acalmado, e comovido com o presente, o homem recebeu a capa e perdoou as injúrias.

CAPITULO 57
A outro pobre dá um pedaço de seu hábito

90. Solicitado certa vez por um pobre e não tendo nada para dar, descosturou a barra do hábito e a entregou. Algumas vezes deu até sua roupa de baixo. Tanta era a compaixão que tinha para com os pobres, e tanto o afeto que tinha por todas as manifestações de Cristo pobre.

CAPITULO 58
Dá a uma pobre, mãe de dois frades, 
o primeiro Novo Testamento que houve na Ordem

91. A mãe de dois frades veio uma vez ao santo, pedindo esmola com toda confiança. Compadecido dela, o santo pai disse a seu vigário Pedro Cattani: "Temos alguma esmola para dar a nossa mãe?" Porque chamava de mãe sua e de todos os frades quem fosse mãe de algum frade. Frei Pedro respondeu: "Não há mais nada em casa, que lhe possamos dar". E acrescentou: "Só temos o Novo Testamento, onde, como não temos breviário, lemos as lições de Matinas".

São Francisco disse: "Dá o Novo Testamento a nossa mãe, para que ela o venda e possa acudir sua necessidade, pois é ele mesmo que nos manda ajudar os pobres. Acho que Deus vai ficar mais contente com a esmola do que com a leitura".

Deram o livro à mulher, e assim, por essa piedade, foi-se embora o primeiro Novo Testamento que houve na Ordem.

CAPITULO 59
Deu sua capa a uma pobre que sofria da vista

92. No tempo em que São Francisco esteve no palácio do bispo de Rieti, para cuidar de sua doença dos olhos, foi consultar o médico uma pobrezinha de Maquilone, que tinha a mesma doença que o santo. Conversando familiarmente com o guardião, o santo começou a insinuar: "Irmão guardião, precisamos devolver o que não é nosso".

- "Se estivermos com alguma coisa, vamos devolver", respondeu o guardião.

- "Vamos devolver esta capa, que recebemos emprestada desta pobrezinha, porque ela não tem nada em sua bolsa para as despesas".

- "Mas essa capa é minha, disse o guardião, e não foi emprestada por ninguém. Usa-a enquanto te aprouver, mas tens que devolvê-la a mim quando não a quiseres mais". (Na realidade, tinha-a comprado o guardião um pouco antes, para a necessidade de São Francisco).

- "Irmão guardião, insistiu o santo, sempre foste cortês comigo. Peço-te que mostres tua cortesia".

- "Pai, faz como quiseres, tudo que o Espírito te sugerir!"

Então mandou chamar um secular muito devoto e lhe disse: "Toma esta capa e doze pães, e vai dizer àquela pobrezinha: O pobre a quem emprestaste a capa manda agradecer o empréstimo. Agora fica com o que é teu". Ele foi e fez como tinha sido mandado. Mas a mulher, pensando que estava sendo enganada, disse enrubescida: "Deixa-me em paz com tua capa. Não sei o que estás falando". Mas o homem insistiu e lhe colocou tudo nas mãos. Vendo que não havia engano e com medo de perder lucro tão fácil, a mulher se levantou de noite e, esquecendo o tratamento dos olhos, foi embora com a capa.

CAPITULO 60
Aparecem-lhe, no caminho, três mulheres, que o saúdam e desaparece

93. Vou contar em poucas palavras um fato admirável, de interpretação um tanto difícil mas de autenticidade garantida.

São Francisco, o pobre de Cristo, estava viajando de Rieti para Sena, para cuidar dos olhos, e atravessava a planície de Rocca Campília levando como companheiro de viagem um médico ligado à Ordem. Apareceram três pobrezinhas junto ao caminho, na passagem de São Francisco. Eram tão semelhantes no tamanho, na idade e no rosto, que pareciam três exemplares feitos na mesma forma. Quando São Francisco se aproximou, inclinaram reverentemente a cabeça e o saudaram com um cumprimento novo: "Bem-vinda, Senhora Pobreza!" O santo se encheu na mesma hora de incontável alegria, porque não havia nenhuma saudação que mais gostasse de ouvir do que a que elas tinham escolhido.

E pensando que aquelas mulheres fossem realmente pobrezinhas, virou-se para o médico que o acompanhava e disse: "Peço-te, pelo amor de Deus, que me dês alguma coisa para eu dar a essas pobrezinhas". Ele saltou imediatamente do cavalo e deu algumas moedas para cada uma.

Prosseguiram seu caminho mas, voltando-se logo o médico e os frades, não viram sinal das mulheres em toda aquela planície. Muito admirados, juntaram mais esse fato às maravilhas do Senhor, sabendo que não havia mulheres capazes de voar mais rápido que as aves.

AMOR DE SÃO FRANCISCO À ORAÇÃO

CAPITULO 61
Tempo, lugar e fervor de sua oração

94. Francisco, o homem de Deus, afastado do Senhor pelo corpo, procurava fazer seu espírito estar presente no céu. Concidadão dos anjos, só estava separado deles pela parede do corpo. Sua alma inteira tinha sede do seu Cristo e a ele dedicava não só o coração mas também todo o corpo. Das maravilhas de sua oração, vamos contar o pouco que vimos com nossos próprios olhos e tanto quanto é possível transmitir a ouvidos humanos, para imitação dos pósteros.

Empregava todo o seu tempo nessa santa ocupação, para gravar a sabedoria em seu coração porque, se não estivesse sempre progredindo, achava que estava regredindo. Quando era impedido por visitas de seculares ou por outros assuntos, interrompia-os antes do fim e voltava para o retiro. Para ele, que se alimentava da doçura celeste, o mundo era insípido. As delícias celestiais tinham-no tornado incapaz de suportar as grosseiros prazeres dos homens.

Procurava sempre um lugar escondido, onde pudesse entregar a seu Deus não só o espírito mas todo o seu corpo. Quando estava em lugares públicos e era visitado de repente pelo Senhor, para não ficar sem cela, fazia um pequeno abrigo com sua própria capa. Às vezes, quando estava sem capa, para não perder o maná escondido, cobria o rosto com as mangas.

Furtava-se sempre aos olhares dos presentes, para que não se dessem conta da presença do Amado e para poder rezar sem que o percebessem, mesmo nos estreitos limites dum navio. Se não o conseguia, fazia de seu próprio peito um templo. Fora de si e totalmente absorto em Deus, ele parava de tossir, de gemer, de suspirar forte, de se entregar a qualquer manifestação externa.

95. Isso em casa. Quando rezava em florestas ou lugares ermos, enchia os bosques de gemidos, derramava lágrimas por toda parte, batia no peito e, achando-se mais oculto que num esconderijo, conversava muitas vezes em voz alta com o seu Deus. Respondia ao juiz, fazia pedidos ao pai, conversava com o amigo, entretinha-se com o esposo. De fato, para fazer um holocausto múltiplo de todo o interior de seu coração, propunha a seus próprios olhos de muitas maneiras aquele que é sumamente simples. Muitas vezes ficava pensando com os lábios parados, e, levando para dentro todo o seu exterior, elevava-se até os céus. Transformado não só em orante mas na própria oração, unia a atenção e o afeto num único desejo que dirigia ao Senhor.

De que suavidade não era invadido, ele que estava acostumado a orar dessa forma! Só ele é quem sabe. Eu apenas posso admirá-lo. Só quem tem a experiência disso pode saber; para os demais o mistério continua inacessível: com o espírito todo abrasado de ardor, interior e exteriormente absorto, ele já se tornara cidadão dos céus.

Acostumara-se a não perder por negligência nenhuma visita do Espírito, e por isso, quando lhe era oferecida alguma, seguia-a, saboreando a doçura que lhe era dada enquanto o Senhor o permitia. Quando era solicitado por outro afazer ou tinha que prestar atenção na viagem, e pressentia sensivelmente algum toque da graça, saboreava aqui e ali, com a maior freqüência, o dulcíssimo maná. Mesmo na estrada, deixava os companheiros irem à frente, parava e, entregando-se ao gozo da nova inspiração, não deixava passar em vão aquela graça.

CAPITULO 62
Recitação devota das horas canônicas

96. Rezava as horas canônicas com devoção e não menor respeito. Mesmo doente dos olhos, do estômago, do baço e do fígado, negava-se a se encostar no muro ou na parede durante a salmodia. Rezava as horas em pé e sem capuz, sem vaguear os olhos e sem interrupções.

Quando viajava a pé, sempre parava para recitar o ofício. Se estava a cavalo, apeava. Num dia em que vinha voltando de Roma e estava chovendo muito, desceu do cavalo para rezar o ofício e ficou tanto tempo em pé que acabou encharcado. 'As vezes dizia: "Se o corpo tem uma hora de descanso para tomar o alimento que, como ele, vai ser pasto dos vermes, com que paz e tranqüilidade deve a alma tomar seu alimento, que é o seu Deus!"

CAPITULO 63
Como afasta as distrações na oração

97. Achava que cometia uma falta grave quando, entregue à oração, era assaltado por distrações. Se acontecia uma coisa dessas, não se poupava na confissão, para conseguir uma expiação completa. Esse esforço chegou a ser tão habitual que era muito raro ser atormentado por essa espécie de "moscas".

Durante uma Quaresma, fez um pequeno vaso, aplicando nisso muitos pedacinhos de tempo, para não o desperdiçar. Num dia em que estava rezando devotamente a hora de Terça, teve a atenção casualmente distraída para o vaso, e achou que sua interioridade tinha sido prejudicada no fervor. Condoído por ter interrompido a voz do coração que se dirigia a Deus, quando terminou a Terça, disse aos frades que o ouviam: "Que obra tola é essa, que teve tanta força sobre mim para me distrair a atenção! Vou sacrificá-la ao Senhor, porque estorvou o seu sacrifício".

Dizendo isso, pegou a vasilha e a jogou no fogo. Ainda disse: "Devíamos ter vergonha de nos deixar distrair quando estamos conversando com o Grande Rei, na oração".

CAPITULO 64
Êxtases

98. Era muitas vezes arrebatado por tamanho prazer na contemplação, que ficava fora de si, e a ninguém revelava as experiências sobre-humanas que tinha tido. Mas, por um fato, que uma vez chamou a atenção, podemos imaginar com que frequência ficava absorto nos prazeres celestiais.

Ia montado num jumento, e precisou passar por Borgo San Sepolcro. Como quis ir descansar numa casa de leprosos, muita gente ficou sabendo da passagem do homem de Deus. De toda parte correram homens e mulheres para vê-lo, querendo tocá-lo com a costumeira devoção. Apertavam, empurravam e lhe cortavam e repunham pedaços da túnica. Ele parecia insensível a tudo e, como um corpo morto, não tomou conhecimento de nada do que estava acontecendo. Afinal, chegaram ao lugar. Muito depois de terem deixado a povoação, o contemplador das coisas do céu, como se estivesse voltando de longe, perguntou interessado quando chegariam a Borgo.

CAPITULO 65
Como se comporta depois da oração

99. Quando voltava de suas orações particulares, em que quase se transformava num outro homem, esforçava-se por se assemelhar aos demais, para que a veneração dos outros, se o vissem abrasado de fervor, não o levasse a perder o que tinha lucrado.

Muitas vezes dizia a seus mais íntimos: "Quando um servo de Deus é visitado na oração por alguma nova consolação de Deus, deve levantar os olhos para o céu, antes de concluir, e dizer ao Senhor de mãos postas: 'Senhor, a mim que sou pecador e indigno mandaste do céu esta consolação e esta doçura. Eu a devolvo, para que a guardes para mim, porque sou um ladrão de teu tesouro'. E ainda: 'Senhor, tira-me o teu dom neste mundo e guarda-o para o outro'".

- "Assim é que se deve fazer", dizia, "mostrando-se aos outros, quando sair da oração, tão pobrezinho e pecador como se não tivesse conseguido nenhuma graça nova". Pois explicava: "Pode acontecer que, por uma pequena vantagem, a gente perca um dom de valor incalculável, e leve com facilidade aquele que o deu, a não dar mais".

Tinha o costume de se levantar para rezar tão disfarçada e quietamente, que nenhum dos companheiros percebia que se tinha levantado ou que estava rezando. Mas à noite, quando ia dormir, fazia muito ruído para todo mundo saber que tinha ido deitar.

CAPITULO 66
O bispo perde a fala quando o encontra a rezar

100. Estando São Francisco a rezar na Porciúncula, o bispo de Assis foi visitá-lo familiarmente, como costumava. Quando chegou, foi à cela do santo sem muita reverência, pois não tinha sido chamado, empurrou a pequena porta e foi entrando.

Logo que pôs a cabeça para dentro e viu o santo a rezar, foi tomado por um súbito tremor, teve os membros imobilizados e até perdeu a fala. Subitamente, por vontade do Senhor, foi lançado para fora e levado de costas para longe.

Na minha opinião, ou ele era indigno de contemplar o segredo, ou então o santo é que merecia continuar a receber mais do que tinha tido. O bispo voltou espantado para junto dos frades e recuperou a fala logo que confessou a culpa.

CAPITULO 67
Um abade experimenta a força de sua oração

101. Noutra ocasião, o abade do mosteiro de São Justino, da diocese de Perúsia, encontrou-se com São Francisco no caminho. Apeou-se imediatamente e conversou um pouco com ele sobre a salvação de sua alma. Ao partir, pediu humildemente ao santo que rezasse por ele. São Francisco disse: "Vou rezar de boa vontade, meu senhor".

Pouco depois que o abade se afastou, disse o santo a seu companheiro: "Espera um pouco, meu irmão. Vou cumprir o que prometi". Sempre teve esse costume. Quando lhe pediam para rezar nunca deixava para depois, cumpria quanto antes o que tinha prometido.

Pela súplica que o santo dirigiu a Deus, o abade sentiu de repente um calor diferente e uma doçura que nunca tinha experimentado em seu espírito, tanto que ficou arrebatado e os outros viram que desmaiava. Não demorou muito e, voltando a si, reconheceu a força da oração de São Francisco. Por isso sempre teve o maior amor para com a Ordem e contou a muita gente esse fato, dizendo que tinha sido um milagre.

É assim que os servos de Deus devem prestar um ao outro os seus favores. É bom que entre eles haja essa comunhão de dar e receber. A amizade santa, também chamada de amizade espiritual, contenta-se com a oração e dá pouco valor aos favores terrenos. Acho que é próprio de uma amizade santa ajudar e ser ajudado na luta espiritual, recomendar e ser recomendado diante do tribunal de Cristo.

Como não deve ter subido alto a oração de quem foi capaz de elevar assim uma outra pessoa por seus merecimentos!

COMPREENSÃO QUE O SANTO TEVE DAS SAGRADAS ESCRITURAS 
E DO VALOR DE SUAS PALAVRAS

CAPITULO 68
Conhecimento e memória

102. Embora não tenha tido nenhum estudo, o santo aprendeu do alto a sabedoria que vem de Deus e, iluminado pelos fulgores da luz eterna, não era pouco o que entendia das Sagradas Escrituras. Sua inteligência purificada penetrava os segredos dos mistérios, e, onde ficava fora a ciência dos mestres, entrava seu afeto cheio de amor.

Lia os livros sagrados de quando em quando mas, o que punha uma vez na cabeça ficava gravado indelevelmente em seu coração. Sua memória supria os livros: não perdia o que tivesse ouvido uma única vez, pois ficava refletindo com amor em contínua devoção. Dizia que esse modo de aprender e de ler era muito vantajoso, e não o de ficar folheando milhares de tratados. Achava que filósofo verdadeiro era o que preferia mais a vida eterna do que todas as outras coisas. Afirmava que passaria facilmente do conhecimento de si mesmo para o conhecimento de Deus aquele que estudasse as Escrituras com humildade e sem presunção. Era frequente resolver oralmente as dúvidas de algumas questões, porque, embora não fosse culto nas palavras, destacava-se vantajosamente na inteligência e na virtude.

CAPITULO 69
A pedido de um dominicano, interpreta um texto profético

103. Quando estava em Sena, apareceu por lá um frade da Ordem dos Pregadores, homem verdadeiramente espiritual e doutor em sagrada teologia. Foi visitar São Francisco e os dois saborearam uma longa e agradável conversa sobre as palavras do Senhor. Quis o mestre saber sua opinião sobre aquele texto de Ezequiel: "Se não advertires ao ímpio sobre sua impiedade, eu te pedirei contas de seu sangue". E esclareceu: "São muitos, bom pai, os que eu conheço e sei que estão em pecado mortal, mas nem sempre lhes mostro sua impiedade. Será que Deus vai me pedir contas de suas almas?"

São Francisco respondeu que era um ignorante e que por isso estava mais na situação de aprender com ele do que na de dar sentenças sobre as Escrituras, mas o humilde mestre lhe disse: "Irmão, já ouvi a exposição de alguns sábios sobre esse texto, mas gostaria de saber qual é o teu pensamento".

Falou, então, São Francisco: "Se é em geral que devemos entender essa palavra, eu acho que o servo de Deus deve arder tanto na vida e na santidade, que repreenda todos os maus com a luz de seu exemplo e com a voz de seu comportamento. O esplendor da vida e o bom perfume da fama é que vão convencer a todos de sua iniquidade".

O frade foi embora muito edificado e disse aos companheiros de São Francisco: "Meus irmãos, a teologia desse homem, firmada na pureza da contemplação, é uma águia a voar; nossa ciência arrasta-se pela terra".

CAPITULO 70
Respostas a um cardeal

104. Em outra ocasião, estando na casa de um cardeal, em Roma, foi interrogado sobre textos obscuros e os esclareceu de maneira tão profunda que parecia alguém que vivesse estudando as Escrituras. Disse-lhe o cardeal: "Não te interrogo como a um letrado, mas como a um homem que possui o espírito de Deus, e aceito de tão boa vontade a resposta da tua compreensão porque sei que vem apenas de Deus"

CAPITULO 71
Manifesta o que sabe a um frade que lhe recomenda o estudo

105. Quando estava doente e cheio de achaques, disse-lhe um companheiro: "Pai, sempre te refugiaste nas Escrituras, elas sempre foram um remédio para tuas dores. Peço que mandes ler alguma coisa dos profetas, pode ser que teu espírito exulte no Senhor". O santo respondeu: "É bom ler os testemunhos das Escrituras, é bom procurar nelas Deus nosso Senhor, mas eu já aprendi tantas coisas na Bíblia que para mim é mais do que suficiente recordar e meditar. Não preciso mais nada, filho. Conheço o Cristo pobre e crucificado".

CAPITULO 72
Frei Pacífico vê espadas brilhantes em sua boca

106. Havia na Marca de Ancona um secular que, esquecido de sua salvação e ignorante de Deus, entregara-se à vaidade. Chamavam-no "Rei dos Versos", porque se projetara como cantor de coisas desavergonhadas e compositor de canções mundanas. Ficou tão famoso nas glórias deste mundo, que chegou a ser coroado com toda a pompa pelo próprio imperador.

Enquanto assim caminhava, nas trevas e arrastando a iniquidade nas rédeas da vaidade, a bondade divina teve compaixão dele e resolveu chamá-lo para que não viesse a perecer abandonado. Por providência divina, encontraram-se em um mosteiro de pobres reclusas ele e São Francisco. São Francisco fora com seus companheiros para visitar suas filhas. O cantor fora com alguns colegas visitar uma parenta.

A mão de Deus pousou sobre ele, que viu com seus próprios olhos São Francisco assinalado por duas espadas refulgentes e cruzadas, uma da cabeça aos pés e outra atravessando o peito, de uma mão à outra. Não conhecia São Francisco mas, depois de tão surpreendente milagre, identificou-o imediatamente. Espantado pelo que tinha visto, começou imediatamente a fazer bons propósitos, ainda que para o futuro.

O santo pai, por sua vez, tendo pregado primeiro a todos em comum, traspassou o homem com a espada da palavra de Deus. A