(Vida de São Francisco de Assis)
São Boaventura
CAPITULO 6
Humildade e obediência, favores com que Deus o cumulava1. A humildade, defesa e ornamento de todas as virtudes, havia cumulado o homem de Deus de bens superabundantes. Aos próprios olhos, era apenas um pobre pecador. Na realidade, porém, era o espelho resplendente de toda santidade. Como um arquiteto prudente (cf. 1Cor 3,10), que começa pelas fundações, ele se empenhou. de corpo e alma a construir unicamente sobre a humildade, conforme aprendera de Cristo. "O Filho de Deus, dizia ele, deixando o seio do Pai, desceu das alturas do céu até a nossa miséria para nos ensinar a humildade, Ele, que é o Senhor e o Mestre, tanto pelo exemplo quanto pela palavra". Por isso, como verdadeiro discípulo de Cristo, procurava diminuir-se aos próprios olhos e dos demais, recordando as palavras do Mestre: "O que para os homens é estimável, é abominável perante Deus" (Lc 16,15). E gostava de repetir esta máxima: "O homem é o que é diante de Deus, nem mais nem menos". Por isso considerava insensatez consumada envaidecer-se alguém com os favores do mundo, o conforme essa doutrina, se alegrava particularmente com as ofensas que recebia e se entristecia quando alguém o louvava. Pois preferia ouvir a seu respeito vitupérios e não louvores, sabendo que aqueles contribuíam eficazmente para sua própria emenda, enquanto os louvores poderiam causarlhe algum dano à alma. Segundo esse princípio, quando as pessoas exaltavam sua elevada santidade, costumava ordenar a um dos irmãos que, sem receio, lhe dirigisse palavras de desprezo e humilhação. E quando o religioso, forçado pela obediência, o chamava de rústico, grosseiro, homem iletrado ou inútil para tudo, cheio de santa alegria, que se refletia em seu semblante, Francisco lhe respondia: "Bendiga-te o Senhor, meu filho, pois és o único que dizes a verdade, e são estas as palavras que sempre deveria ouvir o filho de Pedro Bernardone".
2. E para fazer-se desprezível aos outros, não hesitava, nas viagens de pregação que fazia, de revelar a todo o povo seus próprios defeitos. Um dia, doente e sem mais energias, viu-se obrigado a suavizar um pouco os rigores de seu jejum a fim de recuperar a saúde. Assim que recobrou as forças, não perdeu tempo em se expor ao desprezo dos outros, tanto ele mesmo se desprezava: "Não é justo que as pessoas me tomem por um homem mortificado, enquanto ocultamente cuido de mim com demasiadas regalias". Levantou-se então imediatamente, impelido pelo espírito de santa humildade, e tendo convocado o povo para a praça da cidade de Assis, entrou na catedral com grande solenidade, acompanhado de muitos irmãos que trouxera consigo. Atou uma corda ao pescoço e nu, sem outras roupas que as necessárias para o decoro, apresentou-se diante de todos e em seguida ordenou que o conduzissem ao pelourinho onde era costume manter os criminosos que deveriam ser executados. Subiu ao pelourinho, e no maior rigor do inverno e apesar de estar ardendo em febre e extremamente fraco, pregou com grande fervor de espírito, falando a seus ouvintes que não deveriam honrá-lo como se fosse um homem espiritual, mas desprezá-lo como um glutão e carnal. Todos os assistentes, cheios de admiração diante desse espetáculo extraordinário e profundamente edificados, pois conheciam muito bem sua austeridade, proclamaram que semelhante humildade era mais admirável do que imitável. Suponhamos que se trate de uma dessas ações simbólicas habituais entre os profetas (cf. Is 20,3), e não propriamente um exemplo; assim mesmo, temos aí uma bela lição de humildade perfeita em que o discípulo de Cristo ensina que ele deve desprezar todos os testemunhos do louvor passageiro, reprimir toda vaidade e pretensão e depor a máscara da simulação hipócrita.
3. Muitas vezes praticava ações dessa espécie a fim de parecer externamente como um desses vasos de perdição e dessa forma ter em si o espírito de santificação. Quando as multidões o aclamavam, dizia: "Ainda poderei ter filhos e filhas: não me louveis como se já estivesse a salvo. Não se deve louvar a ninguém quando não se sabe como há de terminar". Falava assim aos seus admiradores. Mas a si mesmo dizia: "Francisco, se o Senhor houvesse conferido ao mais desalmado ladrão os dons que recebeste, saberia agradecê-los e corresponderia muito mais do que tu". Muitas vezes dizia assim aos irmãos: "Ninguém deve iludir-se exaltando-se injustamente por coisas que também um pecador pode realizar. Pois um pecador pode jejuar, orar, chorar e disciplinar a própria carne. E só isto não pode fazer: ser fiel ao seu Senhor. Por isso devemos gloriar-nos somente nestes casos: rendendo a Deus a glória que lhe é devida; servindo-o com fidelidade; atribuindo-lhe tudo o que lhe pertence".
4. Como o comerciante de que fala o Evangelho, querendo Francisco ganhar sempre mais e tornar produtivo cada um de seus instantes, procurou ser súdito e não superior, obedecer e não mandar; por essa razão, renunciou ao cargo de superior geral, pedindo um guardião a cuja vontade se submeteu em todas as circunstâncias. Com efeito, dizia ele, o fruto da santa obediência é tão abundante, que nenhuma fração de tempo transcorre sem vantagem para aqueles que submetem a cerviz ao jugo da obediência. Por isso tinha o hábito de prometer sempre obediência ao irmão com quem viajava e de observá-la. Certa vez disse aos companheiros: "Entre os benefícios que Deus me concedeu em sua bondade, obtive a graça de estar pronto a obedecer com igual solicitude a um noviço de uma hora que me fosse dado como guardião como ao irmão mais antigo e mais experimentado. Um súdito não deve considerar em seu superior o homem, mas aquele por amor do qual ele aceitou obedecer. Quanto menos digno o superior, tanto mais aarada a Deus a humildade daquele que obedece". Aos irmãos que lhe perguntavam um dia como reconhecer o religioso verdadeiramente obediente, propôs ele em parábola o exemplo do cadáver: "Tomai, disse ele, um corpo que a alma abandonou e colocai-o em qualquer lugar. Vereis que se o moverdes, não se há de opor; se o deixardes cair, não protestará; se o colocardes numa cátedra, não dirigirá seus olhos para o alto, mas para o mais baixo da terra; se o adornardes com vestido de púrpura, só aumentareis sua palidez cadavérica. Tal o verdadeiro obediente: não julga por que o movem de um lado para outro, não se preocupa com o lugar onde o coloquem, não insiste para que o removam de um convento para outro; se é elevado a um ofício honroso, conserva sua costumeira humildade, e quanto mais honrado se vê, tanto mais indigno se julga de toda honra".
5. Um dia disse a um companheiro seu: "Não me julgarei nunca um verdadeiro irmão menor, enquanto não chegar ao estado de espírito que te vou descrever. Imagina que eu sou o superior de meus irmãos, vou ao capítulo, faço um sermão, dou meus conselhos e quando termino, alguém me diz: Não tens o que é necessário para ficar conosco; não tens estudos, não és eloqüente, não tens cultura, e és idiota e simples! E sou expulso vergonhosamente, desprezado de todos. Pois bem, se não ouvisse todos esses impropérios com igual serenidade de semblante, com a mesma alegria da alma e com igual tranqüilidade de espírito como se fossem louvores, não seria certamente irmão menor". E não contente com isso acrescentava: "Uma dignidade é uma ocasião de queda; o louvor é um precipício escancarado; mas o lugar de súdito é fonte de méritos para a alma. Por que desejar os riscos e não as vantagens, uma vez que é para nos enriquecer que o tempo nos foi dado?" Compreende-se pois por que Francisco, modelo de humildade, quis que seus irmãos fossem chamados "frades menores", e os superiores da Ordem "servos", para assim empregar os próprios termos do Evangelho (cf. Mt 25,45) que ele aceitou seguir e ensinar a seus discípulos, recordando-lhes que haviam entrado na escola de Cristo de coração humilde precisamente para dele aprenderem a humildade. Jesus Cristo efetivamente, para ensinar a seus discípulos a santa humildade, havia dito: "Aquele dentre vós que quiser ser o maior deve fazer-se servidor de todos, e aquele de vós que quiser ser o primeiro, seja vosso servo" (Mt 20,26-27). Certo dia, falava o servo de Deus com o cardeal bispo de Óstia, protetor e principal propagador da Ordem dos Frades Menores, que mais tarde, segundo a profecia do santo, chegou a ser Pontífice Romano, com o nome de Gregório IX. Este lhe perguntou se desejava que seus irmãos fossem promovidos às dignidades eclesiásticas, e Francisco lhe respondeu: "Senhor, meus irmãos se chamam precisamente menores para que nunca presumam elevar-se a coisas maiores. Se quereis, pois, que dêem fruto abundante na Igreja de Deus, deixai-os e conservai-os no estado de sua própria vocação e não permitais de modo algum que sejam promovidos aos honrosos cargos da Igreja".
6. Preferindo a pobreza para si e seus irmãos acima de qualquer honra deste mundo, Deus que ama os humildes julgou-o digno de maior honra. Esse fato foi revelado a um dos irmãos, homem virtuoso e santo, numa visão que teve do céu. Estava viajando com Francisco, quando entraram numa igreja abandonada, onde oraram com todo fervor. Este irmão teve então uma visão em que via uma multidão de tronos no céu, um dos quais era radiante de glória e adornado de pedras preciosas e era o mais elevado de todos. Estava maravilhado com tanto esplendor e se perguntava a quem ele caberia. Ouviu então uma voz que lhe dizia: "Esse trono pertenceu a um dos anjos caídos. Agora está reservado ao humilde Francisco". Ao voltar a si do êxtase, o irmão seguiu o santo que estava saindo da igreja. Retomaram o caminho e continuaram conversando sobre Deus. O irmão recordou-se então da visão e discretamente perguntou a Francisco o que achava de si mesmo. Respondeu o humilde servo de Cristo: "Reconheço que sou o maior pecador do mundo". Replicou-lhe o irmão que ele não podia fazer semelhante afirmação em consciência tranqüila, nem mesmo pensar assim. Francisco continuou: "Se Cristo houvesse tratado ao maior celerado dos homens com a mesma misericórdia e bondade com que me tem tratado, tenho certeza que ele seria muito mais reconhecido a Deus do que eu". Ao ouvir palavras de tanta humildade, o irmão teve a confirmação de que a sua visão era verdadeira, sabendo perfeitamente que, segundo o santo Evangelho, o verdadeiro humilde será exaltado ao trono de glória de que o soberbo é excluído.
7. Em outra ocasião, enquanto orava numa igreja deserta da província de Massa, próxima a Monte Casale, soube por inspiração divina que naquela igreja jaziam relíquias de santos. Penalizado de vê-las assim tanto tempo abandonadas sem a veneração que lhes era devida, ordenou aos irmãos que as levassem ao convento. Depois, chamado a outros compromissos, deixou os irmãos, que esqueceram a ordem do Pai e perderam o mérito da obediência. Um dia, porém, desejando celebrar os sagrados mistérios, descobriram, para grande surpresa de todos, sob as toalhas do altar, ossos belíssimos e de suave perfume. Eram as relíquias transportadas para lá não pelas mãos dos homens, mas pelo poder de Deus. Voltando pouco depois, o homem de Deus lhes perguntou se haviam executado suas ordens a respeito das relíquias. Os irmãos humildemente se acusaram de haverem descuidado de obedecer e obtiveram o perdão depois de se penitenciarem. E disse-lhes o santo: "Bendito seja o Senhor meu Deus que se dignou ele mesmo fazer o que vós deveríeis ter feito!" Considerai a solicitude da divina Providência pela poeira que somos todos nós e reconhecer a excelência da virtude do humilde Francisco na presença de Deus, pois, não tendo os homens cumprido as ordens do santo, quis o próprio Deus condescender benignamente a seus desejos.
8. Certo dia Francisco chegou a Ímola e se dirigiu ao bispo local para lhe pedir humildemente autorização de convocar o povo e pregar. Ao ouvir o bispo semelhante pedido, respondeu-lhe com certa dureza: "Meu irmão, eu mesmo prego a meu povo e isto basta!" Francisco inclinou a cabeça com toda humildade e saiu. No entanto, não havia passado ainda uma hora, e lá estava ele de novo. O bispo ficou quase irritado e lhe perguntou o que vinha fazer de novo. Então Francisco replicou respeitosamente e sem o mínimo sinal de arrogância: "Senhor, quando um pai expulsa o filho por uma porta, este deve encontrar uma outra para entrar". Vencido com tanta humildade, o bispo, entusiasmado, abraçou-o e disse-lhe: "Doravante pregareis em minha diocese, tu e teus companheiros; dou-vos permissão irrestrita, pois tua santa humildade bem a merece!"
9. Em outra ocasião chegou Francisco a Arezzo e encontrou toda a cidade num grande tumulto provocado pelas lutas de facções políticas à beira da destruição. Encontrou hospedagem numa aldeia fora das muralhas da cidade e pôde ver os demônios que perturbavam os cidadãos e os excitavam à mútua matança. Resolvido a banir para longe aquelas sediciosas forças infernais, enviou para diante de si, como núncio ou embaixador, ao bem-aventurado irmão Silvestre, homem de columbina simplicidade, dizendo: "Vai, meu filho, às portas da cidade e da parte de Deus onipotente e em virtude da santa obediência, ordena a esses demônios que saiam imediatamente". Obediente como era, cumpriu imediatamente o que lhe mandava o santo. Aproximou-se das portas da cidade, cantando um hino de louvor a Deus, e clamou em altos brados: "Em nome do Deus onipotente e por ordem de seu servo Francisco, ide-vos embora, todos vós espíritos infernais!" Logo a cidade ficou pacificada e se tranqüilizaram seus moradores respeitando os mútuos direitos. Assim, banida para longe dali a soberba furiosa dos demônios que haviam cercado a cidade e sobrevindo a sabedoria de um pobrezinho, quer dizer, a profunda humildade de Francisco, refez-se a paz ficando a cidade libertada, pois com a extraordinária virtude de sua obediência Francisco merecera alcançar sobre aqueles espíritos rebeldes e dispostos a tudo tal domínio, que pôde reprimir suas diabólicas fúrias e pôr em fuga sua danosa violência.
10. Como acabamos de ver, as excelentes virtudes dos humildes abatem o orgulho dos demônios. No entanto, para resguardar a sua humildade, permite Deus que recebam bofetadas, como atesta São Paulo de si mesmo (cf. 2Cor 12,7) e como Francisco experimentou. Convidado, certo dia, pelo Senhor Cardeal Leão de Santa Cruz a permanecer com ele em Roma por algum tempo, consentiu humildemente, pois respeitava e amava muito o cardeal. Mas, ao anoitecer, Francisco, depois de haver orado, se preparava para dormir, quando surgiram demônios furiosos que caíram sobre o soldado de Cristo, bateram nele e o deixaram :semimorto. Chamando então seu companheiro, o servo de Deus lhe contou o que acabara de acontecer e concluiu: "Vês, irmão, se os demônios que só possuem o poder que a Providência divina lhes concede se lançaram sobre mim com tanta fúria, é porque a minha permanência na corte dos grandes é um mau exemplo. Meus irmãos que moram em pequenos conventinhos, se souberem que vivo em companhia de cardeais, poderiam acreditar que estou mergulhado nas coisas mundanas, inebriado pelas honras e cumulado de bem-estar. Creio ser melhor que aquele que tem por vocação dar o exemplo fuja dos palácios e more humildemente em pobres conventos no meio dos humildes, a fim de lhes dar, partilhando de sua situação, mais força para suportar a sua indigência". De manhã procuraram o cardeal e com humildes escusas se despediram dele.
11. O homem de Deus detestava a soberba, origem de todos os males, e a desobediência, filha da soberba; mas estava sempre disposto a acolher toda atitude humilde de penitência e arrependimento. Certa vez, apresentaram-lhe para o justo castigo um irmão acusado de desobediência. Por sinais que não o enganavam, o homem de Deus percebeu que o irmão estava sinceramente arrependido e imediatamente se dispôs ao perdão, tanto amava ele a humildade. Todavia, para evitar que a facilidade do perdão fosse para os outros um incentivo para faltarem, ordenou que lhe tirassem o capuz e o lançassem às chamas. Cumpria mostrar a todos o rigor que merecem as faltas à obediência. Depois de algum tempo mandou que retirassem do fogo o capuz para restituí-lo ao irmão, humilde e arrependido. Retiraram então o capuz do meio do fogo. E que maravilha! O capuz não tinha o menor sinal de queimadura! Deus assim demonstrava com um só milagre a virtude do santo e a humildade do penitente.
A humildade de Francisco merece pois ser imitada. Ele conseguiu tal mérito ainda neste mundo que fez o próprio Deus condescender com seus desejos, mudou os afetos do coração humano, reprimiu com seu poder a presunçosa malícia dos demônios e, com apenas um gesto de sua vontade, apagou a voracidade das chamas. Esta virtude é, na verdade, a que, exaltando os homens, obriga ao humilde a dar a todos o merecido respeito e faz, por outro lado, que todos o honrem e glorifiquem.
CAPITULO 7
Amor à pobreza e intervenções miraculosas nas necessidades1. Entre outros dons e carismas que o Doador de todos os bens concedeu a Francisco, houve um privilégio singular: o de crescer nas riquezas da simplicidade através do amor pela altíssima pobreza. Considerando o santo que esta virtude havia sido familiar ao Filho de Deus e vendo-a quase desterrada do mundo, quis torná-la sua esposa, amando-a com amor eterno, e por ela não só deixou pai e mãe, mas generosamente distribuiu tudo quanto possuía. Ninguém foi tão ávido de ouro quanto o foi Francisco da pobreza e ninguém pôs tanto cuidado em guardar seus tesouros como o foi ele em conservar tão preciosa pérola. Por isso nada o ofendia tanto como ver em seus irmãos qualquer coisa que não estivesse inteiramente de acordo com a pobreza. E na verdade, o santo, desde o início de sua vida religiosa até a morte possuiu estas riquezas: a túnica, o cordão e as roupas de baixo; e vivia contente. Muitas vezes recordava, sem poder conter as lágrimas, a pobreza de Cristo e de sua Mãe. Afirmava que esta é a rainha das virtudes, porque a vemos brilhar com pleno fulgor mais do que todas as outras, no Rei dos reis e na Rainha sua Mãe 16. Por essa razão, certa vez, reunidos os irmãos e tendo-lhe um deles perguntado qual a virtude mais apropriada do que qualquer outra para se captar a perfeita amizade de Cristo, respondeu como quem descobre um segredo íntimo do coração. "Sabei, irmãos, que a pobreza é o caminho mais seguro para a salvação, como fundamento que é da humildade e raiz de toda perfeição, e seus frutos, embora ocultos, são múltiplos e abundantíssimos. Essa virtude é aquele tesouro evangélico escondido no campo; para comprá-lo se deve vender tudo e por seu amor desprezar tudo o que não se pode vender".
2. E dizia: "Quem pretende chegar ao cume da pobreza deve renunciar não somente à prudência segundo o mundo, mas também às letras e às ciências; assim despojado daquilo que ainda é uma forma de posse, proclamará o poder do Senhor (cf. SI 73,15-16) e se oferecerá nu ao abraço do Crucificado. Aquele que guarda sua reservazinha de amor-próprio no íntimo do coração ainda não renunciou inteiramente ao mundo". Em seus sermões aos irmãos sobre a pobreza, muitas vezes citava esta passagem do Evangelho: "As raposas têm suas covas e os pássaros seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça" (Mt 8,20). Concluía dai que os irmãos não devem construir senão casas pequenas e pobres, como os pobres fazem, nem se instalar nelas como proprietários mas comportar-se como peregrinos e estrangeiros na casa dos outros. Ser peregrino, dizia ele, é ser recebido na casa dos outros, ter nostalgia da pátria e irradiar a paz à sua passagem. Mandava mesmo derrubar casas já construídas ou fazia sair delas os irmãos, quando as considerava contrárias à pobreza evangélica por terem os irmãos aceito a propriedade delas ou exagerado seu conforto. Para ele a pobreza era a pedra fundamental da Ordem, fundamento de todo esse edifício que permanecerá sólido enquanto ela for sólida e se um dia ela desaparecer, ficará completamente destruído.
3. "Para se entrar na vida religiosa, ensinava ele de acordo com uma revelação, é preciso começar praticando esta palavra do Evangelho: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá-o aos pobres" (Mt 19,21). Por essa razão só admitia à Ordem aquele que houvesse renunciado à propriedade e nada absolutamente retivesse para si. Assim se conformava ao Evangelho e evitava o escândalo que provocaria o costume das bolsas particulares. Um homem da Marca de Ancona lhe pediu um dia admissão na Ordem. "Se quiseres partilhar a vida dos pobres de Cristo, disse-lhe Francisco, distribui entre os pobres do mundo tudo o que possuis". Ao ouvir isso, retirou-se ele, distribuiu seus bens à própria família e os pobres ficaram sem nada. Era um amor bem carnal que assim o fazia agir. Voltou ele e contou tudo ao santo, que o repreendeu duramente: "Segue teu caminho, irmão Mosca. Nunca deixaste tua casa ou tua família. Repartiste teus bens com a parentela e defraudaste os pobres. Não és, pois, digno de viver com os pobres evangélicos. Começaste por espírito carnal: para um edifício espiritual é um fundamento que não vale nada!" Voltou o homem carnal para os seus, exigiu de volta os bens que havia deixado e que não quis distribuir aos pobres, abandonando assim imediatamente seus propósitos de virtude.
4. Em outra época, vivia a comunidade de Santa Maria da Porciúncula em tanta miséria que nada tinham para oferecer aos irmãos que chegavam de visita. O vigário de Francisco aproximou-se dele e lhe falou da penúria que sofriam e pediu-lhe permissão para reservar algo dos bens dos noviços que entravam na Ordem para poderem recorrer a esses bens quando parecesse indispensável. Francisco, que tinha a proteção da divina Sabedoria, replicou: "Irmão caríssimo, Deus proibiu que atentássemos contra a Regra por qualquer motivo que seja. Se a situação é precária, prefiro que se suprimam os adornos do altar da gloriosa Virgem ao menor atentado contra o voto de pobreza e observância do Evangelho. Pois a bem-aventurada Virgem Maria ficará muito mais satisfeita se, despojando embora seu altar, seguirmos perfeitamente os conselhos do santo Evangelho do que se, enfeitando seu altar, transgredirmos os conselhos que seu Filho nos deixou e nós prometemos seguir".
5. Andando o santo certo dia com um companheiro através da Apúlia, viu, ao sair da cidade de Bari, no caminho, uma bolsa que parecia repleta de dinheiro. O companheiro insistiu com o pobrezinho de Cristo que seria conveniente recolher do chão aquela bolsa e distribuir o dinheiro aos pobres. Francisco recusou ouvir esse pedido, suspeitando que naquela bolsa se escondia, sem dúvida, alguma cilada diabólica. Por isso julgava que o companheiro lhe estava aconselhando uma coisa não meritória, ou até mesmo pecaminosa, isto é, apoderar-se do alheio a pretexto de o dar aos pobres. Por esta recusa afastaram-se daquele lugar e apressaram o passo continuando a viagem começada. Mas não ficou tranqüilo aquele irmão levado de uma falsa piedade, chegando mesmo ao extremo de repreender a Francisco e acusá-lo de não querer socorrer as necessidades dos pobres. Importunado com tanta insistência, consentiu o santo em voltar ao local mencionado, não para satisfazer o irmão, mas para pôr à luz o ardil do demônio. Volta até a bolsa com o irmão e um jovem que passava; põe-se em oração e ordena a seu companheiro que pegue o dinheiro. O irmão tremia já de medo, pois começava a pressentir uma aparição do demônio; mas forçado pelo preceito da santa obediência, pôs de lado toda dúvida e estendeu a mão para pegar o dinheiro. No mesmo instante, uma serpente descomunal saiu da bolsa e, ao desaparecer, no mesmo instante, levou-a consigo, ficando bem claro o ardil do demônio. Uma vez desmascarada a dita astúcia, disse Francisco a seu companheiro: "O dinheiro, irmão caríssimo, para os servos de Deus é apenas o demônio e uma serpente venenosa!"
6. Depois disso, ao se dirigir à cidade de Sena por motivo urgente, aconteceu ao santo um fato extraordinário. Três senhoras pobres, perfeitamente semelhantes de estatura, idade e semblante, saíram-lhe ao encontro na grande planície que se estende entre Campiglia e San Quirico, as quais o saudaram de um modo completamente inusitado: "Seja bem-vinda a Senhora Pobreza". A essas palavras, uma alegria inefável inundou o coração apaixonado daquele amante da Pobreza, pois se houvesse nele qualquer virtude a saudar, nenhuma outra melhor existiria. Tendo elas desaparecido subitamente, os companheiros de Francisco, ao considerar nas três senhoras semelhança tão admirável e a surpresa de tal aparição, a forma que usaram de saudação e o repentino desaparecimento delas, julgaram com toda razão que nisso tudo se ocultava algum segredo misterioso relacionado com o santo fundador. De fato, essas três senhoras pobres com traços tão semelhantes, saudação tão estranha e desaparecimento tão inesperado, podem perfeitamente simbolizar a perfeição evangélica, cuja tríplice beleza: pobreza, castidade e obediência, resplandecia igualmente no homem de Deus, que havia preferido orgulhar-se na pobreza. Tinha como um privilégio e ora a chamava sua mãe, ora sua esposa, ora sua senhora. Na pobreza buscava Francisco superar a todos os outros, ele que aprendera da própria pobreza a se considerar inferior a todos. Se lhe acontecia encontrar alguma pessoa mais pobre que ele, ao menos na aparência, logo se censurava e se empenhava a ser também como ela, como se tivesse medo de ser vencido pelo outro na amorosa porfia da pobreza. Certa ocasião, lhe sucedeu encontrar um pobre. Vendo-lhe a nudez, compadeceu-se profundamente dele, e voltando-se ao companheiro, com voz lastimosa lhe disse: "Que vergonha deve causar-nos, irmãos, a nudez deste mendigo! Escolhemos a pobreza como nossa riqueza mais estimada, e eis que neste homem ela resplandece muito mais do que em nós".
7. Por amor da santa pobreza, o servo de Deus onipotente preferia alimentar-se das esmolas coletadas de porta em porta àquelas que lhes eram oferecidas espontaneamente. Sendo convidado alguma vez por grandes personagens e não podendo eximir-se da honra de assentar-se às mesas suntuosas, ia primeiro mendigando pelas casas mais próximas alguns pedaços de pão, e, enriquecido depois com essa esmola, não rejeitava o convite. Foi o que fez certa vez ao ser convidado pelo cardeal de Óstia, extraordinariamente afeiçoado ao pobre de Cristo. Queixou-se o cardeal julgando ser pouco honroso para ele que, devendo comer em sua casa, tivesse pedido esmola. Francisco lhe respondeu: "Senhor, grande honra vos tributei, honrando ao outro Senhor mais excelente. Porque na verdade o Senhor se compraz na pobreza, e muito mais naquela que por amor de Cristo se converte em mendicância voluntária. Não quero trocar por essas vãs riquezas que vos foram concedidas aquela dignidade real que Cristo, que se fez pobre por nós, tomou para si, a fim de nos enriquecer com sua pobreza e tornar-nos, como verdadeiros pobres de espírito, herdeiros e reis do reino dos céus".
8. Ao exortar os irmãos a pedir esmolas, Francisco costumava dizer-lhes: "Ide, porque nestes últimos dias os irmãos menores foram dados ao mundo como benefício, para que os eleitos os tratem de tal modo que mereçam ser louvados pelo supremo Juiz no dia do juízo e ouvir estas palavras: Quando fizestes isso ao menor de meus irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25,40). Por isso julgava ele honroso pedir esmola com o título de irmãos menores, pois o próprio Senhor o usou nos Evangelhos, ao falar da recompensa reservada aos eleitos. Sempre que podia, ia pedir esmola nas principais festas do ano, lembrado das palavras do salmista: "O homem comeu o pão dos anjos" (Sl 77,25), pois para ele era realmente o pão dos anjos, esmolado de porta em porta pela santa Pobreza por amor de Deus, e concedido pelos benfeitores por amor de Deus sob a inspiração dos anjos bem-aventurados.
9. Certo dia de Páscoa, encontrando-se em um santuário ou eremitério, tão distanciado do contato dos homens que não podia facilmente mendigar seu alimento, lembrou-se daquele que no mesmo dia apareceu em traje de peregrino aos discípulos no caminho de Emaús. Pediu esmola a seus irmãos, considerando-se a si mesmo como um pobre peregrino. E tendo-a recebido com humildade, instruiu-os nas divinas letras, exortando-os a que no deserto deste mundo se julgassem peregrinos e estrangeiros, isto é, como verdadeiros israelitas, e a que celebrassem continuamente em pobreza de espírito a Páscoa do Senhor, ou seja, o trânsito desta vida à vida eterna. Não era o desejo do ganho que o animava a pedir esmolas, mas a força do Espírito que o dominava; e por isso Deus, Pai dos pobres, sempre teve com ele um cuidado todo particular.
10. Certa ocasião, ele adoecera gravemente no pequeno convento de Nocera, e o povo de Assis, em sua veneração pelo santo, enviou-lhe uma escolta para reconduzi-lo a Assis. Sempre seguindo o servo de Cristo, chegaram a Satriano, pequena aldeia pobre; era hora da refeição; estavam com fome; percorreram a cidade em todas as direções: não havia meio algum de comprar o que quer que fosse, e voltaram de mãos vazias. Disse-lhes então o santo: "Se nada encontrastes, é porque tivestes mais confiança em vossas moscas (chamava assim o dinheiro) do que em Deus. Voltai às casas aonde já fostes bater e pedi esmola por amor de Deus. E não creiais que isso seja um gesto vergonhoso ou humilhante - seria errado pensar assim - pois todas as coisas, desde o pecado, nos foram dadas a título de esmola, aos dignos e aos indignos, pela magnânima bondade de nosso Grande Esmoler". Os soldados deixam de lado a vergonha e vão pedir esmola espontaneamente, recebendo por amor de Deus muito mais do que poderiam comprar com o dinheiro que possuíam; pois a graça de Deus agiu com tanta eficácia, que os pobres habitantes, comovidos profundamente, não só se contentaram em dar o que tinham como também se puseram generosamente a serviço deles. Foi assim que a pobreza, tesouro de Francisco, conseguiu aliviar a indigência que o ouro não pudera.
11. No tempo que esteve doente num eremitério perto de Rieti, um médico o visitava com freqüência. Mas como o pobrezinho de Cristo não tivesse condições de recompensá-lo dignamente por seu trabalho, o próprio Deus em sua infinita liberalidade, para que o médico não ficasse sem a devida recompensa, remunerou, em nome do pobrezinho, os serviços dele com este singular benefício. Havia o médico construido por esse tempo e às próprias custas uma casa inteiramente nova, e logo se abriram em suas paredes, de alto a baixo, grandes fendas que ameaçavam fazer ruir a casa, não havendo recurso humano nenhum capaz de impedir o desabamento da casa. O médico, cheio de confiança nos méritos do santo, pediu a seus companheiros com grande fé e devoção que lhe dessem alguma coisa que houvesse sido tocada pelas mãos de Francisco. A força de repetidas instâncias conseguiu obter uma mecha dos cabelos do santo, a qual pela tarde introduziu cuidadosamente em uma das fendas da parede, e ao levantar-se no dia seguinte observou que a fenda se fechara tão perfeitamente que não pôde extrair as próprias relíquias colocadas no dia anterior nem encontrar vestígio algum das referidas fendas. Eis como aquele que com tanto zelo se devotara aos cuidados do pobre corpo em ruína do servo de Deus preservou da ruína a sua própria casa.
12. Certa ocasião, querendo o homem de Deus transferir-se a um eremitério para se dedicar mais livremente à contemplação, e como estava enfermo, pediu a um pobre que o transportasse em seu burro. No calor do verão, o homem seguia a pé o servo de Deus montanha acima. Cansado do percurso muito longo e difícil e forçado pela sede, a um certo ponto começou a gritar ao santo: "Morro de sede se não encontrar um pouco dágua imediatamente!" No mesmo instante, Francisco apeou do burro e prostrado de joelhos em terra, levantou as mãos ao céu, não deixando de rezar fervorosamente até conhecer que o Senhor ouvira sua oração. Concluída a oração, disse afavelmente ao homem: "Vai até aquela pedra, irmão, e ali encontrarás água fresca e abundante, que neste momento Cristo, em sua misericórdia, fez jorrar da pedra para ti". Estupenda comiseração de Deus, que com tanta facilidade se inclina aos desejos de seus servos! O homem sedento pôde beber de uma água nascida da rocha pela virtude de um santo em oração e foi um rochedo bem duro que lhe forneceu com que matar a sede. Não existia nenhum fio dágua anteriormente nesse local. E por mais que se procurasse, não se encontrou resquício sequer de água naquele lugar.
13. Mais adiante, no devido lugar, contaremos como Cristo, pelos méritos de seu pobre, multiplicou os víveres em pleno mar. Agora recordemos apenas esta aventura. Com um pouco de alimento recebido como esmola, salvou durante vários dias da morte toda a tripulação que morria de fome. Não podemos deixar de ressaltar aqui que o servo do Deus onipotente, semelhante a Moisés, ao fazer jorrar água do rochedo, também se parece com Eliseu, ao multiplicar os víveres.
Lancem, pois, os pobres para longe de si qualquer desconfiança, porque se a pobreza de Francisco foi bastante rica para fornecer a seus benfeitores o que lhes faltava: alimento, bebida, moradia, quando o dinheiro, a técnica e a natureza pareciam impotentes, com tanto mais razão nos merecerá ela os bens que procedem da ordem habitual da divina Providência. Se a aridez da pedra, à voz de um pobre, produziu uma abundante bebida a um infeliz que morria de sede, nenhuma criatura com toda certeza negará os próprios serviços àqueles que abandonaram tudo para escolherem o Criador de todas as coisas.
CAPITULO 8
Seu sentimento de compaixão e o amor que as criaturas lhe devotavam1. A verdadeira piedade, que, na palavra do Apóstolo, é útil a todas as coisas, enchera o coração de Francisco, compenetrando-o tão intimamente, que parecia dominar totalmente a personalidade do homem de Deus. Nasciam daí a devoção que o elevava até Deus, a compaixão que fazia dele um outro Cristo, a amabilidade que o inclinava para o próximo, e uma amizade com cada uma das criaturas, que lembra nosso estado de inocência primitiva. Mas, embora atraído espontaneamente por todas as criaturas, seu coração o levava especialmente às almas resgatadas pelo sangue precioso de Cristo Jesus, e quando nelas percebia qualquer mancha de pecado, chorava sua desgraça com uma sensibilidade tão patética que as gerava todo dia, como uma mãe, em Cristo. Entende-se a veneração que tinha pelos pregadores, ministros da palavra de Deus, porque eles suscitam para seu irmão morto, para Jesus Cristo crucificado pelos pecadores, filhos que seu zelo e atividade convertem e dirigem. E dizia que esse ministério de misericórdia é muito mais agradável ao Pai de todas as misericórdias do que qualquer sacrifício, sobretudo se o faz em espírito de perfeita caridade, mais pelo exemplo do que pela palavra, mais pela oração e pelas lágrimas do que por discursos excessivos.
2. Por isso dizia que se deveria deplorar como destituído de verdadeira piedade todo pregador que na pregação procura mais a própria glória do que a salvação das almas ou que destrói com seu mau exemplo aquilo que ele edifica com a verdade de sua doutrina. Por isso afirmava que se deve preferir sempre um irmão simples e iletrado a semelhante pregador, pois aquele por sua simplicidade e santidade de vida move os outros a praticar o bem. E insistindo nesse ponto, recordava as palavras da Escritura: "A estéril deu à luz muitos filhos" (1Rs 2,5), e assim interpretava esse versículo: "A estéril é o irmão humilde e simples que não tem na Igreja de Deus o cargo de gerar filhos espirituais. Este dará à luz no dia do juízo muitos filhos, pois naquele dia o Juiz atribuirá à sua glória aqueles que ele agora converte com suas preces ocultas. Aquela que tem muitos filhos ficará estéril, porque o pregador vão e loquaz, que agora se gloria de haver gerado espiritualmente a muitos, saberá então que nenhuma parte teve em sua geração espiritual".
3. Procurava a salvação das almas com todo o ardor e com todo o zelo e dizia-se inundado de suavíssimo consolo e de um gozo inefável ao saber que, atraídos pelo odor de santidade de seus irmãos espalhados pelo mundo, muitos homens abraçavam o caminho da virtude. Ao ouvir tais coisas, exultava de alegria, cumulava das bênçãos mais copiosas, dignas do maior apreço, a todos aqueles irmãos que com a palavra ou o exemplo convertiam a Cristo os pecadores. Pelo contrário, todos aqueles que com sua depravada vida manchavam a honra de sua religião sagrada incorriam no terrível anátema de sua maldição: "Por ti, altíssimo Senhor, e por toda a corte celestial, e por mim, pequenino servo vosso, sejam malditos aqueles que com seu mau exemplo confundem e destroem o que edificastes e nunca cessais de edificar pelos santos irmãos desta Ordem" 17. Enchia-se muitas vezes de tanta tristeza ao ver escandalizados os pequeninos, que julgava perder a vida, não fossem as forças que lhe dava a divina clemência. Certo dia, perturbado por causa dos maus exemplos, orava fervorosamente ao Pai das misericórdias em favor de seus filhos, e ouviu do Senhor estas palavras: "Por que te perturbas, vil homenzinho? Porventura o poder que te dei sobre minha Ordem te teria feito esquecer que sou eu o seu principal protetor? Se eu te escolhi a ti, homem simples, é para que tudo aquilo que realizarei em ti não seja atribuído ao trabalho do homem mas à graça do alto. Eu te chamei, te guardarei e alimentarei; se alguns irmãos caírem, levantarei outros em seu lugar, e, se preciso, farei nascer outros mais; e por maiores que sejam as perseguições suscitadas contra esta pobre religião, ela permanecerá sempre firme com meu auxílio".
4. Fugia da maledicência como se foge da picada de uma serpente ou de uma epidemia horrível, por ser mortal para a piedade e a graça, objeto de abominação de Deus infinitamente bom, dizia ele, porque o maledicente se alimenta do sangue das almas que ele matou com a espada de sua língua. Ouviu certo dia um irmão denegrindo o bom nome de um outro; voltou-se para o seu vigário e lhe disse: "Apressa-te, faze uma investigação minuciosa. E se verificares que o irmão acusado é inocente, impõe ao acusador um castigo exemplar!" Na sua opinião, aquele que havia despojado um irmão de sua reputação devia ser despojado do hábito com proibição de levantar os olhos para o céu, enquanto não houvesse procurado, segundo suas possibilidades, restituir aquilo que havia roubado. "E a maledicência é um pecado maior que um roubo, dizia ele, pois a lei de Cristo que cumprimos por amor nos obriga a desejar a salvação das almas mais do que a do corpo".
5. Com grande ternura se compadecia Francisco de todos os que se encontravam aflitos por causa de alguma enfermidade corporal. E quando notava em alguém indigência ou necessidade, na suave piedade do coração, a considerava como sofrimento do próprio Cristo. A caridade de Cristo, infusa em sua alma, havia multiplicado a bondade inata. Seu coração se comovia de piedade à vista dos pobres e doentes. E quando não podia socorrê-los materialmente, procurava ao menos mostrar-lhes seu amor. Ouviu um dia um irmão maltratar um mendigo importuno; amante que era de todos os pobres, ordenou ao irmão: "Tira o hábito, lança-te aos pés deste pobre, reconhece publicamente tua falta, pede-lhe perdão e que reze por ti!" O outro obedeceu humildemente, e o Pai lhe disse com bondade: "Quando vês um pobre, irmão, é a imagem do Senhor e de sua pobre Mãe que tens diante dos olhos. De igual modo deves considerar nos enfermos as misérias a que Cristo quis se sujeitar por nosso amor". Em todos os pobres ele, que era pobre e de espírito cristão, via a imagem de Cristo. Por isso, quando os encontrava, dava-lhes generosamente tudo quanto havia recebido de esmola, ainda que necessário para viver. Estava convencido de que devia restituir-lhes o que era deles. E voltando um dia de Sena, encontrou um pobre; ele mesmo, por causa de sua doença, levava além do hábito um pequeno manto. Viu a miséria do pobre e não se conteve: "É preciso, disse ele ao companheiro, que devolvamos a esse homem o manto que lhe pertence. Nós o recebemos emprestado até encontrar uma pessoa mais pobre que nós". Mas o companheiro sabia os cuidados que exigia o estado do Pai e se opôs terminantemente a que socorresse o outro com prejuízo próprio. Mas ele disse: "Minha convicção é que o Grande Esmoler me repreenderia como um roubo não dar a alguém que fosse mais necessitado aquilo que eu levo". Aliás, ao receber qualquer coisa em vista de sua saúde, costumava pedir licença ao doador para dar de presente a oferta, caso encontrasse quem fosse mais pobre do que ele. Distribuía tudo o que recebia: mantos, túnicas, livros, toalhas de altar ou tapetes, tudo o que servisse de esmola aos pobres, para cumprir o dever da caridade. Muitas vezes ao se encontrar com pobres carregando pesadas cargas, punha-as sobre seus próprios ombros para auxiliá-los.
6. Acostumado a voltar continuamente à origem primeira de todas as coisas, concebeu por elas todas uma amizade extraordinária e chamava irmãos e irmãs as criaturas, mesmo as menores, pois sabia que elas e ele procediam do mesmo e único princípio. Contudo, tratava com muito maior ternura e mais suavemente as criaturas que representam de certo modo natural a piedosa mansidão de Cristo. As vezes resgatava cordeiros levados ao matadouro, em lembrança do Cordeiro mansíssimo que desejou ser levado à morte para resgatar os pecadores. Uma noite em que se hospedara no mosteiro de São Verecundo, na diocese de Gúbio, uma ovelha deu à luz um cordeiro. Mas uma porca impiedosa se encontrava no estábulo; sem comiseração pelo inocente, matou-o barbaramente e o devorou. Ao saber disso, o Pai compassivo, muito comovido e recordando-se do Cordeiro sem mancha, chorou diante de todos a morte do cordeirinho: "Ai de mim, irmão cordeirinho, animal inocente, que és para os homens a imagem da mansidão de Cristo! Maldita seja a ímpia que te causou a morte; que nenhum homem nem animal algum se alimente de suas carnes!" Coisa admirável! No mesmo instante começou a porca a ficar doente, e depois de haver sofrido durante três dias dores horríveis, pagou enfim com a morte aquela crueldade. Lançada para fora da cerca do mosteiro, esteve ali seca como uma tábua por muito tempo, de modo que não serviu de alimento para nenhum faminto. Considere aqui a impiedade humana com que castigo tão atroz será castigada no fim dos tempos, se com morte tão horrenda se castigou a ferocidade de um irracional; e advirta igualmente a piedade dos fiéis quão admirável foi no servo de Deus a virtude da misericórdia e a ternura para com todos, que mereceu de certo modo ser louvada pelos próprios animais.
7. Viajando certa vez pelos arredores de Sena, encontrou nos campos um grande rebanho de ovelhas. Mal as saudou, afavelmente, e todas pararam de pastar e correram para ele, levantando a cabeça e fixando-o com os olhos. Fez-lhes tanta festa, que os pastores e irmãos ficaram maravilhados de as ver tão contentes, desde os cordeiros até aos carneiros. Em Santa Maria da Porciúncula, certo dia ofereceram ao homem de Deus uma ovelha que ele de boa mente aceitou, tanto ele amava a inocência e simplicidade que esses animais manifestam espontaneamente. O santo lhe fazia suas recomendações: estar atenta aos louvores divinos, não causar dano aos irmãos por menor que fosse... E ela, sensível à afeição do homem de Deus, fazia o que podia para se conformar. Quando ouvia o canto dos irmãos no coro, também entrava na igreja, dobrava os joelhos sem que ninguém lhe tivesse ensinado e. como saudação, dava alguns vagidos diante do altar da Virgem, Mãe do Cordeiro. Além disso, quando na celebração da missa chegava o momento em que o sacerdote levantava o sacratíssimo corpo de Cristo, a ovelhinha dobrava os joelhos em atitude reverente como se desse modo quisesse censurar a irreverência dos maus cristãos e convidar aos devotos à maior veneração de tão grande sacramento. Por um certo tempo em que se encontrava na cidade de Roma, teve também sob sua guarda, em recordação do Cordeiro sem mancha, um cordeirinho, o qual entregou à nobre e devota matrona Jacoba de Settesoli. O cordeirinho, como se estivesse instruído pelo santo nas coisas espirituais, era um companheiro inseparável dessa senhora, seguia-a à igreja, aí ficava com ela e com ela voltava para casa. E se acaso a senhora não se mostrava tão diligente em levantar-se pela manhã, o cordeirinho acordava-a com seus balidos e golpeava-a com seus pequenos chifres, exortando-a com tais gestos a apressar-se a ir à igreja. Por esse motivo, aquela senhora guardava com admiração e amor o cordeirinho, discípulo de Francisco, que era então já mestre na vida devota.
8. Outra ocasião, em Greccio, ofereceram ao homem de Deus uma lebrezinha viva que, posta no chão e livre para fugir para onde queria, correu para o regaço do bondoso Pai quando este a chamou. Francisco acariciou-a com ternura e afeto, demonstrando-lhe um amor quase materno, depois admoestou-a gentilmente que não mais se deixasse apanhar e permitiu-lhe ir-se embora em liberdade. Em vão, porém, a colocaram em terra para que fugisse. Ela voltava ao Pai como se por um instinto secreto percebesse a piedade de seu coração. Por fim, por ordem do Pai, os irmãos a levaram a lugares mais distantes e mais seguros.
Fato semelhante ocorreu numa ilha do lago de Perusa. Haviam capturado uma lebre e a ofereceram ao homem de Deus. Ela se refugiava com muita confiança nas mãos e no regaço amoroso do homem de Deus, embora fugisse de todas as outras pessoas.
Ao atravessar o lago de Rieti, a fim de alcançar o eremitério de Greccio, certo pescador, por devoção, lhe ofereceu uma ave aquática. Tomou-a ele nas mãos abertas e convidou-a a voar embora. Mas vendo o santo que ela não queria ir embora, levantando os olhos para o céu, ficou imerso em longa oração. Depois de muito tempo, voltando a si, como se fosse de um outro mundo, voltou a convidar o pássaro a voar embora e louvar o Senhor. E tendo recebido a permissão e a bênção, expressando sua alegria com os movimentos do corpo, partiu. Ainda no mesmo lago, ofereceram-lhe um peixe magnífico e ainda vivo; chamou-o de "irmão", como sempre fazia, e o colocou de volta na água perto do barco. Mas o peixe continuou a agitar-se alegremente na água diante do homem de Deus, como se estivesse sob o influxo de seu amor, e só se afastou do barco depois de receber a permissão e a bênção do santo.
9. Atravessando certo dia as lagunas de Veneza em companhia de um irmão, encontrou um grande bando de passarinhos nos salgueiros cantando animadamente. Diante desse espetáculo, disse a seu companheiro: "Nossos irmãos pássaros estão louvando o Criador; associemo-nos a eles para também nós cantarmos nossas horas canônicas e os louvores do Senhor!" Entraram para o meio dos pássaros e nenhum se espantou. Mas o gorjeio ensurdecedor impedia os irmãos de escutar um ao outro na recitação dos Salmos. Então o santo se voltou para eles e lhes disse: "Irmãos passarinhos, parai de cantar até que tenhamos prestado a Deus os louvores que lhe são devidos". Eles se calaram imediatamente e ficaram assim até ao fim do ofício e das laudes que levam bastante tempo. Em seguida, o santo lhes permitiu cantar e eles reencetaram o gorjeio habitual.
Uma cigarra, em Santa Maria da Porciúncula, gostava de morar numa figueira perto da cela do homem de Deus e seu canto era um estímulo contínuo ao louvor de Deus, uma vez que ele havia aprendido a admirar a magnificência do Criador, mesmo nas coisas pequenas. Certo dia, o servo do Senhor chamou a cigarra que, instruída pelo céu, voou para sua mão, e disse-lhe Francisco: "Canta, irmã cigarra, louva com teu júbilo a Deus Criador". E ela, obedecendo, começou logo a cantar e só parou para voltar à sua árvore, por ordem do Pai. Aí ficou durante oito dias: ia até ao santo, cantava e voltava, conforme lhe ordenava ele. Por fim o homem de Deus disse aos companheiros: "Vamos despedir nossa irmã cigarra: ela nos alegrou bastante com seu canto e nos incentivou durante oito dias a louvar a Deus". Uma vez livre, ela partiu e não mais voltou, como se receasse desobedecer ainda que só levemente.
10. O santo estava doente em Sena, e um nobre lhe enviou um faisão vivo que ele acabava de capturar. Assim que a ave o viu e ouviu, de tal maneira se afeiçoou a ele, que não mais queria se separar dele. Por diversas vezes transportada para longe do convento, numa vinha, para que fosse embora se assim desejasse, voltava de novo em rápido vôo ao Pai como se houvesse sido sempre alimentada por sua mão. Entregue mais tarde a um homem que vinha freqüentemente visitar o santo por devoção, mas entristecida de ficar assim distante do Pai amoroso, não quis se alimentar. Devolvida ao servo de Deus, ao vê-lo começou a se agitar alegremente e comeu então com avidez. Acabava o santo de voltar à ermida do Alverne certo dia para jejuar uma quaresma em honra de São Miguel Arcanjo, quando passarinhos de toda espécie vieram voar em volta de sua cela, como para lhe mostrar por seus pios e revoadas a alegria por sua vinda, seduzi-lo e forçá-lo a permanecer. Ao ver tudo isso, disse ao companheiro: "Estou notando, irmão, que é vontade de Deus permanecermos aqui por um momento, enquanto nossos irmãos passarinhos parecem encantados com nossa chegada".
Durante essa estadia aí, um falcão que morava por aquelas partes fez com ele um pacto de amizade: à noite, chegando a hora em que o santo tinha por hábito levantar-se para recitar o ofício divino, ele o antecipava sempre com seu canto. Isso era sumamente grato ao santo, pois a constante solicitude que o falcão tinha com ele fazia expulsar toda tentação de preguiça. Mas quando o servo de Deus piorava em suas enfermidades, o falcão se mostrava muito atento e condescendente, não o despertando a horas impróprias da noite. Pelo contrário, como estava instruído pelo próprio Deus, ao amanhecer, prorrompia em leves e suaves ruídos, à semelhança de quem toca um sino. A alegria de toda aquela variedade de aves bem como o canto do falcão eram seguramente o presságio divino da elevação que nesse lugar, pouco depois, a aparição do serafim devia conferir ao cantor e ao adorador de Deus arrebatado nas asas da contemplação.
11. Durante uma estadia no eremitério de Greccio, os habitantes da região sofriam sucessivos prejuízos: lobos ferozes, não contentes de arrebatar o gado, atacavam também os homens; o granizo todos os anos devastava as plantações e as vinhas. Vendo-os tão aflitos, o arauto do santo Evangelho disse-lhes um dia num sermão: "Para honra e louvor de Deus onipotente, prometo-vos que os males serão banidos para longe e que Deus, contemplando-vos com amor, vos enriquecerá de bens temporais se, dando crédito às minhas palavras, vos arrependerdes mediante prévia e sincera confissão de vossas culpas, produzindo frutos dignos de penitência. Ao mesmo tempo, porém, vos anuncio que se, manifestando-vos ingratos aos benefícios que haveis recebido do céu, voltardes de novo ao vômito da culpa, se renovará a peste, serão muito maiores as penas que haveis de sofrer e a ira do Senhor vos castigará com rigor maior". Ao ouvir essas terríveis advertências do zeloso pregador, os moradores de Greccio se entregaram imediatamente aos rigores de uma saudável penitência. Logo cessaram as calamidades, desapareceram os perigos e nem os lobos nem o granizo jamais voltaram a lhes causar algum mal; pelo contrário, se alguma vez o granizo destruía os campos vizinhos, ao aproximar-se dos limites de Greccio, ou desaparecia por completo ou tomava outro rumo. Vê-se, pois, que o próprio granizo e os lobos observaram fielmente o pacto do servo de Deus e não mais atentaram contra os bens e propriedades dos homens, convertidos realmente a Deus, ao menos enquanto, conforme as promessas feitas, não violaram os mandamentos do Senhor. Devemos, pois, ter em alta consideração a piedade do bem-aventurado Pai São Francisco, tão admirável e verdadeiramente celestial, que abrandou a ferocidade dos animais ferozes, domesticou os animais silvestres, ensinou aos mansos e reduziu à sua primitiva obediência a natureza animal que por causa do pecado se rebelara contra o homem. Esta é a verdadeira piedade que, tornando amigas todas as criaturas, "é útil para tudo, pois tem a seu favor as promessas da vida presente" (1Tm 4,8) e da futura.
CAPITULO 9
Fervor de sua caridade e desejo do martírio1. Quem poderá exprimir a caridade ardente que abrasava o coração de Francisco, o amigo do Esposo? Parecia inteiramente devorado, como um carvão ardente, pelas chamas do amor de Deus. Logo que ouvia falar do amor do Senhor, ele se empolgava, ficava comovido e inflamado, como se a voz que ressoava externamente fosse um arco a fazer vibrar internamente as cordas de seu coração. Segundo ele, era uma prodigalidade digna de um príncipe uma tal compensação pelas esmolas recebidas e prova de loucura total preferir o dinheiro ao, amor de Deus, pois a inestimável moeda do amor divino é a única que nos permite resgatar o reino dos céus. Eis por que é necessário amar muito o amor daquele que muito nos amou. Impelido dessa forma por todas as coisas ao amor de Deus, ele se. rejubilava em todas as obras saídas das mãos do Criador, e graças a esse espetáculo que constituía sua alegria, remontava até Aquele que é a causa e razão vivificante do universo. Numa coisa bela sabia contemplar o Belíssimo e, seguindo os traços impressos nas criaturas, por toda parte seguia o Dileto. De todas as coisas fazia uma escada para subir até Aquele que é todo encanto. Em cada uma das criaturas, como derivações, percebia ele, com extraordinária piedade, a fonte única da bondade de Deus e. como a harmonia preestabelecida por Deus entre as propriedades naturais dos corpos e suas interações lhe parecia uma música celestial, exortava todas as criaturas, como o profeta Davi, ao louvor do Senhor.
2. A recordação de Jesus crucificado permanecia constantemente em sua alma, como a bolsa de mirra sobre o coração da esposa do Cântico dos Cânticos, e na veemência de seu amor extático ele desejava ser inteiramente transformado nesse Cristo Crucificado. Uma de suas devoções particulares era, durante os quarenta dias que seguem a Epifania, que é o tempo do retiro de Cristo no deserto, procurar a solidão e. oculto em sua cela, dedicar-se ininterruptamente, observando um jejum rigorosíssimo, à oração e ao louvor a Deus. Nutria por Cristo um amor tão ardente, e seu Bem-Amado correspondia-lhe com uma afeição tão familiar, que o servo de Deus julgava ter diante dos olhos a presença quase contínua do Salvador; ele mesmo por diversas vezes o disse confidencialmente a seus irmãos. O sacramento do Corpo do Senhor o inflamava de amor até ao fundo do coração: admirava, espantado, misericórdia tão amável e amor tão misericordioso. Comungava muitas vezes e com tanta devoção, que comunicava aos outros sua devoção quando, todo inebriado do Espírito e inteiramente absorto em saborear o Cordeiro imaculado, era arrebatado em freqüentes êxtases.
3. Seu amor à Mãe do Senhor Jesus era realmente indizível, pois nascia em seu coração ao considerar que ela havia convertido em irmão nosso ao próprio Rei e Senhor da glória e que por ela havíamos merecido alcançar a divina misericórdia. Em Maria, depois de Cristo, depositava toda a sua confiança; por isso a constituiu advogada sua e de seus irmãos, e em sua honra jejuava devotamente desde a festa dos apóstolos São Pedro e São Paulo até o dia da Assunção. Um vínculo de amor indissolúvel unia-o aos anjos cujo maravilhoso ardor o punha em êxtase diante de Deus e inflamava as almas dos eleitos; por devoção aos anjos, celebrava uma quaresma de jejuns e orações durante os quarenta dias que seguem a Assunção da Santíssima Virgem Maria. São Miguel sobretudo, a quem cabe o papel de introduzir as almas no Paraíso, era objeto de uma devoção especial em razão do desejo que tinha o santo de salvar a todos os homens.
Os santos e a memória deles eram para ele como carvões ardentes, que reavivavam nele o incêndio deificante. Venerava com devoção ferventíssima todos os apóstolos e especialmente Pedro e Paulo, por causa da ardente caridade que tinham a Cristo. Em honra deles e por amor deles oferecia ao Senhor o jejum de uma quaresma especial.
Nada mais possuía o pobre de Cristo a não ser duas pequenas moedas: seu corpo e sua alma, que ele podia distribuir com caridade liberal. Mas oferecia continuamente a Deus seu corpo e sua alma por amor a Cristo, pois quase a cada instante imolava o corpo com o rigor do jejum e a alma com a chama do desejo: holocausto, seu corpo, imolado fora, no átrio do templo; incenso, sua alma, exalado dentro do templo.
4. Sua devoção fervorosa e sua caridade ardente de tal maneira o elevavam às coisas divinas, que os efeitos daquelas virtudes se derramavam copiosamente nos outros homens que lhe eram iguais em natureza ou em graça. Os sentimentos bem naturais de seu coração eram suficientes para torná-lo fraterno diante de toda criatura. Não admira que seu amor a Cristo o tenha transformado ainda mais em irmão daqueles que levam a imagem do Criador e são resgatados por seu sangue. Só se considerava amigo de Cristo empenhando-se pelas almas resgatadas por ele. E afirmava que nada se deveria preferir à salvação das almas, apresentando para isso como prova decisiva o fato de que o Unigênito de Deus dignara-se morrer por elas na árvore santa da cruz. É o que explica a veemência com que ele orava, a atividade extraordinária de suas viagens de pregação e seus excessos em se tratando de dar o exemplo. Quando lhe censuravam as austeridades exageradas, respondia que tinha sido dado aos outros como exemplo. Embora sua carne inocente, sujeita voluntariamente ao espírito, não merecesse castigo algum por suas faltas pessoais, contudo, a fim de dar o exemplo, impunha-lhe sempre novas penas e trabalhos, "caminhando pelos outros por duras sendas" (SL 16,4). "Pois, dizia, se eu falasse a língua dos anjos e dos homens e não tivesse em mim a caridade (1Cor 13,1-3) nem desse àqueles que estão à minha volta o exemplo da virtude, de nada me adiantaria, muito menos aos outros".
5. No fervor de sua caridade sentiu-se inspirado a imitar o triunfo glorioso dos mártires nos quais o fogo da caridade não se extinguia nem se quebrantava a coragem. Inflamado por esse perfeito amor que "expulsa o temor" (1Jo 4,13), suspirava por se oferecer como hóstia viva a Deus imolada pela espada do martírio; dessa forma ele passaria a Cristo a morte que ele aceitara por nós e levaria os homens ao amor de Deus. No sexto ano depois de sua conversão, ardendo de desejo de martírio, resolveu ir à Síria pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e a outros infiéis. Mas o navio que o conduzia foi arrastado pelos ventos contrários para as costas da Eslavônia. Aí ficou algum tempo sem encontrar navio com destino ao Oriente. Entendeu que lhe era recusado o que desejava. E como alguns marinheiros se aprestavam a ir a Ancona, pediu para embarcar por amor de Deus. Mas como não tivessem com que pagar, os marinheiros nem quiseram ouvi-lo e o homem de Deus, entregando-se inteiramente nas mãos de Deus, introduziu-se sub-repticiamente no navio com seu companheiro. Entretanto, um homem certamente enviado por Deus para socorrer o pobre Francisco chegou trazendo víveres, chamou um dos marujos, homem temente a Deus, e lhe disse: "Guarda com todo cuidado estas provisões para os pobres irmãos que estão escondidos no navio; tem a bondade de lhes entregar de minha parte quando tiverem necessidade". Os ventos sopravam com tal violência que os dias passaram sem que fosse possível abicar em parte alguma; os marujos estavam no fim das provisões; sobravam apenas as esmolas graciosamente oferecidas pelo céu ao pobre Francisco. Eram muito modestas, mas o poder de Deus as multiplicou de tal forma e em tanta quantidade que, apesar do atraso ocasionado pela tempestade que continuava a castigar duramente, elas satisfizeram totalmente às necessidades de todos até Ancona. E os marujos, vendo afastado o perigo de morte de que os livrara o servo de Deus, deram graças ao Altíssimo onipotente, que sempre se mostra admirável e amável nos seus amigos e servos. E com muito acerto, pois haviam enfrentado de perto os tremendos perigos do mar e visto as admiráveis obras de Deus nas águas profundas.
6. Afastou-se do mar e começou a peregrinar pela terra espalhando a semente da salvação e colhendo uma messe abundante de bons frutos. Mas o fruto que mais o atraía era o martírio, o mérito de morrer por Cristo; desejava a morte por Cristo mais do que os méritos de uma vida virtuosa, e dirigiu-se a Marrocos para anunciar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e seu povo e tentar assim conquistar a suspirada palma do martírio. O desejo que o levava a tais gestos era tão poderoso que, apesar de sua saúde precária, ia sempre à frente de seu companheiro de caminhada e, na pressa de realizar seu plano, parecia voar, inebriado do Espírito Santo. Havia já chegado à Espanha, mas Deus, que o queria para outras missões, dispusera de modo diferente os acontecimentos: uma doença bastante grave o prostrou, impedindo-o de realizar seu desejo. Não obstante a certeza do Lucro que a morte representava para ele, o homem de Deus compreendeu ser necessário viver ainda pela família que gerara. Por isso voltou para cuidar das ovelhas entregues à sua guarda.
7. Mas o ardor de sua caridade o impelia ao martírio. Pela terceira vez tentou ele partir aos países infiéis para difundir com o derramamento de seu sangue a fé na Trindade. Aos treze anos de sua conversão, foi às regiões da Síria, enfrentando corajosamente muitos perigos a fim de comparecer diante do Sultão da Babilônia, pessoalmente. Uma guerra implacável castigava cristãos e sarracenos. Os dois exércitos encontravam-se acampados muito próximos, separados apenas por uma estreita faixa de terra, que ninguém podia atravessar sem perigo de morte. O Sultão havia publicado um edito cruel: todos que lhe trouxessem a cabeça de um cristão receberiam uma grande quantidade de ouro. Mas o intrépido soldado de Cristo Francisco, julgando chegada a ocasião de realizar seus anseios, resolveu apresentar-se diante do Sultão, sem temer a morte, mas antes desejoso de enfrentá-la. Confortado pelo Senhor, depois de fervorosa oração, repetia com o profeta: "Ainda que ande em meio às trevas da morte, não temerei mal algum, porque estás comigo" (Sl 22,4).
8. Tomou, pois, consigo um companheiro chamado Iluminado, homem de inteligência e coragem 22. E havendo começado a caminhar, saíram-lhes ao encontro duas mansas ovelhinhas, à vista das quais, cheio de alegria, disse a seu companheiro: "Confiemos no Senhor, irmão, porque em nós se realizam hoje as palavras do Evangelho: Eis que vos envio como ovelhas entre lobos" (Mt 10,16). E tendo-se adiantado, encontraram as sentinelas sarracenas que, quais lobos vorazes contra ovelhas, capturaram os servos de Deus e, ameaçando-os de morte, maltrataram-nos com crueldade e desprezo, os cobriram de injúrias e violências e os algemaram. Por fim, depois, de havê-los afligido e atormentado de mil maneiras, a divina Providência fez com que os levassem à presença do Sultão, realizando-se desse modo as fervorosas aspirações de Francisco. Colocados em sua presença, perguntou-lhes aquele bárbaro príncipe quem os havia enviado, a que vinham e como tinham conseguido chegar a seu acampamento. Ao que respondeu o servo de Deus com intrepidez que sua missão não procedia de nenhum homem, mas de Deus altíssimo que o enviava para ensinar a ele e a todo o seu povo os caminhos da salvação e para pregar-lhes as verdades de vida contidas no Evangelho. Com tanta constância e clareza em sua mente, com tanta virtude na expressão e com tão inflamado zelo pregou ao Sultão a existência de um só Deus em três pessoas e a de um Jesus Cristo, Salvador de todos os homens, que claramente se viu realizar-se em Francisco as palavras do Evangelho: "Porei em vossos lábios palavras tão cheias de sabedoria, que a elas não poderá resistir nenhum de vossos adversários" (Lc 21,15). Admirado o Sultão ao ver o espírito e o fervor do seráfico Pai, não apenas o ouvia com grande satisfação, mas até insistiu com repetidas súplicas que permanecesse algum tempo com ele. Mas o servo de Deus, iluminado pela força do alto, logo lhe respondeu dizendo: "Se me prometeres que tu e os teus vos convertereis a Cristo, permanecerei de muito bom grado entre vós. Mas se duvidas em abandonar a lei impura de Maomé pela fé santíssima de Cristo, ordena imediatamente que se faça uma grande fogueira e teus sacerdotes e eu nos lançaremos ao fogo, a ver se deste modo compreendes a necessidade de abraçar a fé sagrada que te anuncio". A essa proposta, replicou sem demora o Sultão: "Não creio que haja entre meus sacerdotes um só que, para defender sua doutrina, se atreva a lançar-se ao fogo nem esteja disposto a sofrer o menor tormento". E sobrava-lhe razão para dizer isso, pois vira que um de seus falsos sacerdotes, ancião e protervo sequaz de sua lei, desaparecera, mal ouviu as primeiras palavras do santo. Este acrescentou, dirigindo-se ao Sultão: "Se em teu nome e em nome de teu povo me prometes abraçar a religião de Cristo, com a condição que eu saia ileso da fogueira, estou disposto a entrar eu sozinho nela. Se o fogo me consumir entre suas chamas, atribua-se isso a meus pecados; mas se, como espero, a virtude divina me conservar ileso, reconhecereis a Cristo, virtude e sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,24) e único Salvador de todos os homens". A essa proposta respondeu o Sultão que não podia aceitar esse contrato aleatório, pois temia uma sublevação popular. Mas ofereceu-lhe numerosos e ricos presentes que o homem de Deus desprezou como lama. Não era das riquezas do mundo que ele estava ávido, mas da salvação das almas. O Sultão ficou ainda mais admirado ao verificar um desprezo tão grande pelos bens deste mundo. Não obstante sua recusa ou talvez seu receio de passar à fé cristã, rogou ao servo de Deus que levasse todos aqueles presentes e os distribuísse aos cristãos pobres e às igrejas. Mas o santo que tinha horror de carregar dinheiro e não via na alma do Sultão raízes profundas da fé verdadeira, recusou-se terminantemente a aceitar sua oferta.
9. Vendo frustradas suas ânsias de martírio e conhecendo que nada adiantava seu empenho na conversão daquele povo, resolveu Francisco, por inspiração divina, voltar aos países cristãos. E assim, por disposição da bondade divina e pelos méritos e virtude do santo, sucedeu que o amigo de Cristo procurou com todas as suas energias morrer por ele, mas não conseguiu. Desse modo não perderia o mérito do desejado martírio e ainda gozaria de vida para ser mais adiante assinalado com um singular privilégio. Aconteceu assim para que aquele fogo primeiro ardesse em seu coração e mais tarde se manifestasse em sua carne. Ó varão verdadeiramente ditoso, cuja carne, embora não tenha sucumbido sob o ferro do tirano, teve, contudo, tão perfeita semelhança com o Cordeiro morto por nosso amor! Ó varão mil vezes feliz, cuja alma, "embora não haja sucumbido debaixo da espada do carrasco, nem por isso deixou de alcançar a palma do martírio!" (cf. Breviário, Ofício de S. Martinho de Tours, ant. das Vésperas).
CAPITULO 10
Zelo na oração e poder de sua prece1. Francisco, servo de Cristo, tinha perfeita consciência que seu corpo (inacessível a qualquer paixão terrena em virtude de seu amor a Cristo) o forçava a caminhar como peregrino longe do Senhor (cf. 2Cor 5,6-8). Empenhava-se portanto por manter sempre ao menos seu espírito na presença do Senhor por uma oração ininterrupta, para não ficar sem o conforto do Bem-Amado. Pois para ele era um consolo na meditação orar e percorrer as mansões celestiais, já como cidadão dos anjos, para procurar aí, com todo o ardor de seu desejo, seu Bem-Amado do qual o separava unicamente a barreira da própria carne. A oração era também uma defesa ao se entregar à ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando no Senhor os seus cuidados. Sobre todas as coisas, dizia, deve o irmão desejar a graça da oração e incitava os seus irmãos por todas as maneiras possíveis a praticá-la zelosamente, convencido de que ninguém progride no serviço de Deus sem ela. Quer andasse ou parasse, viajando ou residindo no convento, trabalhando ou repousando, entregava-se à oração, de modo que parecia ter consagrado a ela todo seu coração e todo seu corpo, toda sua atividade e todo seu tempo.
2. Compenetrado dessas verdades, jamais desprezava por negligência qualquer visita do Espírito; mas ao contrário, sempre que elas se apresentavam, seguia-as cuidadosamente e, enquanto duravam, procurava gozar da doçura que lhe comunicavam. Por isso, se estivesse caminhando e sentisse alguns movimentos do Espírito divino, parava um momento, deixando passar os companheiros, para gozar mais intensamente da nova inspiração e não receber em vão a graça celeste (cf. 2Cor 6,1). Sua contemplação o levava muitas vezes a tão alto nível que, arrebatado e fora de si, sentia o que um homem não pode sentir e ficava alheio ao que se passava à sua volta. Aconteceu em certa ocasião que ao passar por Borgo San Sepolcro, de população numerosa, ia montado num jumentinho por causa de sua enfermidade, e as multidões saíram ao seu encontro, atraídas a ele pela fama de suas virtudes. Detido por essas turbas, que o rodeavam e comprimiam de todos os lados, a tudo parecia insensível e como se seu corpo já estivesse inanimado. Bem mais tarde, passados já o burgo e os atropelos das multidões, pararam num albergue de leprosos. E ele, como se voltasse de algum rapto de espírito, perguntava com solicitude se chegariam logo ao dito burgo. Porque sua mente ocupada na contemplação das coisas celestes não se havia apercebido nem da variedade dos lugares e dos tempos, nem da multidão de pessoas que haviam saído a seu encontro. E sabe-se pelo testemunho de seus companheiros que isso acontecia com não pouca freqüência.
3. Francisco havia percebido na, oração a presença do Espírito Santo, tanto mais propenso a derramar-se sobre os que o invocam quanto mais apartados os encontra do estrépito das coisas mundanas, Por isso, procurava lugares solitários, e durante a noite retirava-se aos bosques e igrejas abandonadas para, se entregar à oração, E aí na solidão, sustentou freqüentes lutas com os demônios, os quais, atacando-o de modo palpável, procuravam apartá-lo do exercício da oração. Mas ele, fortalecido com o auxílio do céu, quanto mais violentos os ataques do inimigo, tanto mais sólido parecia na virtude e mais fervoroso na oração, dizendo cheio de confiança a Cristo as palavras do salmista: "Defendei-me, Senhor, sob a sombra de vossas asas, da presença daqueles que me encheram de aflição" (Sl 16,8). E dirigindo-se depois aos demônios, dizia-lhes: "Espíritos malignos e perversos, atormentai-me quanto puderdes, pois nunca podereis mais do que aquilo que vos concede a mão do Senhor. De minha parte estou disposto a sofrer com sumo gozo quanto queira ele consentir-vos". E não podendo os demônios suportar tão admirável constância, fugiam cobertos de confusão.
4. E o homem de Deus, estando só e em paz, fazia ecoar os bosques com seus gemidos, regava o chão com suas lágrimas, batia no peito e como se sentisse oculto, bem abrigado na câmara mais secreta do palácio, falava a seu Senhor, respondia a seu Juiz, suplicava ao Pai, entretinha-se com o Amigo. Aí também muitas vezes seus irmãos que o observavam piamente ouviram-no interceder com repetidas súplicas diante da divina clemência em favor dos pecadores e chorar em altas vozes como se estivesse presenciando a dolorosa paixão do Senhor. Uma noite também o viram na solidão orar com os braços estendidos em forma de cruz, estando seu corpo elevado da terra e envolto numa nuvem resplandecente, como se essa luz viesse a ser testemunha da admirável claridade de que gozava então Francisco em sua mente. Aí também, como atestam provas seguras, lhe eram revelados os mistérios ocultos da sabedoria divina que ele não divulgava externamente a não ser na medida em que era impelido a isso por amor a Cristo ou pelo bem que poderiam proporcionar aos outros. Dizia a respeito: "As vezes se perde um tesouro inestimável por uma vantagem medíocre, e é culpa nossa se Aquele que no-lo deu já não se mostra tão generoso". Ao voltar de suas orações, que o transformavam quase num outro homem, punha toda atenção em comportar-se em conformidade com os demais, para não acontecer que o vento do aplauso lhe roubasse de sua alma os favores divinos que ele deixasse transparecer externamente. Ao ser surpreendido publicamente por uma visita do Senhor, ocultava-se de qualquer forma aos olhares das pessoas presentes a fim de nada desvendar dos favores do Esposo. Ao orar em companhia dos irmãos, evitava com sumo cuidado as exclamações, os gemidos, os suspiros e movimentos externos, já porque em tudo isso amava o segredo, já também porque, voltando a entrar prontamente em si mesmo, ficava absorto novamente em Deus. Costumava dizer aos da sua intimidade: "Quando um servo de Deus; entregue à oração, é visitado pelo Senhor, deve dizer-lhe: Esta consolação, Senhor, a enviastes do céu a um pecador e indigno; eu a confio a vossos amorosos cuidados, pois do contrário me consideraria um ladrão de vossos divinos tesouros. E ao terminar a oração, de tal modo se deve julgar pobre e pecador, como se nenhuma nova graça houvesse recebido".
5. Estava o homem de Deus certa vez na Porciúncula rezando, quando o bispo de Assis chegou para lhe fazer a visita habitual. Logo que entrou no convento, dirigiu-se à cela em que o seráfico Pai estava orando; chamou à porta e, ansioso por entrar imediatamente, abusando um tanto de sua confiança, introduziu a cabeça para contemplar o santo em oração; mas de repente sentiu-se dominado de estranho temor, tremendo-lhe os membros, perdeu a fala e subitamente, por disposição divina, uma força estranha o tirou dali e o arrojou a uma grande distância. Amedrontado, correu o bispo depressa para junto dos irmãos, e logo que Deus lhe restituiu a fala, confessou ingenuamente sua falta.
O abade do mosteiro de São Justino, na diocese de Perusa, encontrou certo dia o servo de Deus e assim que o viu apeou do cavalo para saudar o homem de Deus que ele venerava e conversar com ele acerca da salvação de sua alma. Após esse diálogo que lhe pareceu muito confortante, o abade se despediu pedindo-lhe humildemente que rezasse por ele. "De bom grado!", disse Francisco. Não se encontrava ainda o abade muito longe, quando Francisco, o fiel, disse a seu companheiro: "Espera-me aqui um momento, irmão, pois quero cumprir o quanto antes a promessa que agora mesmo acabo de fazer". Pôs-se a orar e no mesmo instante sentiu o abade em sua alma um ardor e uma suavidade desconhecidas até então, e caindo em êxtase ficou absorto totalmente em Deus. Assim ficou por breve espaço de tempo, e voltando a si, conheceu claramente quão eficaz era na presença de Deus a oração de Francisco. Com isso cresceu mais e mais no amor à Ordem e a muitos referiu esse fato, considerando-o um verdadeiro milagre.
6. Tinha o santo o hábito de oferecer a Deus o tributo das horas canônicas com temor e devoção. Embora sofresse dos olhos, do estômago, do baço e do fígado, não se permitia apoiar-se ao muro ou à parede ao recitar os Salmos, mas rezava as horas canônicas em posição ereta, sem capuz na cabeça, sem vagar com os olhos nem engolir as sílabas. Em viagem, à hora prevista, ele parava, e não havia temporal por mais torrencial que impedisse esse costume respeitoso. "Se damos repouso ao corpo, dizia ele, para que possa tomar um alimento que será pasto dos vermes juntamente com ele, com que paz e tranqüilidade não deve a alma tomar seu alimento de vida?" Julgava pecar gravemente se durante a oração, se deixasse levar por vãs imaginações, e quando lhe acontecia isso, não se contentava com acusar-se dessa falta no confessionário: queria também expiá-la o mais cedo possível. Esta resolução se transformara nele num reflexo habitual, de modo que esse tipo de moscas não vinha incomodá-lo, a não ser muito raramente. Ansioso por aproveitar os menores momentos de seu tempo, durante uma Quaresma confeccionou um pequeno vaso de madeira. E como um dia, ao rezar a Terça, o distraiu a idéia do vaso, cheio de fervor de espírito, queimou o vaso, dizendo: "sacrificá-lo-ei ao Senhor, já que impediu o sacrifício dos divinos louvores". Com tão fervorosa atenção rezava os Salmos, que parecia ter a Deus presente; e quando neles ocorria o nome do Senhor, enchia-se de tanta doçura que parecia lamber os lábios. Querendo além disso que se honrasse com particular reverência o nome do Senhor, não apenas quando ocorria à mente, mas também quando se ouvia pronunciar ou se encontrava escrito, rogou encarecidamente aos irmãos que recolhessem com, o máximo cuidado e colocassem em lugar decente todos os papéis que encontrassem com o nome escrito do Senhor, para evitar que fosse profanado. Ao pronunciar ou ouvir alguém pronunciar o doce nome de Jesus, enchia-se internamente de um santo júbilo e externamente parecia completamente transformado, como se seu gosto experimentasse um sabor delicioso ou ressoasse em seus ouvidos um concerto celestial.
7. Três anos antes de sua morte, resolveu celebrar com a maior solenidade possível, perto de Greccio, a memória da Natividade do Menino Jesus, a fim de aumentar a devoção dos habitantes. Mas para que ninguém pudesse tachar esta festa de ridícula novidade, pediu e obteve do Sumo Pontífice licença para celebrá-la. Francisco mandou pois preparar um presépio e trazer muito feno, juntamente com um burrinho e um boi, dispondo tudo ordenadamente; reuniram-se os irmãos chamados dos diversos lugares; acorreu o povo, ressoaram vozes de júbilo por toda parte e a multidão de luzes e archotes resplandecentes juntamente com os cânticos sonoros que brotavam dos peitos simples e piedosos transformaram aquela noite num dia claro, esplêndido e festivo. E Francisco lá estava diante do rústico presépio em êxtase, banhado de lágrimas e cheio de gozo celestial. Principiou então a missa solene, na qual Francisco, que oficiava como diácono, cantou o Evangelho. Pregou em seguida ao povo e falou-lhe do nascimento do Rei pobre a quem ele chamava com ternura e amor de Menino de Belém. Havia entre os assistentes um soldado muito piedoso e leal que, movido por seu amor a Cristo, renunciou à milícia secular e se uniu estreitamente ao servo de Deus. Chamava-se João de Greccio, que afirmou ter visto no presépio, reclinado e dormindo, um menino extremamente lindo, ao qual tomou entre seus braços o bem-aventurado Francisco, como se quisesse despertá-lo suavemente do sono. Que esta visão do piedoso soldado é totalmente certa garante-o não só a santidade de quem a teve, como também sua veracidade e a evidenciam os milagres que a seguir se realizaram; pois o exemplo de Francisco, mesmo considerado do ponto de vista humano, tem poder para excitar a fé de Cristo nos corações mais frios. E aquele feno do presépio, cuidadosamente conservado, foi remédio eficaz para curar milagrosamente os animais enfermos e como antídoto contra outras muitas classes de peste. Deus glorificava em tudo o seu servo e provava pelos milagres evidentes o poder de suas preces e de sua santidade.
CAPITULO 11
Conhecimento das Escrituras e espírito de profecia1. Pelo exercício contínuo da oração e pela prática das virtudes, havia o homem de Deus chegado a uma tal limpidez de alma que, sem haver adquirido pelo estudo o conhecimento dos santos livros, mas iluminado pelas luzes do alto, penetrava com espantosa acuidade ao mais profundo das Escrituras. Seu espírito, livre de toda mancha, penetrava os mais ocultos mistérios, e onde não podia chegar a ciência adquirida, penetrava o afeto do discípulo amante. Lia às vezes os livros santos, e tudo o que sua inteligência captava sua memória retinha tenazmente, pois o ouvido atento de sua alma percebia o que o coração amante repassava sem descanso. Alguns irmãos um dia lhe pediram, para aqueles que haviam estudado, a permissão de se dedicarem aos estudos da Sagrada Escritura. Respondeu: "Permito, contanto que não se esqueçam de se dedicar também à oração, como Cristo, que, como se lê, mais rezou do que estudou, e contanto que não estudem unicamente para saber como falar, mas para pôr em prática primeiro aquilo que tiverem aprendido e, depois de terem posto em prática, para ensinar aos outros aquilo que eles devem fazer. Quero que meus irmãos sejam discípulos do Evangelho e que seus progressos no conhecimento da verdade sejam tais, que eles cresçam ao mesmo tempo na pureza da simplicidade. Dessa forma não hão de separar aquilo que o Mestre uniu com sua palavra bendita: a simplicidade da pomba e a prudência da serpente".
2. Encontrando-se na cidade de Sena, perguntou-lhe certo religioso, doutor em teologia, acerca de algumas questões difíceis de compreender e lhe respondeu com tanta propriedade e descobriu tão claramente os mistérios da divina sabedoria 23, que aquele homem erudito muito se admirou e disse maravilhado aos circunstantes: "Na verdade, a teologia desse santo Pai, adquirida com as asas da pureza e da contemplação, é mais clara e penetrante que a vista da águia elevada sobre as nuvens; por outro lado, nossa ciência enfatuada se arrasta como um vil animal pela terra". Efetivamente, embora leigo na arte da palavra, resolvia com muita ciência as dúvidas que lhe apresentavam e lançava luzes sobre os pontos obscuros. Não admira, pois, que o santo tenha recebido de Deus a inteligência das Escrituras: toda sua atividade, imitação perfeita de Cristo, era exclusivamente a prática da verdade contida nas Escrituras. E toda a sua vida interior era total hospitalidade ao Espírito, intérprete das Escrituras, docilidade a seus ensinamentos.
3. Também brilhava nele o espírito de profecia, de modo que previa claramente as coisas futuras, penetrava os mais íntimos segredos do coração, via as coisas ausentes como se acontecessem diante de si e não poucas vezes se fazia presente de modo maravilhoso aos que se achavam muito distantes do lugar em que ele se encontrava. Quando o exército cristão estava cercando Damieta, o homem de Deus já se achava munido não de armas mas da fé. Chegou o dia da batalha em que os cristãos haviam decidido atacar a cidade. Ao saber dessa resolução, ficou muito contrariado e disse ao companheiro: "O Senhor me mostrou que se os cristãos fizerem hoje o assalto à cidade, não se sairão bem; mas se eu disser tal coisa, hão de me considerar um louco, e se me calar, guardarei remorsos para sempre. Que te parece melhor?" Respondeu o companheiro: "Irmão, não te preocupes com o parecer dos homens; não é de hoje que te consideram um louco. Livra tua consciência desse encargo e tem mais temor de Deus do que dos homens". A essas palavras o arauto de Cristo, cheio de coragem, enfrentou os cruzados e, preocupado com salvá-los do perigo, tentou impedir o ataque, anunciando a derrota. Os soldados desprezaram o vaticínio, endureceram o coração e não quiseram desistir da empresa. Avistaram-se os exércitos, travaram a batalha e as tropas cristãs se viram obrigadas a bater em vergonhosa retirada, sendo para elas a luta não um triunfo, mas uma derrota completa. Com tão tremenda desgraça ficou muito reduzido o exército cristão, pois entre mortos e prisioneiros ficaram fora de combate cerca de seis mil soldados. Uma lição ficou bem patente, clara e imperativa: a sabedoria de um pobre não se trata com desprezo, pois a alma do justo costuma dizer a verdade algumas vezes bem melhor do que sete sentinelas postos no alto como atalaias" (Eclo 37,18).
4. Em outra ocasião, após voltar dos países de além- mar, veio a Celano pregar e um cavaleiro que lhe tinha muita devoção convidou-o à sua mesa, com muita insistência. Aceitou o convite e toda a família ficou muito contente com a chegada de seus hóspedes, os pobres. Antes de sentar-se à mesa, o santo, como de costume, rezou e louvou a Deus, de pé, olhos voltados para o céu, mas quando terminou, chamou à parte aquele cavaleiro generoso e lhe disse: "Irmão hóspede, eis-me aqui vencido por teus rogos: entrei em tua casa para comer; agora, porém, escuta e põe logo em prática meus conselhos, porque não aqui mas em outro local muito em breve hás de comer. Faze portanto agora uma boa confissão de teus pecados, acompanhada de uma verdadeira dor de tuas culpas e não deixes de manifestar tudo o que for matéria do sacramento. Deves saber que o Senhor te recompensará hoje mesmo a devoção com que convidaste e recebeste a seus pobres". O homem obedeceu imediatamente a estas palavras do santo, confessou todos os seus pecados ao irmão que o acompanhava e após "haver posto ordem em sua casa", estava preparado da melhor forma possível a receber a morte. Enfim, sentaram-se todos à mesa e os convivas começaram a comer, quando, de repente, o cavaleiro morreu, levado por uma morte repentina, como havia predito o homem de Deus. Tão generosa hospitalidade lhe merecera a recompensa prometida pelo Verbo que é a Verdade: "Aquele que recebe um profeta receberá uma recompensa de profeta" (cf. Mt 10,41). A predição do santo lhe valeu a preparação para uma morte súbita 24, e fortalecido com as armas da penitência, conseguiu escapar à condenação eterna e entrar na pátria celeste.
5. No tempo em que o santo jazia doente em Rieti, trouxeram-lhe estendido sobre um leito um cônego de nome Gedeão, homem sensual e mundano, atingido de grave doença. O cônego pedia-lhe chorando, juntamente com os presentes, que o abençoasse com o sinal-da-cruz. Mas o santo replicou: "Como poderei assinalar-te com a cruz, se até agora viveste segundo os instintos da carne, sem temer os juízos de Deus? Em vista das orações e devoção dos que intercedem por ti, marcar-te-ei com o sinal-da-cruz, em nome do Senhor. Mas sabe que te acontecerão coisas bem piores se voltares ao vômito depois de curado, pois os ingratos caem num estado pior que o primeiro!" Traçou o sinal-da-cruz sobre ele, e o homem que jazia paralítico levantou-se muito contente, prorrompendo em louvores ao Senhor, e exclamou como fora de si: "Já estou curado!" Ouviram-se então em seus ossos uns estalidos semelhantes aos que se percebem quando se partem com a mão gravetos secos. Mas por desgraça, não levou muito tempo, esqueceu-se de Deus e entregou-se de novo às desordens da sensualidade. Uma noite, havendo ceado na casa de um outro cônego, aí ficara para passar a noite, quando o telhado desabou. Todos escaparam à morte, menos o infeliz que ficou sob os escombros. Por um justo juízo de Deus, o último castigo desse homem foi pior que o primeiro, em razão de seu duplo pecado de ingratidão e de desprezo para com Deus. É preciso mostrar-se sempre reconhecido pelos benefícios recebidos. A recaída no vício é uma dupla ofensa.
Outra vez, uma mulher nobre e muito piedosa aproximou-se do santo, contou-lhe da dor que a oprimia e pediu-lhe o remédio acertado. Tinha um marido extremamente cruel que a privava de tudo quanto pertencia ao serviço de Deus; e entristecida por tal desgraça, pedia instantemente a Francisco que fizesse uma oração por ele para conseguir que Deus, com sua amorosa clemência, abrandasse seu coração endurecido. Ao ouvir essas queixas da mulher, disse-lhe o santo: "Vai em paz, filha, e fica certa de que muito em breve receberás de teu marido um grande consolo". E logo acrescentou: "Dize a teu marido, da parte de Deus e de minha parte, que agora é tempo de misericórdia e de perdão, mas que depois virá o tempo da justiça rigorosa". Recebida a bênção do santo, a mulher regressou à sua casa e. encontrando-se com seu marido, referiu-lhe o acontecido. De repente desceu o Espírito Santo sobre aquele homem e o transformou num homem novo, que com grande mansidão assim falou à mulher: "Amada esposa, entreguemo-nos desde agora ao serviço do Senhor e trabalhemos com empenho pela salvação de nossa alma". Por sugestão de sua santa esposa, eles praticaram a castidade durante vários anos e no mesmo dia partiram para o Senhor. Que maravilha a virtude profética do santo: seu poder restituía a vida aos membros já secos e conseguia fazer chegar a piedade aos corações mais duros. Por outro lado, sua penetração estendia-se até aos acontecimentos do futuro e perscrutava o mistério das consciências, como um segundo Eliseu que herdara o duplo espírito do profeta Elias!
7. Em Sena, havia predito a um amigo seu algumas coisas que deveriam acontecer-lhe nos seus últimos dias. Então aquele douto religioso que, como recordamos acima, de tempos em tempos vinha discutir com ele sobre textos da Escritura, lhe perguntou se ele dissera realmente aquelas coisas que lhe haviam relatado. Francisco não se contentou com reconhecer que as dissera, mas insistiu e predisse a morte daquele que vinha se preocupar com a dos outros; enfim, para ter mais certeza de sensibilizar sua alma, revelou-lhe, por um outro milagre, uma inquietação que lhe roía a consciência, e ele não tivera coragem de confessá-la a ninguém. Deu-lhe a solução para o caso e conseguiu mediante seus conselhos lhe tirar aquele sofrimento da alma. Todas essas predições se realizaram, pois o religioso terminou seus dias exatamente como o servo de Cristo lhe havia anunciado.
8. Ao tempo que voltou de ultramar, tendo por companheiro a Frei Leonardo de Assis, aconteceu que Francisco, extenuado de cansaço, montou alguns instantes sobre um humilde jumentinho. Seguia-o o companheiro, também exausto, e como era fraco de virtude, começou a dizer em seu íntimo: "Os pais dele e os meus não eram de igual condição, e no entanto ele anda agora a cavalo e eu, soldado, a pé, conduzo seu jumento". Estando nessas reflexões, apeou o santo do animal imediatamente e lhe disse: "Tens razão, irmão, não fica bem que eu vá comodamente montado e tu andes a pé, pois no século foste muito mais nobre e poderoso do que eu". O companheiro ficou atônito, e corrido de vergonha ao ver descobertos seus mais secretos pensamentos, prostrou-se banhado em lágrimas aos pés do seráfico Pai, a quem confessou sua culpa, pedindo humildemente o perdão.
9. Um irmão, muito devoto e admirador do servo de Deus, vivia remoendo em seu íntimo este pensamento: será digno da graça do céu aquele a quem o santo concede sua familiaridade e afeto; e ao contrário, aquele que o santo trata como um estranho se há de considerá-lo excluído do número dos eleitos. Atormentado com essa idéia perturbadora, suspirava para que o servo de Deus lhe concedesse sua familiaridade, mas a ninguém revelava o segredo de seu coração. O Pai piedoso, porém, chamou-o amavelmente e lhe disse: "Que não te perturbe nenhum pensamento, filho, pois te considero como o mais caro entre todos aqueles que me são particularmente caros e de boa mente te ofereço minha familiaridade e minha estima". O irmão ficou maravilhado e mais devoto ainda se tornou desde então. Não só cresceu no amor ao santo, mas, por obra e graça do Espírito Santo, enriqueceu-se de dons sempre maiores.
Ao tempo em que no monte Alverne ficou recluso em sua cela, um de seus companheiros sentia um grande desejo: de ter algumas palavras ao menos da Sagrada Escritura escritas de próprio punho do santo. Alimentava a convicção de que com esse recurso poderia eliminar ou ao menos suportar com menor sofrimento a grave tentação que o atormentava: tentação não dos sentidos, mas do espírito. Perseguido por esse pensamento, sentia-se oprimido em sua alma, pois, dominado pela vergonha, não ousava manifestar este seu desejo ao santo. Mas este, embora não lho tivesse revelado homem algum, soube do que se passava por revelação divina. Por essa razão mandou ao referido companheiro que lhe trouxesse papel e tinta e, conforme seus desejos, escreveu de sua própria mão no papel alguns louvores ao Senhor e ao final acrescentou sua bênção: "Toma para ti este escrito e guarda-o com cuidado até ao dia de tua morte". Logo que recebeu aquele presente, a tentação desapareceu inteiramente. Ainda se conserva o documento, e os milagres que ele realizou testemunham em favor das virtudes de Francisco.
10. Havia num convento um irmão que - a julgar pelas aparências - era de uma santidade extraordinária. Levava uma vida exemplar, mas totalmente singular. Estava continuamente ocupado a rezar. Guardava um silêncio tão rigoroso, que chegava mesmo a se confessar não por palavras mas por sinais. Aconteceu que o santo Pai certo dia veio ao lugar onde se encontrava esse religioso para vê-lo e falar a respeito dele com os outros irmãos. Todos ponderavam e louvavam a grande virtude desse irmão. O santo, porém, lhes respondeu: "Não queirais, irmãos, elogiar nesse homem aquilo que não passa de ardis de Satanás! Sabei que na realidade tudo são tentação e embustes do demônio!" Os irmãos não queriam se convencer desse fato, pois lhes parecia impossível que a fraude pudesse disfarçar-se tão bem com as aparências, de santidade. Mas o referido irmão abandonou a Ordem pouco depois e todos viram a penetração do olhar profundo que assim havia descoberto o que se passava no fundo daquele coração. Houve igualmente muitos irmãos assim ditos de notável santidade cuja queda ele predisse e mais ainda de pecadores cuja conversão ele previu, demonstrando-se desse modo que havia chegado a. cqntemplar já aqui o espelho da eterna Luz cuio brilho permitia aos olhos de sua alma enxergar como se estivessem presentes acontecimentos distantes no espaço e no tempo.
11. Em outra ocasião aconteceu que seu vigário celebrava o capítulo no momento em que ele se encontrava orando em sua cela, fazendo o ofício de intercessor e medianeiro entre Deus e seus irmãos. Havia um entre eles, que, coberto com a capa de injustas pretensões, queria subtrair-se ao rigor da disciplina regular. O santo chamou um de seus companheiros e lhe disse: "Irmão, vi o demônio montado sobre os ombros desse irmão desobediente e apertando-lhe fortemente o pescoço; cavalgado por um cavaleiro desses, ele sacode o freio da obediência e não obedece senão às rédeas de seus instintos. Mas eu roguei a Deus por ele e o demônio fugiu envergonhado. Vai, pois, dizer-lhe que submeta de novo o pescoço ao jugo da santa obediência". Às palavras do mensageiro, o irmão se arrependeu imediatamente e atirou-se aos pés do vigário com toda humildade.
12. Dois irmãos vieram um dia de regiões muito distantes ao eremitério de Greccio, ansiosos por ver o homem de Deus e receber sua bênção, que há muito tempo desejavam. Mas ao chegarem, não encontraram o santo que já se havia retirado para a cela. Os dois irmãos, desolados, retomaram o caminho de volta. Mas eis que ao se afastarem, o santo, que não podia ter sabido da chegada nem da partida deles, saiu, contra seu costume, da cela, chamou-os afavelmente e, fazendo sobre eles o sinal-da-cruz, lhes concedeu em nome do Senhor a bênção tão desejada.
13. Chegaram um dia dois religiosos procedentes da Terra di Lavoro. O mais velho deles havia escandalizado várias vezes o companheiro, durante o caminho. Ao chegarem, o Pai perguntou ao mais jovem como se comportara o outro pelo caminho. Respondeu: "Certamente bastante bem". A esta resposta, acrescentou Francisco: "Guarda-te, irmão, de mentir, mesmo sob a capa de humildade. Pois eu sei muito bem do que aconteceu. Espera um pouco e verás o resultado". Ficou admirado sobremaneira o irmão ao ver como ele conhecia com tanta evidência as coisas ausentes. Pouco depois, o causador do escândalo, abandonando a Ordem, voltou ao século, sem pedir perdão ao seráfico Pai nem esperar dele a oportuna correção. Duas coisas ficaram demonstradas ao mesmo tempo com a ruína daquele homem: a eqüidade da justiça divina e a perspicácia surpreendente do espírito de profecia de nosso santo.
14. Vimos já nas páginas precedentes como ele apareceu milagrosamente a pessoas distantes. Aqui basta recordar como ele, estando ausente, surgiu diante dos irmãos, transfigurado, num carro de fogo, e como um crucificado aos capitulares de Arles. Devemos crer que tais fatos se deram por disposição divina, no sentido de que aquele seu maravilhoso aparecimento em vários locais com sua pessoa física indicava manifestamente como seu espírito vivia em perfeita comunhão com a Luz da eterna Sabedoria, a qual "é mais ágil que todas as coisas móveis, atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza... Ela se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e intérpretes de Deus" (Sb 7,24 e 27). De fato, o Mestre celestial costuma descobrir seus mais ocultos mistérios aos simples e pequeninos, como se viu em Davi, o mais ilustre dos profetas, depois em Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, e mais tarde no Pobrezinho de Cristo, Francisco. Todos esses eram simples, e não tinham erudição, mas pelas luzes do Espírito Santo chegaram a se tornar ilustres; pois o primeiro foi constituído pastor, encarregado de apascentar o povo de Israel resgatado do Egito; a Pedro, pescador, foi-lhe confiado o encargo de encher a rede misteriosa da Igreja com a multidão dos crentes; e a Francisco, simples comerciante, lhe inspirou o Senhor o desejo de vender e distribuir todas as coisas por Cristo, a fim de comprar a pérola preciosa de que fala o Evangelho.
CAPITULO 12
Eficácia de sua pregação e poder de curar1. Fiel e verdadeiro servo de Cristo, querendo Francisco cumprir tudo com fidelidade e perfeição, esforçava-se por praticar sobretudo aquelas virtudes que conhecia serem mais gratas a Deus, como lhe ditara o Espírito Santo. E foi tal fidelidade que um dia o fez sofrer longamente por causa de uma dúvida angustiante. Ao voltar da oração, ele a expôs aos irmãos mais achegados, rogando-lhes que o auxiliassem a encontrar a solução:
"Meus irmãos, que me aconselhais, qual a vossa opinião: devo dedicar-me à oração ou caminhar de cidade em cidade para pregar? Pois sou um pobre homenzinho simples, sem eloqüência, mais dotado para a oração do que para a pregação. Na oração obtemos e acumulamos graças, ao passo que a pregação é, por assim dizer, uma distribuição dos bens recebidos do céu. Na oração purificamos todos os impulsos da alma e os centramos com maior firmeza nAquele que é o único e soberano Bem, enquanto: na pregação nosso espírito se cobre de poeira, como os pés, as distrações nos assaltam de toda parte e a disciplina se relaxa. Na oração falamos com Deus e o ouvimos, levando assim uma vida que se aproxima da dos anjos, ao passo que a pregação nos força a nos colocar continuamente ao nível dos homens e a viver com eles, pensar, ver, falar e escutar com eles... Mas, contra todas essas vantagens da oração, existe um argumento que, se nos colocarmos do ponto de vista de Deus, parecerá decisivo: o Filho único de Deus, Sabedoria suprema, deixou o seio do Pai pela salvação das almas, a fim de se dar ao mundo como exemplo, dirigir aos homens a Palavra que salva, dar-lhes seu sangue como resgate e libertação, como banho de purificação e como bebida que fortifica; nada reteve para si, mas nos deu tudo a fim de nos salvar. E como devemos imitar suas ações, tal como Moisés que confeccionou o candelabro de ouro segundo o modelo que Deus lhe mostrara sobre o monte, parece-me que o que mais agrada a Deus é que eu abandone a tranqüilidade de meu retiro para ir trabalhar e pregar".
Durante vários dias continuou ele com seus irmãos a discussão sem chegar a formar uma convicção certa sobre a escolha que seria a mais agradável a Cristo. Ele mesmo, que recebia revelações maravilhosas em virtude de seu espírito de profecia, não conseguia esclarecer-se e resolver a questão: Deus permitia isso para evidenciar por um milagre o mérito de seu servo no momento de partir para a pregação e salvaguardar sua humildade.
2. Não se envergonhava de pedir conselhos aos seus inferiores nas coisas pequenas, ele que se julgava o menor de todos, embora houvesse aprendido do Mestre supremo grandiosas revelações. Por isso costumava ter sumo cuidado em indagar de que modo e de que forma poderia servir mais perfeitamente ao Senhor segundo seu beneplácito. Foi esta sua filosofia particular, foi esse seu mais ardente desejo enquanto viveu: consultar os sábios e os simples, os perfeitos e os imperfeitos, os grandes e os pequenos, de que maneira poderia chegar mais facilmente ao cume: da perfeição. E então chamou dois de seus irmãos e os enviou ao irmão Silvestre, aquele mesmo que em outro tempo vira sair da boca de Francisco uma cruz esplêndida, e então se encontrava entregue aos fervores da oração em um monte próximo à cidade de Assis, encarregando-o de consultar a Deus a fim de resolver aquela dúvida e pedindo-lhe que lhe comunicasse qual: a resposta do Senhor. Também pediu a Clara, virgem santa, encarregando-a de conferenciar sobre o assunto com alguma das mais puras e simples virgens que com ela estavam e acrescentando suas próprias orações às demais, para que procurasse verificar qual a vontade do Senhor. no assunto objeto da consulta. Houve uma unanimidade extraordinária: o sacerdote e a virgem, sob a inspiração do Espírito Santo, assim interpretaram a vontade de Deus: o arauto de Cristo deve ir pregar pelo mundo. Voltaram os irmãos, indicando qual a vontade de Deus, conforme tinham podido saber. Ele imediatamente se levantou, cingiu as vestes e, sem se deter um momento, se pôs a caminho. Ia com tanto fervor executar a vontade divina, corria tão velozmente, como se a mão do Senhor, descendo sobre ele, o houvesse cumulado de novas energias.
3. Aproximando- se de Bevagna, viu um pequeno bosque onde se haviam reunido passarinhos de toda espécie em grandes bandos. Correu imediatamente para lá e saudou-os como se fossem dotados de razão. Pararam todos para olhá-lo; os que estavam nas árvores se inclinavam e avançavam as cabeças, olhando de modo extraordinário. Adiantou-se para o meio deles, pediu-lhes mansamente que ouvissem a palavra de Deus e lhes disse: "Irmãos pássarinhos vós tendes muito motivo para bendizer vosso Deus e Criador que vos vestiu de tão ricas plumas e vos deu asas para voar; vos determinou para morada a região pura dos ares e cuida de vós, sem que preciseis vos inquietar com nada". Esse discurso provocou entre os passarinhos alegres manifestações: esticavam o pescoço, desdobravam as asas, abriam o bico e olhavam atentamente para Francisco. E o santo ia e vinha no meio deles, a alma delirando de fervor; roçava-lhes a túnica, nenhum porém se afastava. Por fim, traçou o sinal da cruz sobre eles, e os passarinhos, com sua permissão e sua bênção, voaram todos ao mesmo tempo. Os companheiros de missão olhavam aquele espetáculo. Ao voltar para junto deles, o homem simples e puro que era Francisco acusava-se de negligência por não haver até então pregado às aves.
4. Pregando em seguida nas vizinhanças, chegou a um lugar chamado Albino, onde, havendo congregado o povo e feito o devido silêncio, mal se ouvia sua voz na pregação por causa de um grande número de andorinhas que naquele mesmo lugar estavam construindo seus ninhos e faziam com seus pios um estrépito muito grande. E diante de todos, disse a elas: "Irmãs andorinhas, já é tempo que me deixeis falar, pois até agora haveis gritado bastante. Ouvi a palavra de Deus e guardai silêncio até que termine a pregação". A esta ordem, e como se fossem capazes de conhecimento, silenciaram de repente as andorinhas, permanecendo no mesmo lugar até que o santo terminou seu sermão. Havendo presenciado essa maravilha, os ouvintes encheram-se de admiração e todos unânimes glorificavam ao Senhor. Divulgada a fama deste milagre por toda parte, muitas pessoas sentiram-se atraídas à veneração e devoção do santo.
5. Um estudante de Parma, excelente jovem, estudava com alguns companheiros, quando uma andorinha veio incomodá-los e importuná-los provocando grande ruído com seus pios. Disse ele a seus companheiros: "É uma das que perturbaram a pregação do homem de Deus Francisco até que ele lhes ordenou que calassem". Voltou-se para a andorinha e lhe disse com plena segurança: "Ordeno-te, em nome do servo de Deus Francisco, que venhas aqui e fiques calada!" Em nome de Francisco, ela se calou imediatamente, como se tivesse ouvido a voz do santo homem, e veio se aconchegar na mão do estudante, que, estupefato, lhe devolveu a liberdade e não mais foi importunado por seus gritos.
6. Certa ocasião pregava o servo de Deus em Gaeta, à beira-mar, e as multidões, por devoção, acorriam a ele para tocá-lo. Mas o santo, que tinha horror desse tipo de sucesso tumultuoso, saltou sozinho dentro de uma barca que encontrou atracada. E como se fosse propulsionada por sua própria força, sem que aparecesse qualquer remador, foi ela entrando no mar para grande admiração de todos. Mas tendo-se afastado da praia, ficou imóvel entre as ondas todo o tempo que o santo esteve pregando às turbas que com religioso silêncio o ouviam da praia. Terminado o sermão, o povo, testemunha do milagre, recebeu a bênção e retirou-se para não mais importunar o santo, Então a barca por si mesma voltou à praia. Quem seria, pois, tão obstinado em sua impiedade para desprezar a pregação de Francisco cuja virtude admirável contribuía não só para que os seres irracionais ouvissem sua doutrina, mas também para que os corpos inanimados lhe servissem na pregação como se fossem racionais?
7. O Espírito do Senhor, que ungira a Francisco e o enviara, e o próprio Cristo, virtude e sabedoria do Pai, (1Cor 1,24), haviam derramado tão copiosamente seus dons sobre ele, que podia comunicar por sua palavra a doutrina autêntica de ambos e desenvolver seu poder em milagres estupendos. Sua palavra era um fogo ardente que penetrava até ao fundo dos corações e enchia de admiração a todos os ouvintes, pois não exibia as galas de uma eloqüência mundana, mas apenas espalhava o bom odor de verdades reveladas por Deus. Sucedeu certo dia, com efeito, que devendo pregar diante do próprio papa e dos cardeais, por encargo do bispo de Óstia, compôs um sermão, que aprendeu cuidadosamente de cor. Mas ao chegar o momento de se apresentar de pé diante da assembléia para pronunciar o discurso, esqueceu-o completamente e não pôde dizer uma palavra sequer do que escrevera. Confessou então o santo com a maior humildade o que lhe sucedia. Recolheu-se uns breves momentos para implorar as luzes do Espírito Santo e começou a expressar-se com tanta fluência, com raciocínios tão eficazes, que moveu à compunção as ilustres pessoas que o ouviam, mostrando-se bem às claras que não era ele, mas o Espírito Santo, quem falava por sua boca.
8. Aquilo que exigia dos outros por suas palavras já havia ele antes praticado por obras. Por isso não tinha medo de censores e pregava a verdade com suma coragem. Não costumava adular as culpas dos grandes, mas aplicava-lhes o ferro; nem dissimular a conduta dos pecadores, mas abatê-la com duras reprimendas. Com a mesma firmeza de espírito falava aos pequenos e aos grandes e tinha a mesma alegria de falar a poucos e a muitos. Pessoas de ambos os sexos e de todas as idades acorriam para ver e ouvir aquele homem novo que o céu deu ao mundo. Peregrinava pelas várias regiões, anunciando com fervor o Evangelho; e "o Senhor cooperava, confirmando a Palavra com os milagres que a acompanhavam" (Mc 16,20). De fato, em nome do Senhor, Francisco, pregador da verdade, expulsava os demônios, sarava os enfermos, e. prodígio ainda maior, com a eficácia de sua palavra, enternecia e movia à penitência os obstinados e ao mesmo tempo devolvia a saúde aos corpos e aos corações. Provam-no alguns dos milagres realizados por ele, e que agora relataremos a título de exemplo.
9. Na cidade de Toscanella, foi ele acolhido devotamente como hóspede por um cavaleiro. Atendendo à sua grande insistência, tomou o santo pela mão o seu filho único, raquítico desde o nascimento, e imediatamente lho restituiu completamente são: aos olhos de todos enrijaram-se no mesmo instante os membros daquele corpinho e a criança se levantou sã e forte, "caminhando, saltando e louvando a Deus" (At 3,8).
Em Narni havia um paralítico inteiramente privado do uso dos membros. A pedido do bispo, fez Francisco sobre o doente um grande sinal-da-cruz, desde a cabeça até aos pés... O enfermo se levantou completamente curado.
Na diocese de Rieti, apresentou-se a ele uma mãe desolada: o filho tinha o ventre tão inchado por causa da hidropisia que, ao colocá-lo de pé, ele não conseguia ver os pés. Sofria assim desde os quatro anos de idade. O santo tocou-o e o inchaço desapareceu.
Em Orte, havia uma criança tão engelhada, que a cabeça tocava os pés e tinha também alguns ossos quebrados; os infelizes pais rogaram ao santo que a curasse, e este, com um sinal-da-cruz, restituiu-lhe imediatamente, com a saúde do corpo, a posição natural, sem nenhum vestígio de deformidade.
10. Na cidade de Gúbio, vivia uma mulher que tinha as mãos secas e contorcidas, nada podendo fazer com elas. Mas Francisco traçou sobre elas o sinal-da-cruz em nome do Senhor e elas, ficaram tão perfeitamente sãs, que ela de volta para casa pôde preparar sozinha, como outra sogra de São Pedro, sua própria comida e a dos pobres.
Em Bevagna, Francisco aplicou numa menina completamente cega por três vezes um pouco de saliva sobre os olhos em nome da Santíssima Trindade e a criança recuperou a visão tão desejada.
Em Narni, uma mulher, também cega, reviu a luz do dia, graças ao sinal-da-cruz que o santo traçou sobre ela.
Em Bolonha, uma criança tinha um dos olhos coberto por uma mancha e: não via absolutamente nada. Não havia remédio que a curasse. Mas depois que o servo de Deus lhe fez o sinal-da-cruz, desde a cabeça até aos pés, recuperou perfeitamente a vista. Em seguida entrou para a Ordem dos Frades Menores e dizia que via melhor com o olho curado do que com aquele que sempre estivera são.
Em San Gemini, o servo de Deus recebeu hospitalidade em casa de um homem piedoso, cuja mulher era atormentada pelo demônio. Depois de rezar, ordenou ao demônio, em virtude da obediência, que deixasse aquela mulher, e o pôs de tal modo em fuga, que ficou demonstrado claramente que a obstinação dos demônios não resiste à virtude da santa obediência.
Em Città di Castello, uma mulher estava possessa de um espírito mau e furioso. Apenas o santo ordenou ao demônio em nome da obediência, e este saiu, cheio de raiva, deixando livre o corpo e o espírito da mulher até então dominada por ele.
11. Um irmão encontrava-se atormentado por uma grave e estranha enfermidade. Na opinião de muitos, tratava-se de possessão diabólica e não de doença natural. Muitas vezes caía de cabeça no chão e se revirava espumando, enquanto os membros ora se contraíam, ora se dilatavam com violência, ora disformemente dobrados, ora retorcidos e por fim rígidos e duros como uma pedra. Em outras ocasiões assumia tal postura, que os pés se juntavam com a cabeça e nesta situação era alçado e lançado horrivelmente ao chão. Compadecido o servo de Deus com ver esse infeliz vítima de tão grave e irremediável enfermidade, e cheio de misericórdia com ele, fez que lhe dessem um pedacinho de pão do mesmo que ele estava comendo. Tanta foi a força daquele pão sobre o enfermo, que daí em diante nunca mais foi atormentado por essa enfermidade.
No condado de Arezzo, uma mulher sofria, havia muitos dias, de dores de parto e se encontrava às portas da morte. Nessa situação desesperadora, não tinha mais remédio senão recorrer a Deus. Em tal conjuntura, sucedeu que o servo de Cristo, montado num cavalo, por causa de sua enfermidade, chegou àquele lugar, coincidindo de passar exatamente pelo local onde se encontrava a doente. Ao verem os moradores daquele povoado o cavalo sobre o qual ia montado Francisco, apressaram-se a tirar-lhe o freio que aplicaram logo à enferma com êxito tão estupendo, que a mulher deu à luz imediatamente, sem nenhum perigo nem dor.
Em Città della Pieve, certo homem piedoso e temente a Deus possuía um cordão que o santo havia usado à cintura. Como muitos homens e mulheres nessa cidade viviam sofrendo de diversas doenças, este homem ia visitá-los e dava-lhes a beber da água em que mergulhava o cíngulo, e muitos assim ficaram curados.
Também os doentes que comiam do pão que o homem de Deus tocava ficavam logo curados por intervenção divina.
12. Tais milagres, e muitos outros ainda, davam à pregação de Francisco um efeito extraordinário, fazendo que as palavras do arauto de Deus fossem ouvidas como se pronunciadas por um anjo do céu. E assim era efetivamente, pois a prerrogativa de excelsas virtudes com que Deus o ornara, seu espírito de profecia, a eficácia de seus milagres, a ordem de pregar recebida do céu, a obediência que lhe prestavam os seres, irracionais, as transformações maravilhosas operadas por sua pregação apostólica, sua ciência não adquirida por estudos humanos mas infundida pelo Espírito Santo, a autorização para pregar que por revelação divina lhe concedeu o Romano Pontífice, além disso, a Regra por ele mesmo escrita, que define a forma da pregação, confirmada pelo mesmo Vigário de Cristo, e, por fim, as chagas do Rei celestial, impressas como sinal em seu corpo, são outros tantos testemunhos que provam a todos os séculos de modo indubitável que o arauto de Cristo, Francisco, foi respeitável por seu oficio, autorizado por sua doutrina, admirável por sua santidade e assim pregou o Evangelho de Cristo como um verdadeiro enviado de Deus.