CAPÍTULO 1
Aqui começa o Espelho da Perfeição
do estado de frade menor
Depois que se perdeu a segunda Regra escrita por São Francisco, ele subiu a um monte em companhia de Frei Leio de Assis e Frei Bonizo de Bolonha para redigir outra, que fez escrever na forma que Cristo lhe inspirou. Mas, cientes do fato, vários ministros vieram ter com Frei Elias, então vigário do santo, e lhe disseram: "Soubemos que este Frei Francisco está compondo uma nova Regra e tememos que ele a faça tio rígida que não possamos observá-la. Queremos, portanto, que vás até ele e lhe digas, de nossa parte, que não queremos sujeitar-nos a esta Regra. Que ele a escreva para si mesmo, e não para nós'.
Frei Elias lhes' respondeu que não se atreveria a ir sozinho, pois temia as recriminações de São Francisco. Como os ministros insistissem, declarou-lhes que só iria se eles o acompanhassem. Resolveram então ir todos juntos. Ao chegarem perto do lugar em que se encontrava o santo, Frei Elias chamou-o. São Francisco respondeu, mas, ao ver os ministros, indagou-lhe: "Que querem estes frades?" Ao que Frei Elias replicou: "Estes São ministros que souberam estares tu redigindo uma nova Regra e temem que a faças demasiado rigorosa; dizem e protestam que não querem ficar sujeitos a ela, que a escrevas para ti e não para eles”. Ouvindo isto, o santo voltou o rosto para o céu e falou a Cristo assim: "Senhor, eu não te disse que eles não acreditariam em mim?”
No mesmo instante ouviram todos a voz de Cristo no ar, que respondia assim: "Francisco, não há nada na Regra que seja teu, tudo que ela contém me pertence; quero, portanto, que esta Regra seja observada letra por letra, sem comentários, sem comentários, sem comentários". E acrescentou: "Eu sei até onde vai a fraqueza humana e até que ponto quero ajudar-vos. Deixem pois a Ordem os que não querem observá-la". Voltando-se para eles o santo exclamou: "Ouvistes, ouvistes, ou quereis que o faça repetir outra vez?” E os ministros, recriminando-se, se retiraram confusos e amedrontados.
PRIMEIRA PARTE
Da pobreza perfeita
CAPÍTULO 2
Como São Francisco declara a intenção e vontade
que teve desde o princípio até o fim sobre a pobrezaFrei Ricério da Marca, nobre por nascimento e mais nobre ainda por sua santidade, a quem São Francisco dedicava particular afeição, visitou um dia o santo no palácio do bispo de Assis e, enquanto discorriam acerca do estado religioso e da observância da Regra, interpelou-o, particularmente, sobre este ponto: "Dize-me, pai, que intenções tinhas quando começaste a receber companheiros, que intenções tens agora e se pensas conservá-las até a morte. Desejaria certificar-me de tua intenção e vontade, primeira e última. Podemos nós, clérigos, que temos tantos livros, conservá-los, embora reconheçamos pertencerem eles à Ordem?" Ao que o santo respondeu: "Eis, irmão, minha primeira Intenção e última vontade: se os frades tivessem acreditado em mim, nenhum teria conservado para si coisa alguma, além do hábito na forma concedida pela Regra com o cordão e calções”.
Todavia se algum frade objetar: "Por que o Seráfico Pai não quis obrigar os frades desde o principio à estrita observância da Regra e à guarda da pobreza - como declarou Frei Ricério nem ordenou expressamente que assim o fizessem?”
Nós que vivemos com ele lhe diremos o que ouvimos de sua própria boca, porque o santo disse estas coisas a muitos frades e fez inserir na Regra muitas prescrições, que em suas preces e meditações havia implorado do Senhor no interesse da Ordem, afirmando serem todas elas conformes à vontade de Deus. Mas, ao apresentá-las aos frades, estes julgaram-nas demasiado rígidas e insuportáveis. Ignorando o que havia de suceder depois de sua morte e temeroso do escândalo que poderia advir, não só para si, como também para os demais irmãos, não quis questionar com eles e não poucas vezes condescendia contra sua vontade, e se desculpava a si mesmo na presença do Senhor. Por isso, para que as palavras que o Senhor lhe pusera nos lábios não ficassem estéreis, desejava que se cumprisse em si mesmo a vontade divina, para alcançar deste modo a recompensa prometida. E seu espírito alcançou finalmente paz e consolação.
CAPÍTULO 3
Como São Francisco respondeu a um ministro que queria ter livros com a sua permissão
e como os ministros, à sua revelia, suprimiram o capítulo referente
às proibições evangélicasUm dia, quando o santo voltou do Oriente, um ministro que discorria com ele acerca da pobreza quis conhecer sua opinião e vontade sobre este assunto e, principalmente, sobre um capítulo contido na Regra, referente às proibições do santo Evangelho: "Não leveis nada pelo caminho... etc.". São Francisco respondeulhe: "Eu entendo assim: os frades não devem conservar nada para si, senão o hábito com uma corda e os calções, conforme estatui a Regra, e, se isto for absolutamente necessário, poderão usar calçados". Ouvindo isto, o ministro perguntou-lhe: "Que farei eu que tenho tantos livros, que valem mais de cinqüenta libras?" Falava assim, porque desejava conservá-los com a sua permissão, pois sentia remorsos por possuir tantos livros, sabendo que o santo interpretava estritamente o capítulo concernente à pobreza. São Francisco respondeu-lhe: "Não quero, nem devo, nem posso ir contra minha consciência e as prescrições do santo Evangelho, que nós prometemos observar".
Ouvindo estas palavras, o ministro encheu-se de tristeza. Vendo o santo a sua aflição, lhe disse com todo o fervor de sua alma, dirigindo-se por meio dele a todos os irmãos: "Quereis pesar aos olhos dos homens por frades menores e ser chamados observantes do santo Evangelho, mas desejais ter, por vossas obras, os bolsos cheios".
Todavia, logo que os ministros souberam que a Regra os obrigava a observarem o santo Evangelho, fizeram suprimir o capítulo que prescrevia: "Não leveis nada pelo caminho ... ", acreditando com isto não serem obrigados a viver segundo a perfeição evangélica. Quando o santo, por revelação divina, tomou conhecimento do fato, faiou assim na presença de alguns frades: "Os irmãos ministros pensam enganar ao Senhor e a mim. Embora saibam os irmãos estarem obrigados a viver segundo a perfeição evangélica, quero que se escreva na Regra, desde o principio até o fim, que os frades são obrigados a observar rigorosamente o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. E para que não possam jamais escusar-se desta observância, eu lhes anunciei e anuncio agora o que o Senhor pós nos meus lábios para nossa salvação, minha e deles. Quero, portanto, observar estas prescrições, por atos, na presença de Deus e, com sua ajuda, observá-las-ei perpetuamente".
E com efeito observou ao pé da letra o santo Evangelho, desde o dia em que começou a receber irmãos até o dia de sua morte.
CAPÍTULO 4
De um noviço que desejava ter um saltério com a sua permissãoEm outra ocasião certo noviço que sabia ler o saltério, aliás muito mais, obteve do ministro geral permissão para ter um exemplar. Todavia, sabendo que São Francisco não queria que seus frades tivessem a paixão da ciência e dos livros, não se contentou com esta licença e quis obter também a do Seráfico Pai. Ora, passando o santo pelo lugar onde se encontrava o noviço, este lhe disse: "Pai, seria para mim uma grande consolação possuir um saltério, mas, embora o ministro geral me tenha permitido, não desejaria conservá-lo sem o teu consentimento".
São Francisco lhe respondeu: "O Imperador Carlos Magno, Rolando e Olivier, todos paladinos e homens valorosos, que foram poderosos nos combates, perseguiram os infiéis até a morte, não poupando suores nem fadigas, alcançando assim memoráveis vitórias; do mesmo modo os nossos santos mártires deram a vida pela fé em Cristo. Atualmente há muitos que pretendem alcançar honras e louvores somente por terem narrado os feitos destes heróis. Também entre nós, há muitos que desejariam obter honras e louvor, pregando e narrando o que realizaram estes santos". Com estas palavras o santo queria dizer: "Não nos preocupemos em demasia com livros e ciência, senão com a prática da virtude, porque a ciência envaidece, mas a caridade edifica". Alguns dias mais tarde, como São Francisco se encontrasse junto ao fogo, o noviço veio lhe falar do saltério. O santo então replicou-lhe: "Quando tiveres um saltério, desejarás vivamente um breviário, quando tiveres um breviário, sentar-te-ás numa cadeira como um grande prelado e dirás a teu irmão: 'Traze o meu breviário
Ao dizer isto, com grande fervor de espirito, apanhou cinza com as mãos e a aspergiu sobre a cabeça, traçando em torno dela um circulo, como se a lavasse, e dizia ao mesmo tempo: "Eu quero um breviário, eu quero um breviário". Repetiu estas palavras várias vezes, enquanto passava as mãos em volta da cabeça, para espanto e confusão do jovem religioso. Em seguida o santo lhe disse: "Também eu, irmão, experimentei a tentação de ter livros, mas, para saber qual a vontade de Deus sobre este ponto, tomei um livro, os santos Evangelhos, e supliquei ao Senhor revelasse-me sua vontade na primeira página que abrisse. Acabada a prece, a primeira página que se me deparou ante os olhos continha esta parábola do santo Evangelho: 'A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, aos outros não é dado conhecê-los, senão por meio de parábolas"'. E acrescentou: "São tantos- os que desejam adquirir a ciência que se pode considerar bem-aventurados os que se fazem ignorantes por amor do Senhor Deus".
Meses depois, como o santo estivesse em Santa Maria da Porciúncula, em caminho, próximo à ultima cela da casa, acercou-se dele o mesmo noviço para falar-lhe do saltério. Desta feita São Francisco respondeu-lhe: "Vai e faze como teu ministro te ordenar". Ouvida esta resposta, o frade retomou o caminho e regressou ao lugar donde viera. Ficando só, o santo pôs-se a refletir sobre o que havia dito ao jovem frade e imediatamente chamou-o de volta, dizendo: "Espera-me, espera-me". Ao alcançá-lo lhe disse: "Vem comigo, irmão, e mostra-me o lugar onde, a respeito do saltério, te disse que fizesses como te dissesse teu ministro". Quando chegaram ao dito lugar, São Francisco ajoelhou-se aos pés do frade dizendo: "Confesso minha culpa, confesso minha culpa, porque aquele que quer ser frade menor não deve possuir nada além da túnica, conforme estabelece a Regra, a corda ou cordão, os calções e, se isto for absolutamente necessário, calçado". A partir de então, toda vez que algum frade lhe vinha pedir conselho sobre este assunto, respondia-lhe da mesma maneira. Por esta razão repetia sempre: "Só è sábio o homem que executa bom trabalho, só é bom orador e religioso quem se exercita no seu trabalho, pois pelos frutos se conhece a árvore".
CAPÍTULO 5
Da observância da pobreza nos livros, nos leitos,
nas casas e nos utensíliosO bem-aventurado pai ensinava a seus frades a buscarem nos livros não o valor material, mas o testemunho do Senhor, não a beleza, mas o proveito espiritual. Por essa razão, queria que eles tivessem apenas alguns livros, em comum, e sempre à disposição dos que tivessem necessidade deles. Ademais reinava tal pobreza nas enxergas e nas camas, que trapos estendidos sobre palhas eram tidos como leitos luxuosos e macios. Além disso ensinava a seus frades a construírem casas toscas e pobres, cabanas de madeira, nunca de pedras, de humílimo aspecto. Não só detestava o luxo das casas como também a excessiva abundância e requinte nos utensílios. Desejava que nada nas mesas e nas louças fizesse lembrar as pompas do mundo, mas que tudo proclamasse a pobreza de seus moradores, ressaltando-lhes a condição de peregrinos e exilados.
CAPÍTULO 6
Como obrigou os irmãos a abandonarem uma casa
que chamavam casa dos fradesCerta vez, ao passar pela cidade de Bolonha, soube que havia sido construída uma casa para os frades. Logo que ouviu dizer que ela era chamada "Casa dos Frades", deu meia volta e saiu da cidade, ordenando aos frades energicamente que a abandonassem, incontinente, e de modo algum tornassem a habitá-la. Todos os frades saíram, mesmo os doentes, que a abandonaram em companhia dos demais, até que o Senhor Hugolino, bispo de Óstia e legado do Papa na Lombardia, declarasse publicamente que a casa lhe pertencia.
E certo frade enfermo, que se viu obrigado a abandonar aquela casa, testemunhou estes fatos e os consignou por escrito.
CAPÍTULO 7
Como quis demolir uma casa que o povo de Assis havia construído
junto a Santa Maria da PorciúnculaComo se aproximasse a época em que se devia realizar o capítulo geral que todo ano se celebrava em Santa Maria da Porciúncula, os habitantes de Assis, considerando que os frades cada ano se tornavam mais numerosos, que ali se reunam todos os anos e que não tinham para se abrigarem senão um casebre com paredes de ramagens revestidas de barro e cobertas de palha, deliberaram entre si, com devoção e piedade, construir uma casa grande e espaçosa de pedra e cal, aproveitando para tanto a ausência do santo. Ao regressar de certa província para assistir à celebração do capítulo não pôde o Seráfico Pai conter a sua admiração e surpresa por ver que haviam construído uma casa grande. Temeroso de que os frades com este exemplo pretendessem construir casas excessivamente grandes nos lugares onde habitavam ou haveriam de habitar no futuro, e, ademais, como desejasse que a Porciúncula servisse de exemplo e modelo para todas as casas da Ordem, antes de terminar o capítulo, subiu ao telhado e ordenou aos frades que o acompanhassem. Depois, todos juntos, começaram a jogar por terra as telhas que a cobriam com o propósito de demoli-la até aos alicerces. Mas os cavaleiros de Assis que montavam guarda àquele lugar por causa da grande multidão de gente, vinda de toda a parte para ver ó capítulo dos frades, vendo que o santo com os seus irmãos pretendiam demolir a casa, foram ter com ele e lhe disseram: "Frade, esta casa pertence à comuna de Assis e nós estamos aqui para representá-la; impedir-te-emos, portanto, de demoli-la". Ouvindo isto São Francisco respondeu-lhes: "Bem, se esta casa vos pertence, não tocarei nela". E imediatamente tanto ele como seus frades desceram do telhado.
Por isso o povo de Assis decidiu que no futuro os prefeitos deveriam fazer naquela casa todos os consertos e reparos necessários. Durante muito tempo, esta determinação foi executada anualmente.
CAPÍTULO 8
Como São Francisco repreendeu seu vigário por ter feito construir
uma pequena casa para os frades rezarem o oficioDe outra feita, o vigário de São Francisco ordenou que se construísse na Porciúncula uma pequena casa, onde os frades pudessem repousar e rezar o oficio, pois grande multidão de frades acorria àquele convento, que, por isso, não dispunha de cômodos próprios para tal fim. Com efeito, todos os frades acorriam a Santa Maria da Porciúncula, porque somente lá se realizavam as novas admissões à Ordem.
Quando a casa estava quase pronta, o santo tornou a passar pela Porciúncula. De sua cela ouviu o barulho que faziam os trabalhadores; chamou seu companheiro e lhe perguntou o que faziam os frades. O companheiro referiu-lhe o que acontecia. Imediatamente, fez chamar seu vigário e lhe disse: "Irmão, este lugar serve de exemplo e modelo para toda a Ordem; ademais desejo que os frades residentes neste convento suportem privações e incômodos por amor de Deus, a fim de que os frades que passarem por aqui levem para os seus conventos o bom exemplo da pobreza. Se os que residem aqui se permitem tais comodidades, os outros seguir-lhes-ão o exemplo de construir casas, dizendo: "Em Santa Maria da Porciúncula, que é o primeiro convento da Ordem, se constróem casas grandes e espaçosas, portanto, podemos também construir, nos lugares onde fixarmos residência, edifícios semelhantes".
CAPÍTULO 9
Como o santo não quis permanecer numa cela mais bem
acabada ou que chamavam "sua cela"Certo frade, homem de grande espiritualidade e amigo intimo do santo, fez construir na ermida onde morava uma cela um pouco mais afastada, onde São Francisco pudesse repousar e fazer as suas orações, quando fosse àquele lugar.
Quando o santo chegou ao dito lugar, o frade conduziu-o à cela. O santo lhe disse: "Esta cela é demasiado bela". E isto somente porque o piso era feito de madeira trabalhada a serra e machado. "Se queres que eu permaneça aqui, faze revesti-la por dentro e por fora de palha e de ramos de árvores". Pois quanto mais pobres fossem as casas e as celas, tanto maior era o seu prazer em habitá-las. Tendo o frade feito como o santo lhe. ordenara, este viveu ali por alguns dias.
Mas aconteceu que, um dia, enquanto São Francisco estava ausente da cela, outro frade foi vê-la e ao afastar-se encontrou-se com o santo que ao vê-lo perguntou-lhe: "De onde vens, irmão?" "Venho de tua cela", respondeu o frade. Ao ouvir isto, o santo replicou: "Porque disseste que esta cela é minha, doravante outro - e não eu - hospedar-se-á nela".
Nós que vivemos muito tempo com ele, ouvimo-lo repetir com freqüência estas palavras do santo Evangelho: "As raposas têm seus covis, as aves do céu, ninhos, mas o Filho do homem não tem onde recostar a cabeça". Dizia também: "Quando o Senhor se retirou para o deserto onde jejuou e orou quarenta dias e quarenta noites, não mandou construir para si nem cela nem casa, mas viveu nas grutas formadas pelos rochedos dos montes". Portanto, a exemplo de Cristo, não quis jamais possuir casa ou cela que se dissesse ser sua, nem tampouco consentiu que lha construíssem.
E se acontecia alguma vez dizer a seus frades: "Ide e preparai aquela cela", não queria depois viver nela, recordando as palavras do Evangelho: "Não vos preocupeis..." Por isso, pouco antes de sua morte, mandou escrever em seu Testamento que todas as celas e casas dos frades fossem feitas de madeira e barro, para melhor salvaguardar a santa pobreza e a humildade.
CAPÍTULO 10
Como escolher, nas cidades, terreno para construir conventos
e como construí-los segundo as intenções de São FranciscoCerta vez, quando o santo se encontrava em Sena, por causa da doença de seus olhos, o Senhor Boaventura, doador do terreno onde havia sido construído um convento, perguntou-lhe: "Que achas tu, pai, deste local?" Ao que o santo respondeu: "Queres que te diga como devem ser construídas as casas dos frades?" E Boaventura respondeu-lhe: "Quero, pai". São Francisco lhe disse então: "Quando os frades chegarem a uma cidade onde eles não tiverem convento e encontrarem alguém disposto a lhes doar o terreno para edificá-lo, ter horta e tudo o que lhes for necessário, deverão em primeiro lugar verificar qual a área necessária, tendo sempre em conta a santa pobreza e o bom exemplo, que por toda parte somos obrigados a dar".
Dizia isto, porque não queria que seus frades se afastassem jamais da pobreza, nem nas casas, nem nas igrejas, nem nas outras coisas de que se serviam; que não possuíssem nenhum lugar por direito de propriedade, mas que ai permanecessem sempre, e em tudo, como "peregrinos e estrangeiros". Por este motivo desejava que nos conventos não houvesse frades em número excessivo, pois lhe parecia difícil a perfeita observância da pobreza onde. houvesse grande multidão de religiosos, e esta foi a sua vontade, desde a conversão até a morte: que a pobreza fosse observada rigorosamente e em tudo.
"Depois que tiverem escolhido o terreno necessário para a edificação do convento e de suas dependências, deverão apresentar-se ao bispo da cidade e dizer-lhe: 'Senhor, tal pessoa deseja nos doar, por amor de Deus e para a salvação de sua alma, um terreno onde possamos edificar um convento. Recorremos primeiramente. a vós que sois pai e mestre de todas as almas que vos foram confiadas e de todos os frades que vierem a morar neste convento. Desejamos, portanto, edificar aqui um convento com a bênção de Deus e a vossa".
Agia assim porque no seu entender os frades poderiam trabalhar com mais eficácia para a salvação das almas, vivendo em paz com o clero, granjeando sua amizade e a do povo, do que se provocassem escândalo, embora conquistando a confiança do povo. E acrescentou: "O Senhor nos chamou para sermos os sustentáculos da fé e os coadjutores dos prelados e clérigos da santa Igreja. Por isso estamos obrigados a sempre amá-los, honrá-los e respeitá-los. Como indica o nome, os frades são chamados 'menores' porque devem ser por seus exemplos e ações os homens mais humildes do mundo. Desde o inicio de minha conversão o Senhor pôs estas palavras nos lábios do bispo de Assis para que ele sabiamente me aconselhasse e me confirmasse no serviço de Cristo. Por esta razão e por inúmeras e excelentes qualidades que vejo nos prelados, quero amá-los e honrá-los e considero como meus senhores não só os prelados, mas também os padres, por mais pobres que eles sejam.
Recebida a bênção, voltem e mandem cavar um grande fosso em torno do terreno que tiverem recebido para a construção do convento e cerquem-no com uma boa cerca, em vez de muro, como sinal de santa pobreza e humildade. Construam a seguir pequenas casas de barro e madeira, com algumas celas onde os frades possam rezar e trabalhar honestamente, para evitar a ociosidade. Até mesmo as igrejas deverão ser pequenas. Com efeito, não deverão construir grandes Igrejas sob pretexto de pregar ao povo ou por qualquer outro motivo, pois será mais humilde e de mais eficaz exemplo que vão pregar em outras igrejas. Assim, se por acaso os prelados, os clérigos religiosos ou os leigos vierem a nossos conventos, os pobres casebres, as celas toscas e as pequenas igrejas edificá-los-ão mais do que as palavras".
E disse ainda: "Construindo grandes edifícios, os frades violam nossa santa pobreza, provocando murmurações e dando mau exemplo ao próximo. Se com o - pretexto de terem casas maiores, mais saudáveis, onde possam abrigar maior número de pessoas, mas na realidade por cupidez e avareza abandonarem ou destruírem seus conventos, construindo outros maiores, de excessivas dimensões, não poderão deixar de conturbar e escandalizar os benfeitores, que lhes prodigalizaram as esmolas, e os demais fiéis. Por conseguinte, é melhor que os frades se contentem com casas pobres e pequenas, permanecendo fiéis a seus votos e dando bom exemplo ao próximo, do que renegá-los, dando mau exemplo, pois se acontecer que os frades abandonem seus conventos por outros mais convenientes, o escândalo será menor".
CAPÍTULO 11
Como certos frades, sobretudo prelados e homens de ciência,
se opuseram aos desejos de São Francisco
no que se referia à construção de casas e conventosComo o santo houvesse prescrito que as igrejas dos frades fossem pequenas e que suas casas fossem construídas unicamente de barro e madeira, em sinal de santa pobreza e de humildade, resolveu começar por estabelecer está prescrição em Santa Maria da. Porciúncula, onde as casas eram feitas de barro e madeira, a fim de que esse convento, que era o primeiro e principal da Ordem, servisse para sempre de exemplo a todos os frades presentes e futuros. Alguns frades, no entanto, opuseram-se a esta determinação, alegando que em algumas províncias a madeira era mais cara que a pedra. Por esta razão não lhes parecia aconselhável que as casas fossem de madeira e barro. Estando o santo gravemente enfermo e já próximo da morte, não julgou prudente discutir com eles, mas mandou escrever no seu Testamento: "Que os frades guardem bem este preceito: ao construírem para eles igrejas, conventos ou qualquer edifício deste gênero, não devem de modo algum aceitar a propriedade e não os possuirão senão conforme a santa pobreza... e na condição de aí permanecer como hóspedes de passagem, estrangeiros e peregrinos".
Nós que estávamos com ele quando escreveu esta Regia e quase todos os seus escritos, atestamos que ele mandou escrever ainda várias prescrições, às quais muitos frades se opuseram, sobretudo os prelados e homens de ciência, e que seriam hoje de grande utilidade para toda a Ordem Mas como o Seráfico Pai temia muito o escândalo, submeteu-se, não sem grande pesar, à vontade dos frades. No entanto, repetia com freqüência: "Ai daqueles frades que se opõem a mim naquilo que eu sei firmemente ser a vontade de Deus para o bem e necessidade de toda a Ordem. E, portanto, contra minha vontade que condescendo com seus desejos".
A nós seus companheiros. confessava sempre: "Eis a minha mágoa e minha grande aflição: a força de preces e meditações obtive da misericórdia de Deus prescrições que Ele me assegurou ser a sua vontade, no interesse atual e futuro de toda a Ordem. Todavia, alguns frades, em nome de sua ciência e de sua prudência, opuseram-se a mim e suprimiram-nas dizendo: 'Eis o que convém guardar e o que convém suprimir"'.
CAPÍTULO 12
Como tinha por roubo receber e gastar esmolas além das necessidadesSão Francisco dizia freqüentemente aos frades: "Nunca fui um ladrão de esmolas, recebendo-as ou gastando-as além do necessário; sempre aceitei menos do que me ofereciam, a fim de não lesar os outros pobres, pois agir de outra maneira seria agir como ladrão".
CAPÍTULO 13
Como Cristo lhe revelou que os frades não deviam possuir coisa alguma,
em comum ou em particularComo os ministros procurassem persuadir são Francisco a conceder alguns bens aos frades, pelo menos em comum, a fim de que uma tão grande fraternidade pudesse dispor de algumas reservas, ele se pôs em oração e invocou a Cristo consultando-o sobre este ponto. E Cristo respondeu-lhes assim: "Eu os proverei de tudo em comum e em particular, pois estou disposto a socorrer sempre esta família, por mais numerosa que ela se torne, e, na medida em que ela depositar em mim sua confiança, sustentá-la-ei com carinho e desvelo".
CAPÍTULO 14
Como amaldiçoava o dinheiro e castigou um frade
por ter pegado numa moedaVerdadeiramente amigo e imitador de Cristo, Francisco desprezava sinceramente todas as vaidades do mundo e acima de tudo execrava o dinheiro; pela palavra e pelo exemplo, levava seus frades a fugirem dele como do próprio demônio. Exortava-os a não darem mais valor ao dinheiro que a excrementos. Aconteceu que um dia um leigo entrou na igreja de Santa Maria da Porciúncula para rezar e como esmola depositou uma moeda aos pés da cruz. Depois que ele se retirou, um frade com toda simplicidade apanhou-a, colocando-a sobre uma das janelas.
Quando São Francisco tomou conhecimento do fato, aquele frade, sentindo-se culpado, correu imediatamente a pedir-lhe perdão, prostrando-se por terra, para receber o castigo. O Seráfico Pai repreendeu-o severamente por ter pegado em dinheiro. Ordenou-lhe que o retirasse da janela com os lábios e o levasse para fora do recinto do convento, e o depositasse, sempre com os lábios, sobre excrementos de asno. Tendo aquele frade executado o que lhe foi ordenado, todos os que presenciaram este fato ou tiveram notícia dele ficaram cheios de grande temor e desde então desprezavam ainda mais o dinheiro, comparado a excrementos de asno. E cada dia, alimentado por novos exemplos, crescia mais este desprezo pelo dinheiro.
CAPÍTULO 15
Como julgava necessário evitar a maciez e a variedade das túnicas
e suportar com paciência as contrariedadesRevestido da força do alto, o Seráfico Pai tirava dela mais calor para sua alma do que o que suas vestes lhe proporcionavam exteriormente ao corpo. Por isso não tolerava que os frades vestissem três túnicas ou usassem sem necessidade vestes macias. Ensinava que uma necessidade provocada pelo prazer dos sentidos e não pela razão era sinal de que o espirito estava amortecido. Quando a alma, dizia ele, se torna tíbia, pouco a pouco a graça arrefece e "a carne e o sangue" fatalmente procuram seu próprio interesse. E acrescentava: "Que restará com efeito, quando a alma ignorar as delícias espirituais e a carne se voltar apenas para suas exigências; quando o apetite animalesco exigir em nome da necessidade a sua satisfação e o instinto carnal se impuser à consciência? Se, por acaso, um de meus frades, preso de uma necessidade real, se apressar a satisfazê-la, que salário receberá? Apresenta-se-lhe uma ocasião de mérito, mas ele a rejeita com sua conduta, mostrando claramente que isto lhe desagrada. Negar-se a suportar com paciência privações e necessidades não é outra coisa, senão querer voltar ao Egito".
Enfim, não queria que os frades tivessem, sob pretexto algum, mais de duas túnicas, mas permitia-lhes forrá-las com retalhos de panos costurados por dentro. Afirmava ter horror a fazendas finas e repreendia severamente os que agiam de modo contrario às suas prescrições. Para confundi-los com o seu exemplo costurava sempre um saco grosseiro sobre sua própria túnica e ordenou que quando morresse forrassem com um saco a túnica que lhe serviria de mortalha. Todavia, quando uma enfermidade ou outra necessidade o exigia, ele consentia que os frades vestissem uma túnica mais fina sobre a pele, mas eram obrigados a usar por cima o habito rústico e grosseiro. Costumava comentar com grande amargura: "Relaxa-se a disciplina e os filhos de um pai que foi pobre não se envergonham de usar vestes de escarlate, contentando-se apenas com mudar-lhes a cor".
CAPÍTULO 16
Como se recusa a conceder a seu corpo algumas satisfações por julgar
que os outros frades tinham mais necessidade delas do que eleQuando São Francisco morava no eremitério de Santo Eleutério, próximo de Rieti, forrou com retalhos de fazenda seu habito, único que possuía, e o de seu companheiro, proporcionando a si e a este confrade um pouco de alivio. Pouco depois, ao terminar a oração, disse com grande alegria a seu companheiro: "Eu devo ser um modelo e um exemplo para todos os frades; eis por que, embora precise de uma túnica forrada, devo considerar que os outros frades têm também as mesmas necessidades e no entanto São obrigados a se privarem destas comodidades. Devo, por conseguinte, colocar-me em situação idêntica à deles e sofrer as mesmas inconveniências, a fim de que, por meu exemplo, eles sejam mais pacientes".
Na verdade, quantas vezes privou-se do necessário a seu corpo para dar o bom exemplo aos frades, a fim de que eles suportassem com mais paciência a pobreza e as privações! Nós que vivemos com ele não podemos descrever estas coisas nem por palavras nem por escrito, porque quando os frades se tornaram numerosos, o Seráfico Pai se pôs com todo zelo a ensinar-lhes com exemplos e palavras o que eles deviam fazer, ou evitar.
CAPÍTULO 17
Como se envergonhava de encontrar alguém
mais pobre do que eleO escarlate era uma tinta reservada às fazendas preciosas e finas. Significava, pois, “vestir-se com tecidos preciosos e finos”. Passando, um dia, por um pobre e considerando sua miséria e indigência, disse a seu companheiro: "A pobreza deste homem devia ser para nós motivo de vergonha, pois inflige severa repreensão à nossa (pobreza)
- E, na verdade, uma grande vergonha para mim encontrar alguém mais pobre que eu, quando elegi a santa pobreza como minha Dama, minha alegria, minha riqueza espiritual e corporal, e no mundo inteiro se sabe que eu fiz profissão de pobreza diante de Deus e dos homens".CAPÍTULO 18
Como encoraja os primeiros irmãos a pedir esmolas
e como os instrui neste ofícioLogo que São Francisco viu chegar-lhe os primeiros companheiros, encheu-se de grande alegria, não só pela conversão deles, mas também pela boa companhia que o Senhor lhe proporcionava. E tanto os amava e respeitava, que não os obrigava a pedir esmola, pois lhe parecia que isto era para eles motivo de vergonha. Assim, compadecendo-se de sua timidez, ia todos os dias, sozinho, pedir esmolas. Mas como no século vivera na opulência e era de frágil compleição, e também por causa dos jejuns e das mortificações que lhe esgotaram as forças, fatigava-se muito. Considerando, pois, que não podia suportar sozinho este encargo, que os irmãos tinham sido chamados para a mesma tarefa e que se eles tinham vergonha de pedir esmolas era porque não haviam sido convenientemente instruídos nem eram bastante atilados para dizer: "Nós também queremos pedir esmolas", lhes disse: "Meus irmãos caríssimos, meus filhinhos, não tenhais vergonha de pedir esmola, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo e a seu exemplo nós escolhemos o caminho da verdadeira e perfeita pobreza. A esmola é a herança que Nosso Senhor Jesus Cristo adquiriu e nos legou, a nós e a todos os que quiserem, para imitá-lo, viver na santa pobreza. Em verdade vos digo: muitos dentre os mais nobres e mais sábios deste mundo virão juntar-se a nós e considerarão uma grande honra, uma grande graça pedir esmola. Ide, portanto, esmolar com confiança e com o coração cheio de alegria; e com a bênção de Deus ide mesmo com mais boa vontade e alegria do que um homem a quem propusessem cem dinheiros por um escudo, porque àqueles a quem pedirdes esmolas oferecereis o amor de Deus, dizendo-lhes: 'Dai-me uma esmola por amor de Deus em comparação com o qual o céu e a terra nada são"'
Como os frades fossem pouco numerosos, não podia enviá-los dois a dois, mas enviou-os separadamente, cada um por diferentes burgos e aldeias. Ao regressarem com as esmolas, entregaram-nas ao Seráfico Pai e diziam entre si: "Eu trouxe mais esmolas do que tu". São Francisco alegrou-se por vê-los satisfeitos e contentes. Desde então cada um vinha espontaneamente pedir-lhe permissão para ir esmolar.
CAPÍTULO 19
Como não queria que os frades se preocupassem
em demasia com o dia de amanhãNesta época o Seráfico Pai e seus companheiros viviam em tal pobreza que observavam literalmente as prescrições do santo Evangelho, máxime depois de o Senhor lhe haver revelado que tanto ele como seus companheiros deviam viver conforme o Evangelho. Assim, proibiu que o irmão cozinheiro pusesse de molho em água morna, na tarde anterior, o feijão que os frades haviam de comer no dia seguinte, como se costumava fazer, para que seguissem aquele conselho do Evangelho: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã". O irmão tinha, portanto, que esperar até depois das matinas para pô-lo de molho, isto é, até à manhã do dia em que os frades deviam comê-lo. Pela mesma razão, observaram os frades, sobretudo nas cidades, o preceito de não aceitar nem receber mais esmolas do que o necessário para um dia.
CAPÍTULO 20
Como repreendeu, pela palavra e pelo exemplo,
os frades que haviam preparado suntuosamente a mesa no dia de Natal,
por causa da visita de um ministroUm dia, certo ministro veio ter com São Francisco na residência dos frades de Rieti, para celebrar com ele a festa de Natal. E os frades, aproveitando o pretexto da festa de Natal e da presença do ministro, prepararam a mesa caprichosamente, cobrindo-a com belas toalhas brancas e guarnecendo-a de copos de cristal. Quando São Francisco desceu de sua cela para a refeição e viu a mesa adornada com tanto cuidado e esmero, saiu furtivamente, tomou o chapéu e o bastão de um pobre que naquele dia se encontrava no convento, chamou em seguida seu companheiro e se pôs diante da porta, do lado de fora, enquanto o companheiro permaneceu junto à porta, do lado de dentro. A mesa, os frades se entreolhavam indecisos, pois são Francisco lhes havia dado ordem de não o esperarem, se ele não chegasse na hora de Começar a refeição. Tendo permanecido algum tempo fora, bateu à porta, e seu companheiro abriu no mesmo instante. Coberto com a capa e de bastão na mão, foi até a entrada do refeitório onde os frades comiam, e como um peregrino gritou: "Dai uma esmola por amor de Deus a este pobre e enfermo peregrino". O ministro e os frades reconheceram-no imediatamente, e o ministro lhe respondeu: "Irmão, nós também somos pobres e como somos numerosos, as esmolas que recebemos nos são necessárias. Mas pelo amor do Senhor que tu invocaste, entra e repartiremos contigo as esmolas que o Senhor nos deu".
São Francisco entrou e se colocou diante da mesa dos frades, o ministro lhe deu a escudela em que comia, juntamente com uma côdea de pão. Recebeu-as e sentou-se humildemente no chão, perto do fogo, em frente aos frades sentados à mesa. E suspirando lhes disse: "Ao ver esta mesa preparada com tanto cuidado e elegância julguei que não pertencia a pobres religiosos que, todos os dias, vão de porta em porta pedir esmolas. Convém-nos, irmãos caríssimos, mais do que a outros religiosos, seguir o exemplo de humildade e pobreza que Cristo nos deu, porque essa é a nossa vocação e assim prometemos por profissão diante de Deus e dos homens. As festas do Senhor e dos santos se celebram melhor na pobreza e na indigência, pelas quais os santos ganharam o céu, do que na opulência e no luxo pelos quais a alma se distancia dele". Ao ouvir estas prudentes admoestações, encheram-se de vergonha, considerando que São Francisco dizia a estrita verdade e tinha sobejas razões.
E alguns, vendo São Francisco sentado no chão e a solicitude e doçura com que os corrigia e instruía, começaram a derramar copiosas lágrimas. Exortava-os a que tivessem mesas humildes e honestas para que pudessem edificar os leigos e para que, se convidassem um pobre de passagem, este pudesse sentar-se com eles no mesmo pé de igualdade e não se vissem os frades em cadeiras e o pobre no chão.
CAPÍTULO 21
Como o Senhor Bispo de Óstia comoveu-se até às lágrimas
com a pobreza dos fradesQuando o Senhor Bispo de Óstia, futuro Papa Gregório IX, foi assistir ao capítulo que os frades celebravam em Santa Maria da Porciúncula, entrou no convento com numerosa comitiva de clérigos e cavaleiros desejoso de ver o dormitório dos frades. Ao ver que os frades dormiam no chão, sem outro colchão além de uma enxerga de palha, com algumas cobertas pobres e esfarrapadas, e sem travesseiros, derramou abundantes lágrimas na presença de todos dizendo: "Eis como dormem os frades. Que será de nós, míseros, que dispomos de tantas coisas supérfluas?" A vista deste espetáculo, tanto ele como sua comitiva ficaram grandemente edificados. Tampouco divisaram mesa alguma, pois os frades comiam sentados no chão.
Neste lugar, enquanto viveu São Francisco, os frades mantiveram o costume de comerem sentados no chão.
CAPÍTULO 22
Como vários cavaleiros obtiveram o que lhes era necessário,
pedindo esmola de porta em porta, a conselho de São FranciscoQuando São Francisco se encontrava no convento de Bagnara, acima de Nocera, um ataque de hidropisia provocou-lhe forte inchação nos pés e ele caiu gravemente enfermo. Assim que os habitantes de Assis tomaram conhecimento disto, mandaram a toda a pressa alguns cavaleiros àquele convento para trazê-lo de volta a Assis, pois receavam que ele morresse ali e as suas preciosas relíquias ficassem pertencendo a outra cidade. Ao reconduzirem-no, pararam num burgo do território de Assis a fim de comerem alguma coisa. Enquanto São Francisco repousava na casa de um pobre homem que o havia acolhido de boa vontade, os cavaleiros foram à aldeia para comprar mantimento, mas, não encontrando nada, vieram ter com o Seráfico Pai e lhe disseram aflitos: "E preciso, irmão, que repartas conosco as esmolas, pois não encontramos nada para comer". E o santo lhes respondeu com grande fervor e convicção: "Não encontrastes nada, porque vos confiastes a vossas moscas, isto é, a vosso dinheiro, e não a Deus. Voltai às casas onde antes procurastes o que comprar e, despojando-vos de todo o amor-próprio, pedi esmolas por amor de Deus. Vereis então como, por inspiração do Espírito Santo, os aldeões vos darão em abundância e com alegria do que tiverem". Foram, com efeito, e pediram esmolas como São Francisco lhes aconselhara; e aquela gente lhes deu com alegria e em abundância de tudo o que tinha. Reconhecendo nisto um milagre e louvando a Deus, voltaram jubilosos para junto do santo patriarca.
Assim procedia, porque julgava o fato de pedir esmola por amor de Deus muito nobre e muito digno aos olhos do mesmo Deus e do mundo, pois tudo o que o Pai celeste criou para utilidade dos homens, nos deu gratuitamente em esmolas, após o pecado, por amor de seu Filho, quer sejamos dignos ou indignos. Ensinava igualmente que o servo de Deus deve pedir esmola por amor de Deus, de boa vontade e com mais alegria do que aquele que, por liberalidade e largueza, fosse exclamando:
"Se alguém me der uma só moeda, eu lhe darei mil escudos de ouro", porque o servo de Deus, ao pedir esmola por amor de Deus, oferece àquele a quem a solicita o amor de Deus, em comparação com o qual nada são todas as coisas do céu e da terra. Por isto, antes e depois que os frades se multiplicaram, quando saia pelo mundo a pregar, se por acaso um nobre, um potentado o convidava para comer ou hospedar-se em sua casa, ia primeiro pedir esmola até à hora da refeição, antes de se apresentar na casa de seu anfitrião, não só para dar o bom exemplo aos frades, como também por respeito à dignidade da Dama Pobreza. E com freqüência acontecia que o santo recusava o convite, justificando-se: "Não quero renegar minha dignidade real, minha herança, minha profissão e a de meus frades, isto é, a mendicidade de porta em porta". Outras vezes, o seu anfitrião o acompanhava, em pessoa, recebia as esmolas que se davam ao santo e as guardava por devoção para com ele. Este, que descreve estas cenas, presenciou-as muitas vezes e da' testemunho delas.
CAPÍTULO 23
Como foi pedir esmola antes de sentar-se à mesa do cardeal de ÓstiaAo visitar, um dia, o bispo de Óstia, que depois se tornou Papa, com o nome de Gregório IX, saiu furtivamente antes da hora da refeição, para pedir esmola de porta em porta. Ao regressar, o Senhor de Óstia já estava à mesa com uma numerosa comitiva de nobres e cavaleiros. São Francisco chegou, pôs sobre a mesa, diante do cardeal, as esmolas que havia recolhido de porta em porta e sentou-se ao lado de seu purpurado anfitrião, pois era desejo expresso do cardeal que o santo ocupasse sempre este lugar. O prelado não pôde deixar de se envergonhar por ter São Francisco saído naquela ocasião para pedir esmolas, mas por causa de seus convivas não disse nada. Depois de ter o santo comido algo, tomou as esmolas e as distribuiu em nome de Deus, uma porção para cada comensal: familiares do prelado, nobres e cavaleiros. Todos receberam-na com grande respeito e piedade estendendo-lhe reverentemente o capuz ou o barrete; uns comeram logo, outros, por devoção para com ele, puseram-na de lado. Com isto alegrou-se muito o Senhor de Óstia, sobretudo ao ver que o pão recolhido de esmola não era de trigo.
Depois do banquete, o cardeal retirou-se para seus aposentos, levando consigo o Seráfico Pai. E abraçando-o com grande alegria, lhe disse: "Meu simplicíssimo irmão, por que me infligiste hoje esta vergonha? Convidado à minha mesa, que é também a de teus frades, tu saíste a esmolar!" Ao que o santo respondeu: "Pelo contrário, eu vos testemunhei uma grande honra, porque quando um servo cumpre o seu dever e obedece a seu amo, está honrando-o". E acrescentou: "Eu devo ser um modelo e um exemplo para os pobres que estão no meio de vós, sobretudo porque sei que nesta Ordem de frades há, e haverá sempre, os que serão verdadeiramente menores de nome e de fato; por amor de Deus e inspirados pelo Espírito Santo que os instruirá no que for necessário, eles se rebaixarão e com toda humildade se submeterão aos seus irmãos e os servirão. Há, e haverá sempre, outros que, por vergonha ou porque foram mal instruídos, não consentem, nem consentirão em se humilhar e se rebaixar a ponto de realizar humildes tarefas. Por isso, convém que meu exemplo seja uma lição para todos os que fazem parte desta Ordem ou que hão de entrar nela, a fim de que neste mundo e no outro eles não possam desculpar-se diante de Deus. Encontrando-me em vossa casa - vós que sois nosso senhor e nosso bispo - ou na casa de outro poderoso e nobre deste mundo que, por amor de Deus, me recebeis em vossas casas com grande devoção, mas me impondes vossa hospitalidade, não terei vergonha de sair para pedir esmola. Ao contrário, devo considerar, segundo Deus, uma grande honra, uma dignidade real e uma homenagem àquele que, sendo o Senhor de todos, quis fazer-se servo; que, sendo rico e glorioso na sua majestade, quis tornar-se pobre e desprezado na nossa humilde condição. Por esta razão quero que os frades presentes e futuros saibam que eu experimento mais consolação da alma e do corpo quando estou com meus frades, sentados a uma mesa paupérrima, coberta de esmolas recolhidas de porta em porta por amor de Deus, que quando estou à vossa mesa, ou de outro senhor, abundantemente provida de variadas e requintadas iguarias. O pão das esmolas é sagrado, o louvor de Deus e o seu amor o santificou, pois, quando o frade pede esmola, deve primeiro dizer: 'Louvado e bendito seja o Senhor Deus!"'
O cardeal ficou muito edificado com estas palavras do Seráfico Pai e lhe disse: "Meu filho, faze como te parecer melhor, pois não há dúvida de que o Senhor está contigo e tu com Ele".
Era desejo do santo, como ele o declarou muitas vezes, que um frade não ficasse muito tempo sem ir esmolar, não só por considera-lo um ato muito meritório, como também por temor de que ele sentisse vergonha de voltar às esmolas. Quanto mais eminente e nobre era o frade neste mundo, mais edificado e alegre ficava o santo ao vê-lo sair para pedir esmola ou empenhar-se nos humildes trabalhos que constituíam a faina diária dos frades.
CAPÍTULO 24
De certo frade que não rezava, nem trabalhava, mas que comia demaisNos primórdios da Ordem, quando os frades residiam em Rivotorto, próximo de Assis, havia entre eles um frade que rezava pouco, não trabalhava, mas comia bem! Considerando esta conduta, São Francisco, inspirado pelo Espírito Santo, conheceu que era um homem carnal e lhe disse: "Segue teu caminho, irmão mosca, porque queres te alimentar do trabalho de teus irmãos e ficar ocioso na vinha do Senhor. Es como o zângão ocioso e estéril que nada produz, porque não trabalha e, contudo, se nutre do trabalho e do ganho das laboriosas abelhas".
Ouvida esta repreensão, aquele frade voltou para casa; e como era carnal não Implorou misericórdia, nem a obteve.
CAPÍTULO 25
Como foi com entusiasmo ao encontro de um pobre
que passava com esmolas, louvando a DeusCerto dia, encontrando-se São Francisco em Santa Maria da Porciúncula, um pobre, de profunda vida espiritual, que regressava de Assis com esmolas, passou pela estrada louvando a Deus em voz alta e com grande alegria.
Como se aproximasse da igreja de Santa Maria, São Francisco o ouviu e, imediatamente, com grande fervor e entusiasmo, saiu ao seu encontro; radiante de alegria beijou os ombros sobre que trazia as esmolas e, tomando-lhe o fardo sobre os próprios ombros, conduziu-o à presença dos demais religiosos, diante dos quais disse: "Deste modo quisera que meus frades fossem pedir esmolas, e voltassem, contentes e alegres, bendizendo e louvando ao Senhor".
CAPÍTULO 26
Como o Senhor lhe revelou que seus religiosos deviam chamar-se "frades menores"
e anunciar por toda parte paz e salvaçãoEm outra ocasião disse o Seráfico Pai: "A Ordem e a vida dos frades menores é semelhante a um pequeno rebanho que o Filho de Deus, nos últimos tempos, pediu a seu Pai celeste dizendo: 'Pai, quisera eu que tu formasses e me desses, nestes últimos tempos, um povo novo e humilde, diferente de todos os que lhe precederam, por sua humildade e por sua pobreza, e que se contentasse apenas em me possuir, a mim somente'. E ouvindo isto, o Pai celeste lhe respondeu: 'Meu Filho bem-amado, o que pediste ser-te-á concedido"'.
Por isto, assegurava o bem-aventurado pai que Deus quis, e assim o revelou, que os religiosos se chamassem “frades menores", por serem eles aquele povo, pobre e humilde, que o Filho pediu ao Eterno Pai, povo do qual o próprio Filho de Deus havia dito no Evangelho: "Não temais, pequeno rebanho, porque aprouve a vosso Pai vos dar um reino por herança". E ainda: "O que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes". E, embora o Senhor falasse de todos os pobres de espirito, referia-se de modo particular à Ordem dos Frades Menores que deveria aparecer mais tarde na sua Igreja.
Como tivesse sido revelado a são Francisco que a sua Ordem deveria chamar-se dos "Frades Menores", fêlo constar na primeira Regra que apresentou ao Papa Inocêncio III, que a aprovou e promulgou perante todo o consistório. Do mesmo modo revelou-lhe o Senhor a saudação que os frades deveriam empregar, conforme o santo o mandou escrever em seu Testamento com estas palavras: "O Senhor me revelou a fórmula de saudação que devemos usar: 'Que o Senhor te dê a paz!"'
Nos primórdios da Ordem, como o santo viajasse em companhia de um dos primeiros doze frades, este saudava os homens e as mulheres pelos caminhos e nos campos dizendo: "Que o Senhor te dê a paz!" Como aquela gente não estivesse acostumada a ouvir de outros religiosos este gênero de saudação, admirava-se muito ao ouvi-la. Mais ainda, alguns lhe replicavam indignados: "Que significa este modo de saudar-nos?" Com isto, envergonhou-se aquele frade e suplicou ao santo: "Permite-me usar outra saudação". Mas São Francisco lhe respondeu: "Deixa-os dizer, pois não discernem os caminhos do Senhor. Quanto a ti, não te envergonhes, porque os nobres e poderosos deste mundo te hão de testemunhar veneração e respeito, a ti e aos outros irmãos, por causa desta saudação. Com efeito, não há nada de mais extraordinário do que o fato de o Senhor ter desejado um povo novo, pobre e humilde, diferente de todos os que o precederam, por sua vida e suas palavras, que se contentasse em possuí-lo, a Ele somente, altíssimo e glorioso Senhor.
SEGUNDA PARTE
Da caridade, da compaixão e da afabilidade para com o próximoCAPÍTULO 27
Como condescendeu com um irmão que morria de fome, comeu com ele
e exortou os frades a serem discretos e prudentes na penitênciaQuando São Francisco começou a receber seus primeiros companheiros e morava com eles em Rivotorto, próximo a Assis, aconteceu que, estando todos os frades dormindo, por volta da meia-noite, um deles começou a gritar: "Eu morro! Eu morro!" Todos os frades acordaram estupefatos e amedrontados. São Francisco levantou-se e ordenou: "Levantai-vos, irmãos, e acendei a luz' E, acesa a luz, perguntou: "Quem foi que disse: eu morro?" E aquele frade respondeu: "Fui eu". "Que tens tu, irmão? De que morres?", perguntoulhe o santo. "Morro de fome", respondeu o frade. Imediatamente o Seráfico Pai mandou preparar a mesa e fêlo sentar-se e, como homem cheio de caridade e delicadeza, comeu com ele, para que não se envergonhasse de comer sozinho; em seguida, ordenou a todos os frades que fizessem o mesmo. Estes frades e todos os demais, porque não estavam verdadeiramente convertidos ao Senhor, excediam-se nas penitências e mortificações do corpo.
Acabada aquela refeição noturna, o santo falou-lhes deste modo: "Meus irmãos, eu vos aconselho a examinar, cada um, sua própria natureza, porque, embora alguns dentre vós possam sustentar-se com menos alimentos que outros, não quero que aquele que tem necessidade de uma alimentação mais substancial os imitem. Antes, desejo que cada um examine sua natureza e conceda ao corpo aquilo que lhe for necessário para servir ao espírito. Do mesmo modo que nos devemos guardar do excesso de alimentos, prejudicial não só ao corpo como à alma, devemos igualmente guardar-nos de uma abstinência excessiva, pois assim deseja o Senhor: 'A misericórdia e não o sacrifício'. Irmãos caríssimos, o que acabei de fazer, isto é, o tê-los feito comer com nosso irmão, fi-lo obrigado pela necessidade e pela caridade, mas vos asseguro que não o repetirei no futuro, pois não seria honesto nem digno de um religioso. Exijo, portanto, e ordeno que cada um propicie a seu corpo o que lhe for necessário e suficiente, na medida em que o permitir a nossa pobreza".
Estes frades e os que vieram depois deles continuaram, por muito tempo, a mortificar com excesso seu corpo, pela abstinência de bebidas e alimentos, vigílias, frio, vestimentas rudes e trabalho manual. Levavam na carne círculos de ferro, contundentes couraças e ásperos cilícios. Por isso o Seráfico Pai temia que este gênero de vida os fizesse adoecer, como há pouco havia acontecido a muitos deles. Assim, num capítulo, proibiu que os frades usassem outra coisa mais, além da túnica. Nós, que vivemos com ele, somos testemunhas de que em toda a sua vida sempre foi discreto e moderado para com os irmãos, mas de maneira que eles não se afastassem jamais, em circunstância alguma, da pobreza e do espírito de nossa Ordem. Ele mesmo, embora fosse de frágil compleição e no mundo tivesse desfrutado de relativo conforto, mostrou-se rigoroso para com seu corpo, desde sua conversão até a morte. Por esta razão, receoso de que os frades fossem além da pobreza e do espírito da Ordem, não só na alimentação como em tudo o mais, falou-lhes nestes termos: "Pelo visto, julgam os frades que o meu corpo não precisa de certo conforto e bem-estar. Precisa sim, mas como quero ser um modelo e um exemplo para todos os meus irmãos, desejo servir-me de pouca coisa e me contentar apenas com um pouco de alimento, e dos mais pobres. Usando, portanto, de tudo, segundo a pobreza, quero desprezar os alimentos finos e requintados".
CAPÍTULO 28
Como condescendeu com um irmão enfermo
e comeu com ele um cacho de uvasOutro dia, encontrando-se São Francisco no mesmo lugar, um dos frades, antigo na Ordem e homem de grande espiritualidade, adoeceu, causando-lhe a doença extrema debilidade. Ao vê-lo naquele estado, o santo encheu-se de compaixão. Mas naquele tempo os frades, tanto os sãos como os doentes, tinham com alegria sua pobreza por abundância, não se serviam de remédios nas enfermidades, nem mesmo os solicitavam, servindo-se, antes, de coisas que lhes mortificavam o corpo, sem lhes proporcionar qualquer alívio. São Francisco disse consigo mesmo: "Se este irmão comesse, de madrugada, algumas uvas maduras, creio que experimentaria alguma melhora". E como pensou, fez. Levantando-se muito cedo, chamou em seguida o enfermo e o conduziu a uma videira que ficava nas imediações da casa onde moravam. Escolheu um ramo cujos cachos estavam bem maduros e sentando-se próximo à videira pôs-se a comer as uvas para que o irmão doente não se envergonhasse de comer sozinho. Comendo-as, o enfermo recobrou a saúde e ambos louvaram ao Senhor e lhe deram graças.
Durante toda a sua vida aquele religioso se recordava da misericórdia e da afeição que o Seráfico Pai lhe testemunhara e, freqüentemente, relatava este fato aos demais religiosos, com grande devoção e efusão de lágrimas.
CAPÍTULO 29
Como se despojou de suas vestes a si e a seu companheiro,
para vestir uma pobre mulherAchando-se certa vez em Celano, durante o inverno, o Seráfico Pai usava um pedaço de pano dobrado, em forma de manto, que um benfeitor dos irmãos lhe havia emprestado. Acercou-se dele uma velhinha pedindo esmola. Imediatamente o santo tomou o manto que lhe pendia do pescoço e, embora não lhe pertencesse, deu-o à pobre mulher, dizendo: "Vai, e faze um vestido para ti, pois tens muita necessidade disto". A pobre mulher começou a rir e aturdida, não sei se por causa do temor ou da alegria, tomou-lhe o manto das mãos e temendo que se lho arrebatasse, caso permanecesse ali, pôs-se a correr e em seguida cortou o pano com tesoura. Mas, percebendo que a fazenda era insuficiente para um vestido, recorreu de novo à generosidade do Seráfico Pai, dando-lhe a entender que aquele pano era muito pequeno para fazer um vestido. O santo olhou para o companheiro que também levava seu manto e lhe disse: "Ouviste o que disse essa pobre mulher? Por amor de Deus, suporta o frio e dá o teu manto para que ela possa terminar o seu vestido". Imediatamente o companheiro, à imitação de São Francisco e por instância deste, despiu-se de seu manto e deu-o àquela mulher. Eis como ambos se despojaram de seus mantos para vestir uma pobre mulher.
CAPÍTULO 30
Como tinha por roubo o não ceder seu manto a quem tivesse
mais necessidade do que eleOutro dia, ao retornar de Sena, encontrou, no caminho, um pobre e disse a seu companheiro: "Urge, irmão, cedamos a este pobre o nosso manto que, na verdade, lhe pertence, pois o recebemos de empréstimo, até que encontrássemos alguém mais pobre do que nós".
Mas vendo o companheiro que o Seráfico Pai tinha grande necessidade daquele manto, opôs-se com insistência a que ele remediasse o outro, esquecendo-se de si mesmo. Ante a recusa do frade, o santo replicou: "Não quero ser um ladrão, pois como tais seremos tidos, se não cedermos este abrigo a quem tiver mais necessidade dele do que nós". Proferidas estas palavras, entregou o manto ao pobre.
CAPÍTULO 31
Como o santo deu, sob condição,
o seu manto novo a um pobreQuando se achava em Cortona, São Francisco usava um manto novo que seus frades, com muita solicitude lhe haviam adquirido. Acercou-se dele um pobre, lamentando-se da morte de sua mulher e do abandono em que se achava sua desafortunada família. Compadecendo-se de seu infortúnio, o santo lhe disse: "Dou-te este manto, mas com a condição de que não o dês a ninguém, senão a quem quiser comprá-lo e pague por ele um bom preço". Ouvindo isto, os frades acorrem pressurosos ao pobre, para reaver o manto. Mas aquele pobre, encorajado pela presença do santo, segurava-o com as duas mãos, como se fosse seu. Finalmente, os frades recuperaram o manto, pagando ao pobre o preço que lhe era devido.
CAPÍTULO 32
Como, em virtude das esmolas de São Francisco,
um pobre perdoou as Injúrias de seu amo e deixou de odiá-loEm Colle, na região de Perusa, São Francisco reencontrou um pobre homem que ele havia conhecido outrora, quando ainda vivia no século. Ao avistá-lo, perguntou-lhe: "Como vais, irmão?" Mas o pobre, enfurecido, começou a proferir injúrias contra seu amo, nestes termos: "Graças a meu amo, que o Senhor o amaldiçoe, vou muito mal. porque ele me esbulhou de todos os meus haveres".
E o santo, vendo-o persistir no seu ódio mortal, compadeceu-se de sua alma e lhe disse: "Irmão, por amor de Deus e para a salvação de tua alma, perdoa a teu amo que, talvez, te restitua o que te arrebatou. Caso contrário, além de teus bens, perderás a tua alma". Mas o homem retrucou-lhe: "Não posso perdoar-lhe de modo algum, se não me devolver antes o que me tomou". Então o santo lhe disse: "Toma, eu te dou este manto e te suplico que perdoes a teu amo por amor do Senhor Deus". Imediatamente abrandou-se o coração daquele homem que, movido por este benefício, perdoou a seu amo todas as injúrias que lhe fizera.
CAPÍTULO 33
Como enviou sua capa a uma velha que,
como ele, sofria dos olhosUma pobre mulher de Machilone veio a Rieti para tratar-se de uma moléstia de olhos. Quando o médico que tratava de São Francisco veio vê-lo, lhe disse: "Meu irmão, uma mulher, que sofre dos olhos, veio consultar-me; ela é tão pobre que eu tenho de pagar-lhe as despesas". Ouvindo isto, comiserou-se da infeliz mulher e, chamando um dos frades, que era então seu guardião, disse-lhe: "Irmão guardião, é nosso dever fazer bem ao próximo". - "Mas em que consiste esse bem, irmão?" - "Este manto que nós recebemos desta pobre enferma, devemos devolver-lho". Ouvindo isto, respondeu o guardião: "Irmão, faze como melhor te parecer".
Então o santo chamou alegremente um de seus amigos, homem de grande espiritualidade, e lhe ordenou: "Toma este manto juntamente com doze pães e vai procurar a mulher doente dos olhos, que o médico te indicar, e dize-lhe de minha parte: 'Um pobre homem, a quem tu emprestaste este manto te agradece e to devolve; toma, pois, o que te pertence"'. O irmão foi ter com a mulher e fez exatamente que lhe ordenara São Francisco. Pensando que zombavam dela, e ao mesmo tempo receosa e colérica, replicou: "Deixa-me em paz, pois não sei o que queres dizer com isto!" Mas ele meteu-lhe nas mãos o manto e os pães. Julgando então que ele dissera a verdade, aceitou-os com emoção e respeito, e, repleta de alegria, louvou ao Senhor. Mas, receosa de que os frades tentassem reavê-los, levantou-se à noite e, ocultamente, voltou para sua casa. Ora, São Francisco havia conseguido do guardião que todos os dias, enquanto ela permanecesse naquele lugar, os frades provessem suas necessidades.
Nós, que vivemos com ele, somos testemunhas de que o Seráfico Pai demonstrou sempre grande caridade e compaixão para com os pobres, fossem eles enfermos ou sãos, frades ou leigos. Com grande alegria interior e exterior dava aos pobres o que lhes era necessário ao corpo, e que muitas vezes os frades tinham conseguido com ingente sacrifício. Privava-se de tudo que não lhe era absolutamente indispensável, confortando-nos com palavras edificantes, para que, vendo aquilo, não nos afligíssemos. Por esta razão, o ministro geral e seu guardião proibiram-no de dar o seu hábito a qualquer irmão sem permissão deles. Com efeito, acontecia que muitas vezes os frades lhe pediam, por caridade, sua túnica e ele imediatamente lhes dava, ou então dividia-a em duas, dando-lhes um pedaço e conservando outro para si, pois possuía apenas uma.
CAPÍTULO 34
Como deu seu hábito aos frades que lhe pediam por amor de DeusCerta vez, enquanto, pregando, percorria uma província, dois frades de França foram ao seu encontro. Tendo recebido do Seráfico Pai grandes consolações, acabaram por pedir a sua túnica por amor de Deus.
Assim que o santo ouviu as palavras "por amor de Deus", desfez-se imediatamente da túnica e lhes deu, ficando despido por alguns momentos. Com efeito, todas as vezes que invocavam o "amor de Deus", para lhe pedir a túnica, a corda ou qualquer outra coisa, não recusava jamais. Por isto, muito lhe desagradava, e costumava repreender severamente os frades quando os ouvia pronunciarem as palavras "por amor de Deus" inutilmente, por motivos de somenos importância, e acrescentava: "O amor de Deus é tão sublime e tão precioso que não se deveriam empregar estas palavras senão raramente, em caso de necessidade e com grande respeito".
Então um daqueles frades despiu a própria túnica e a deu ao santo em troca da dele. Quando dava sua túnica, o santo experimentava grande desgosto e muito se afligia, por não poder obter outra igual, pois usava sempre túnicas pobres, remendadas por dentro e por fora. E nunca ou raramente consentia em vestir túnica de fazenda nova, procurando, de preferência, uma que já tivesse sido usada, durante algum tempo, por outro irmão. Mas às vezes era forçado a forrá-la por dentro, com pedaços de panos novos, por causa de suas incontáveis doenças, dos esfriamentos do estômago e do baço. Deste modo, observou a pobreza até o dia em que se foi para o Senhor. Pouco antes de sua morte, como padecia de hidropisia e estava reduzido a pouco menos que um cadáver e, ademais; acabrunhado por diversos outros achaques, fizeram-lhe os frades várias túnicas para poder mudá-las freqüentemente, durante o dia e a noite.
CAPÍTULO 35
Como deu, às escondidas, um pedaço de pano a um pobreEm outra ocasião, um pobre foi à casa onde se encontrava o santo e pediu aos frades um pedaço de fazenda por amor de Deus. Ao ouvi-lo, ordenou o santo a um dos frades: "Corre a casa e vê se achas um pedaço ou uma peça de fazenda e dá a este pobre". Tendo percorrido em vão toda a casa, comunicou ao santo nada haver encontrado. Para que o pobre não voltasse de mãos vazias, São Francisco furtivamente, a fim de que o guardião não o impedisse, tomou uma faca e, sentando-se em um lugar oculto, pôs-se a descoser de sua túnica um pedaço de pano que estava costurado por dentro, a fim de dá-lo ocultamente àquele pobre. Mas, adivinhando o que se passava, o guardião foi-lhe ao encalço e proibiu-lhe de dar aquele pedaço de pano, sobretudo porque fazia então grande frio e o santo além de doente era muito friorento.
A esta proibição o santo respondeu: "Se queres que eu não dê este pedaço de pano, ordena que lhe seja dado outro pedaço qualquer, pois é absolutamente necessário que socorramos este pobre". Desta maneira, graças à intervenção de São Francisco, os frades deram, cada um, àquele pobre, um pedaço de fazenda de sua própria vestimenta. Quando, em pregações, percorria o mundo, costumava ir ora a pé, ora montado em um burro, quando ficou doente. Só viajava a cavalo em caso de grande e estrita necessidade, pois em outra circunstância não queria fazê-lo, e isto pouco antes de sua morte.
Se um frade lhe emprestava seu manto, não o aceitava senão na condição de lhe ser permitido dá-lo a qualquer pobre que encontrasse, ou que lhe aparecesse, sempre que em consciência lhe parecesse mais necessitado que ele.
CAPÍTULO 36
Como ordenou a Frei Egídio, antes que este entrasse na Ordem,
que desse sua capa a um pobreNos primórdios da Ordem, quando São Francisco morava em Rivotorto com dois irmãos, os únicos que ele tinha então, veio ter com ele certo homem, chamado Egídio, que foi o terceiro de seus companheiros. Seu desejo era abandonar o mundo para compartilhar com eles do mesmo gênero de vida. Permaneceu, por alguns dias, com as vestes trazidas do mundo. Mas um dia apresentou-se ao santo um pobre pedindo esmola. Voltando-se então para o novo companheiro, o santo lhe disse: "Irmão, dá a tua capa a este pobre". Imediatamente, com grande alegria, despiu-a, entregando-a ao pobre. Viu-se desde logo, pela alegria com que dera sua capa ao pobre, que o Senhor lhe tinha infundido no espírito uma nova graça. Depois disto foi admitido na Ordem por São Francisco, progredindo sempre em virtude até alcançar grande perfeição.
CAPÍTULO 37
Da penitência infligida a um frade por haver este feito
mau juízo de um pobreComo São Francisco tivesse ido a uma casa de frades, perto de Rocca di Brizio, para pregar, aconteceu que no dia de sua pregação aproximou-se dele um homem, pobre e doente. Movido de compaixão, discorria com seu companheiro sobre a pobreza e a enfermidade daquele homem. Mas, ao ouvi-lo, o companheiro comentou: "Irmão, é verdade que ele parece bastante pobre, mas é bem possível que em toda esta província não haja alguém que, tanto como ele, tenha o desejo de ser rico". Por este juízo temerário foi severamente repreendido pelo santo e reconheceu a sua falta. Vendo a sua aflição, perguntou-lhe o Seráfico Pai: "Queres fazer a penitência que te ordenar?" "Desejo-o de todo o coração, pai". "Vai, então, despe tua túnica e lança-te nu aos pés daquele pobre, dize-lhe como pecaste denegrindo-o e pede-lhe que reze por ti". O irmão foi e fez exatamente como o santo lhe ordenara. Depois soergueu-se, tomou sua túnica e voltou para junto do Seráfico Pai. Este então lhe pergunta: "Queres saber, irmão, em que pecaste contra este homem e contra Cristo? Quando vires um pobre, deverás considerar que ele vem em nome de Cristo, que pôs sobre ele a nossa pobreza e a nossa enfermidade. Portanto, a pobreza e a enfermidade deste homem devem ser para nós um espelho no qual devemos contemplar com devoção a enfermidade e a pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo que as suportou em seu corpo, para nossa salvação".
CAPÍTULO 38
Como fez dar um Novo Testamento a uma pobre mulher,
mãe de dois fradesOutra vez, quando o santo morava em Santa Maria da Porciúncula, aproximou-se dele uma velhinha que tinha dois filhos na Ordem e lhe pediu uma esmola. Ao ouvi-la, perguntou a Frei Pedro Cattani, então ministro geral: "Podemos encontrar em casa alguma coisa para dar a nossa mãe?" Com efeito, o Seráfico Pai afirmava sempre que a mãe de um frade era não só a sua própria mãe, mas também a de todos os seus frades.
O ministro geral respondeu-lhe: "Não há nada em casa que possamos dar-lhe, pois ela deseja uma esmola com a qual possa remediar suas necessidades corporais. Na igreja temos apenas um Novo Testamento no qual fazemos nossas leituras matinais". - Naquele tempo os frades não tinham breviários, nem muitos saltérios. Então o santo ordena-lhe: "Dá este Novo Testamento a nossa mãe para que ela o venda e com o lucro possa prover às suas necessidades. Creio firmemente ser isto mais agradável a Nosso Senhor e à Santíssima Virgem do que fazermos nele nossas leituras". E lho deu. Pode-se pois dizer e escrever dele o mesmo que se lê do bem-aventurado Jó: "Sua caridade saiu com ele do seio materno e cresceu com ele".
Para nós que vivemos com ele seria difícil, senão impossível, relatar tudo o que vimos e ouvimos de outros, sobre sua caridade e comiseração para com os irmãos e os outros pobres, além do que nós mesmos vimos com nossos próprios olhos.