ou “Legenda Perusina” ou “Legenda de Perusa”.
[1]
Por isso declarou que raramente se devia dar preceitos por obediência; e que não se devia lançar logo no começo o dardo, que devia ser o extremo. Dizia: "Não se deve pôr logo a mão na espada". Mas achava que aquele que não se apressava a obedecer o preceito da obediência não temia a Deus nem respeitava o homem. Não há nada mais verdadeiro do que essas coisas. Pois que é a autoridade para mandar em quem manda temerariamente se não uma espada na mão] de um furioso? E que há de mais desesperado que um religioso que despreza a obediência?
[2]
São Francisco dizia: "Tempo virá em que esta Religião amada por Deus vai ser difamada pelos maus exemplos, a ponto de ficar com vergonha de sair em público. Mas os que vierem nesse tempo para receber a ordem serão conduzidos unicamente pela ação do Espírito Santo e carne e sangue não lhes causarão mancha alguma: e serão verdadeiramente abençoados por Deus. E mesmo que não houvesse neles obras meritórias, pelo resfriamento da caridade, que faz os santos agirem com fervor, sobrevirão para eles tentações imensas; e os que nesse tempo se demonstrarem comprovados serão melhores do que seus predecessores. Mas ai daqueles que, aplaudindo-se só pela aparência de comportamento religioso, vão amolecer no ócio e não vão resistir constantemente às tentações que são permitidas para a provação dos eleitos; pois só os que forem provados receberão a coroa da vida: eles serão exercitados nesse meio tempo pela malícia dos réprobos.
[3]
Disse também: "Roguei ao Senhor que se dignasse mostrar-me quando sou seu servo e quando não sou. Pois não quero ser outra coisa, dizia, senão um servor seu. Mas então o próprio Senhor benigníssimo dignou-se responder-me: Saibas que és meu servo de verdade quando pensas, falas e pões em prática coisas santas. Foi por isso que vos chamei, irmãos, pois quero ficar com vergonha diante de vós se alguma vez não fizer nenhuma dessas três coisas".
[4]
Um dia, quando o bem-aventurado Francisco estava doente de cama no palácio do bispado de Assis, um frade espiritual e santo homem disse-lhe, brincando e rindo: ”Por quanto vendes todos os teus trapos ao Senhor? Muitos baldaquins e panos de seda vão ser colocados e vão cobrir esse teu corpo, que agora está vestido de saco”. Pois nesse tempo São Francisco, por causa da doença, tinha um gorro de pele, que estava coberto de saco, como a sua roupa de saco. O bem-aventurado Francisco respondeu - não ele mas o Espírito Santo por ele - dizendo com grande fervor de espírito e alegria: “Tu dizes a verdade, porque vai ser assim mesmo”.
[5]
Vendo o bem-aventurado Francisco que, enquanto estava naquele palácio, sua enfermidade se agravava cada dia mais, fez com que o levassem de maca para a igreja de Santa Maria da Porciúncula, pois não podia andar a cavalo pela gravidade de sua doença.
Quando os que o levavam passaram pela rua perto do hospital, disse-lhes que pusessem a maca no chão. E como quase não podia enxergar por causa da longa e grande enfermidade dos olhos, mandou virar a maca, para ficar com o rosto voltado para a cidade de Assis. Levantando-se um pouco em seu leito, abençoou a cidade de Assis dizendo: “Senhor, como creio que a cidade, no tempo antigo, foi lugar e morada de homens maus e iníquos, de má fama em todas as províncias, também vejo, por tua abundante misericórdia que, no tempo que te foi agradável, manifestaste nela a multidão das tuas bondades, para que fosse lugar e morada de pessoas que te conhecessem e dessem glória ao teu nome, com o odor da boa vida, da doutrina e da boa fama para todo o povo cristão. Por isso eu te rogo, Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias, que não consideres a nossa ingratidão mas te lembres sempre da tua abundante misericórdia, que demonstraste para com ela, para que seja sempre o lugar e morada de pessoas que te conheçam e glorifiquem teu nome bendito e glorioso pelos séculos dos séculos. Amém”. E, tendo dito isso, foi levado para Santa Maria da Porciúncula.
[6]
O bem-aventurado Francisco, desde o tempo de sua conversão até o dia de sua morte sempre foi solícito, na saúde e na doença, por conhecer e seguir a vontade do Senhor.
[7]
Um dia um frade disse ao bem-aventurado Francisco: “Pai, tua vida e comportamento foram e são luz e espelho não só para teus frades mas para toda a Igreja de Deus, e o mesmo vai acontecer com tua morte; pois, embora para os teus frades e para muitos outros tua morte seja uma grande dor e tristeza, para ti será a maior consolação e um gozo infinito, porque passarás de muito trabalho para o maior descanso e de muitas dores e tentações para um gozo infinito, da tua maior pobreza, que sempre amaste e suportaste voluntariamente desde o começo de tua conversão até o dia de tua morte, para as maiores, verdadeiras e infinitas riqeuzas, da morte temporal para a vida sempiterna, onde verás sempre face as face o Senhor teu Deus (cfr. Gn 32,30; 1Cor 13,12), que contemplaste neste século com tanto fervor, desejo e amor”.
Dito isso, falou-lhe claramente: “Pai, saibas na verdade que, se Deus não mandar do céu o seu remédio para o teu corpo, tua doença é incurável e deves viver pouco, como também os médicos já disseram. Mas eu disse isso para confortar o teu espírito, para te alegrares sempre no Senhor interior e exteriormente, e principalmente para que teus frades e outros, que vêm te visitar te encontrem alegre no Senhor (cfr. Fp 4,4), porque sabem e crêem que vais morrer logo, que para eles que estão vendo isso e para os outros que ouvirem depois de tua morte, fique a tua morte como lembrança, como foram para todos tua vida e comportamento”. O bem-aventurado Francisco, mesmo sofrendo muito pelas enfermidades, louvou ao Senhor com grande fervor do espírito e alegria do corpo e da alma, e lhe disse: “Então, se devo morrer logo, chamai-me Frei Ângelo e Frei Leão, para que me cantem sobre a irmã morte”.
Esses frades se apresentaram diante dele e cantaram com muitas lágrimas o Cântico de Frei Sol e das outras criaturas ao Senhor, que o próprio santo fizera em sua doença para louvar o Senhor e para consolar sua alma e a dos outros, no qual canto colocou antes do último um verso sobre a irmã morte, a saber: Louvado sejas meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal da qual nenhum homem vivo pode escapar. Ai de quem morrer em pecado mortal. Felizes os que ela encontrar em tuas santíssimas vontades, porque a morte segunda não lhes fará mal.
[8]
Um dia o bem-aventurado Francisco chamou seus companheiros: “Vós sabeis como dona Jacoba de Settesoli foi e é para mim e para nossa Religião muito fiel e devota; por isso eu acho que, se a fizerdes saber meu estado, vai ter isso como uma grande graça e consolação; mas de maneira especial fazei saber que vos mande fazenda para uma túnica de pano religioso, que tenha côr de cinza, e é como o pano feito pelos monges cistercienses nos países ultramontanos; também mande daquela comida que fez para mim muitas vezes quando estive em Roma”. A tal comida é chamada pelos romanos de “mortariolum” (mostaciolo), feita de amêndoas e açucar ou mel e outras coisas.
Essa mulher espiritual era uma santa viúva dedicada a Deus, das mais nobres e ricas de toda Roma, que tinha recebido tamanha graça de Deus pelos méritos e pela pregação do bem-aventurado Francisco, que parecia uma outra Madalena, sempre cheia de lágrimas e de devoção por amor de Deus.
Tendo escrito a carta, como dissera o santo pai, um frade estava procurando encontrar um frade que levasse a carta, e de repente bateram à porta; e quando um frade abriu a porta, viu dona Jacoba, que viera depressa de Roma para visitar o bem-aventurado Francisco, e imediatamente o frade foi anunciar ao bem-aventurado Francisco, com a maior alegria, como dona Jacoba com seu filho e muitos outros viera para vistá-lo, e disse: “Que fazemos, pai? Deixamos que entre e venha a ti”? Pois por vontade do bem-aventurado Francisco tinha sido estabelecido naquele lugar, no tempo antigo, que nenhuma mulher devia entrar no recinto, pela honestidade e devoção daquele lugar. E o bem-aventurado Francisco disse: “Não devemos observar esse estatuto com essa senhora, que foi trazida até aqui lá de longe por tão grande fé e devoção”. E assim ela entrou onde estava o bem-aventurado Francisco, derramando diante dele muitas lágrimas. E foi admirável que ela trouxe consigo o pano mortuário, isto é, de côr cinzenta, para a túnica, e tudo que estava escrito na carta que era para mandar. Os frades ficaram muito admirados com isso, considerando a santidade do bem-aventurado Francisco.
A referida dona Jacoba até disse aos frades: “Irmãos, foi-me dito em espírito, quando estava rezando: Vá visitar teu pai, o bem-aventurado Francisco, depressa, sem tardar, porque se demorares muito não vais encontrá-lo vivo. Além disso, levarás tal pano para sua túncia e tais coisas, para que lhes faças uma comida; do mesmo jeito, leve também bastante cera para as velas e também incenso”.
O bem-aventurado Francisco não tinha mandado falar de incenso na carta; mas o Senhor quis inspirar aquela senhora para mercê e consolação de sua alma e para que nós conheçamos melhor como foi grande a santidade deste santo, que o Pai celeste quis honrar o pobre com tanta honra nos dias de sua morte. Aquele que inspirou os reis para irem com presentes para honrar seu dileto Filho nos dias de seu nascimento e de sua pobreza, quis inspirar aquela senhora nobre, em lugar afastado, para ir com presentes para venerar e honrar o glorioso e santo corpo de seu santo servo, que com tanto amor e fervor amou e seguiu a pobreza de seu dileto Filho na vida e na morte.
A senhora reparou um dia para o santo pai aquela comida que ele desejava comer; mas ele só comeu um pouquinho, porque a cada dia seu corpo estava definhando pela grave doença e estava ficando mais perto da morte. Da mesma forma, mandou fazer muitas velas, para ficarem ardendo diante de seu santo corpo depois de sua migração; e, com o pano que ela tinha trazido, os frades fizeram-lhe uma túnica, com a qual foi sepultado. E ele mesmo mandou que os frades costurassem saco sobre ela como sinal e exemplo da santíssima humildade e pobreza. E foi feito como agradou a Deus, pois naquela semana em que veio dona Jacoba, o bem-aventurado Francisco migrou para o Senhor.
[9]
O bem-aventurado Francisco, desde o começo de sua conversão, com a colaboração do Senhor, como um sábio colocou o fundamento de si mesmo e de sua casa sobre a pedra firme (cfr. Mt 7,24), isto é, sobre a máxima humildade e pobreza do Filho de Deus, chamando-a de Religião dos Frades Menores.
Sobre a máxima humildade: por isso, desde o começo da Religião, depois que os frades começaram a se multiplicar, quis que os frades permanecessem nos hospitais dos leprosos para servi-los; por isso, naquele tempo em que vinham para a Religião pobres e plebeus, entre outras coisas que lhes eram propostas dizia-se que tinham que servir aos leprosos e ficar em suas casas.
Sobre a máxima pobreza: como se diz na Regra, que os frades como forasteiros e peregrinos (cfr. 1Pd 2,11) fiquem nas casas em que moram, não queiram Ter nada embaixo do céu, a não ser a santa pobreza, pela qual são alimentados pelo Senhor neste século com alimentos corporais e com as virtudes, e no futuro vão conseguir a herança celeste.
Fundamentou a si mesmo sobre a máxima pobreza e humildade: porque, sendo um grande prelado na Igreja de Deus, quis e escolheu ser abjeto não só na Igreja de Deus mas também entre os seus irmãos.
[10]
Certa vez, quando estava pregando ao povo em Terni, na praça na frente do palácio do bispo, estava assistindo a esse sermão o bispo da cidade, homem discreto e espiritual. Daí, quando acabou a pregação, o bispo levantou-se e, entre outras palavras de Deus, também disse: “O Senhor, desde o começo, quando plantou e edificou a sua Igreja (cfr. Mt 16,18) sempre a fez brilhar por santos homens, que a cultivassem pela palavra e pelo exemplo. Mas agora, nesta última hora (cfr. 1Jo 2,18) ilustrou-a com este homem pobrezinho, desprezado e iletrado - apontando com o dedo o bem-aventurado Francisco para todo o povo -e por causa disso tendes que amar e honrar o Senhor, e tomar cuidado com os pecados, pois não fez assim com todas as nações (cfr. Sl 149,20)”.
Quando acabou a pregação, descendo do lugar onde tinha falado, [o senhor] bispo e o bem-aventurado Francisco entraram na igreja do palácio episcopal; então o bem-aventurado Francisco inclinou-se diante do senhor bispo e se prostrou aos seus pés (cfr. Mr 5,22) dizendo: “Na verdade eu te digo, senhor bispo, que homem algum jamais me deu tanto honra neste século quanto me fizeste hoje, porque as outras pessoas dizem: esse homem é santo! atribuindo a glória e a santidade à criatura e não ao Criador. Mas tu separaste o precioso do vil (cfr. Jr 15,19), como um homem discreto”.
Pois, muitas vezes, quando o bem-aventurado Francisco era honrado e diziam que ele era um santo homem, respondia essas palavras dizendo: “Ainda não estou seguro se não vou Ter filhos e filhas”. E dizia: “Pois, em qualquer hora que Deus quisesse me tirar o seu tesouro, que me emprestou, que é que me sobraria a não ser o corpo e alma, que também os infiéis possuem? Até devo crer que, se o Senhor desse a um ladrão e também a um homem infiel tantos bens quantos me deu, eles eriam mais fiéis ao Senhor”. E disse: “Como num quadro do Senhor e da bem-aventurada Virgem honram-se Deus e a bem-aventurada Virgem, e nos lembramos de Deus e da bem-aventurada Virgem: a tábua e a pintura não se atribuem nada, porque são apenas tábua e pintura, assim o servo de Deus é uma espécie de pintura, isto é, uma criatura de Deus, em que Deus é honrado por causa de um seu benefício, mas ele não se deve arrogar nada, como a tábua e pintura, mas só a Deus se deve dar honra e glória (cfr. 1Tm 1,17); a si mesmo vergonha e tribulação, enquanto vive, porque sempre, enquanto vive, a carne é contrária aos benefícios de Deus
[11]
Entre os seus frades, Francisco quis ser humilde e, para conservar a maior humildade, poucos anos depois de sua conversão, em um capítulo em Santa Maria da Porciúncula, resignou ao ofício da prelatura diante de todos os frades, dizendo: “Agora estou morto para vós; mas aqui está Frei Pedro Catani, a quem eu e vós vamos obedecer”. Então todos os frades começaram a deplorar em alta voz e a chorar fortemente. E, inclinando-se diante de Frei Pedro, o bem-aventurado Francisco prometeu obediência e reverência; e desde então até sua morte permaneceu como um súdito, como um dos outros frades. Até mais: não só quis estar submisso ao ministro geral e aos ministros provinciais mas também, em qualquer província em que estivesse morando ou tivesse ido pregar, obedecia ao ministro daquela província, mas também, para maior perfeição e humildade, muito tempo antes de sua morte, disse uma vez ao ministro geral: “Quero que confies tua representação junto a mim a um de meus companheiros, a quem obecerei no teu lugar; porque, por causa do bom exemplo e da virtude da obediência na vida e na morte, quero que permaneças sempre comigo”.
E desde então até a morte sempre teve um de seus companheiros como guardião, a quem obedecia no lugar do ministro geral. Uma vez, até disse aos companheiros: “Entre outras graças, o Senhor me deu esta: que eu obedecesse de tal modo ao noviço, que tivesse entrado hoje na Religião, como àquele que fosse o primeiro e mais antigo na vida e na Religião dos frades. Porque o súdito deve considerar em seu prelado não o homem mas Deus, por cujo amor se fez submisso”. Disse igualmente: “Não há nenhum prelado em todo o mundo que seja tão temido por seus súditos e frades quanto o Senhor me faria ser temido por meus frades, se eu quisesse; mas o próprio Altíssimo me deu esta graça, que eu quero ficar contente com todos, como o menor na Religião”.
E isso nós vimos com nossos olhos (cfr. 1Jo 1,1) muitas vezes, nós que vivemos com ele (cfr. 2Pd 1,18), como ele mesmo testemunha; porque muitas vezes, como alguns frades não o satisfizessem em suas necessidades ou lhe dissessem alguma palavra, das que costumam levar as pessoas ao escândalo, ia logo rezar e quando voltava não queria lembrar-se, dizendo: Tal frade não me satisfez, ou: Disse-me tal palavra. Quanto mais se aproximava da morte, mais era solícito em toda perfeição por considerar como poderia viver e morrer em toda humildade e pobreza.
[12]
No dia em que dona Jacoba preparou aquele prato, o bem-aventurado Francisco recordou-se como um pai de Frei Bernardo, dizendo: “Este prato é bom para Frei Bernardo”. Chamando um de seus companheiros, disse: “Vá dizer a Frei Bernardo para vir logo aqui”.
O frade foi imediatamente e o levou ao bem-aventurado Francisco. Sentando-se na cama em que estava deitado o bem-aventurado Francisco, Frei Bernardo disse: “Pai, peço que me abençoes e me mostres o teu afeto, porque se me mostrares carinho por paternal afeto, creio que o próprio Deus e os outros frades da Religião vão me amar mais”.
O bem-aventurado Francisco não podia enxergá-lo, porque já fazia muitos dias que tinha perdido a luz dos olhos; mas, estendendo a mão direita, colocou-a sobre a cabeça (cfr. Gn 48,14) de Frei Egídio, que foi o tercero dos primeiros frades e estava sentado perto de Frei Bernardo, achando que a estava colocando sobre a cabeça de Frei Bernardo, e tocando a cabeça de Frei Egídio, como um cego, logo percebeu pelo Espírito Santo, dizendo: “Esta não é a cabeça de meu Frei Bernardo”.
Frei Bernardo logo foi para mais perto dele. O bem-aventurado Francisco, pondo a mão sobre sua cabeça, abençoou-o. Além disso, disse a um de seus companheiros: “Escreve, como te digo: O primeiro frade que o Senhor me deu foi Frei Bernardo, e também o primeiro que começou e terminou perfeitíssimamente a perfeição do santo Evangelho, distribuindo todos os seus bens para os pobres; por isso, e por muitas outras prerrogativas, tenho que amá-lo mais do que qualquer outro frade da Religião. Então, quero e mando, quanto posso, que quem quer que for o ministro geral o honre e ame como a mim mesmo, e que também os ministros provinciais e os frades de toda a Religião o tenham como se fosse eu”. Frei Bernardo ficou muito consolado com isso, e os frades que o viram.
Pois certa vez, considerando o bem-aventurado Francisco a enorme perfeição de Frei Bernardo, profetizou sobre ele diante de alguns frades, dizendo: “Eu vos digo que a Frei Bernardo, para prová-lo, foram dados alguns dos demônios maiores e mais espertos, que vão atacá-lo com muitas tribulações e tentações, mas o Senhor misericordioso, perto do seu fim, vai livrá-lo de toda tribulação e tentação interior e exterior, e vai colocar seu espírito e seu corpo em tão grande paz, sossego e consolação que todos os frades, que virem e ouvirem, vão ficar muito admirados com isso e vão achar que é um grande milagre; e nessa paz, sossego e consolação interior e exterior, vai passar deste século para o Senhor”.
Os frades que ouviram isso do bem-aventurado Francisco ficaram muito admirados, porque foi verdade à letra, ponto por ponto, o que predissera sobre ele pelo Espírito Santo. Pois Frei Bernardo, na doença da morte, estava em tamanha paz e sossego do espírito que não queria ficar deitado; e, se ficava deitado, ficava meio sentado, para que nem a menor fumaça dos humores, subindo à sua cabeça levassem-no à imaginação e ao sonho a não ser ao que dizia respeito ao que pensava de Deus; E se isso acontecia alguma vez, levantava-se na mesma hora e se sacudia dizendo: “Que foi isso? Por que pensei assim?”. Até quando levava de boa vontade água de rosas ao nariz para seu conforto, quando chegou mais perto da morte, não queria pôr por causa da contínua meditação de Deus. Por isso, dizia quem a oferecia: “Não me atrapalhes”.
E para isso, para que pudesse morrer mais livre, pacificamente em em sossego, desapropriou-se dos ofícios do corpo nas mãos de um frade, que era médico e o ajudava, dizendo: “Não quero ter nenhuma preocupação de comer ou beber, mas deixo por tua conta; se me deres, receberei; se não, não”. Mas desde que começou a ficar doente quis sempre ter junto de si um frade sacerdote até a hora da morte. E quando lhe vinha alguma coisa à mente, de que a consciência o repreendesse, logo se confessava e dizia a sua culpa.
Depois da morte ficou claro, com a carne mole, e parecia estar rindo; por isso parecia que estava mais bonito depois da morte do que antes; e os que olhavam para ele gostavam mais de vê-lo do que quando estava vivo, porque parecia um santo sorrindo.
[13]
Naquela semana em que o bem-aventurado Franciscou migrou, dona Clara, primeira muda da Ordem das Irmãs, abadessa das irmãs pobres do mosteiro de São Damião de Assis, emuladora de São Francisco para observar sempre a pobreza do Filho de Deus, como estava então muito doente e temia morrer antes do bem-aventurado Francisco, chorava amargamente e não podia ser consolada, porque não podia ver antes de sua morte o seu único pai depois de Deus, isto é, o bem-aventurado Francisco, consolador de sua vida interior e exterior e também seu primeiro fundador na graça de Deus.
E fez o bem-aventurado Francisco saber disso por um frade. Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco, como amava a ela e a suas irmãs com afeto paternal por causa de seu santo comportamento, movido pela piedade, principalmente porque ela foi convertida para o Senhor por seus conselhos poucos anos depois que tinha começado a ter irmãos, pela cooperação do Senhor; e sua conversão foi de grande edificação não só para a Religião dos frades mas para toda a Igreja de Deus.
Mas o bem-aventurado Francisco, considerando que o que ela desejava, isto é, vê-lo, então não era possível, porque os dois estavam gravemente enfermos, para consolá-la escreveu-lhe a sua bênção por uma carta, e também absolveu-a de todo defeito, se tivesse algum, em suas ordens e vontades como também nas ordens e vontades de Deus. Além disso, para que deixasse toda tristeza e fosse consolada no Senhor, não ele mas o Espírito de Deus falou nele estas palavras, dizendo ao mesmo frade que ela enviara: “Vá e leve esta carta para dona Clara, e lhe dirás que deixe toda dor e tristeza, porque agora não pode me ver; mas sabia em verdade que, antes de sua morte, tanto ela como suas irmãs me verão e terão a maior consolação”.
Mas aconteceu que, como pouco depois o bem-aventurado Francisco migrou de noite, quando chegou a manhã todo o povo de homens e mulheres da cidade de Assis, com todo o clero, tomando o santo corpo do lugar onde tinha morrido, com hinos de louvor pegaram todos ramos de árvores por vontade do Senhor para levá-lo a São Damião, para que se cumprisse a palavra que o Senhor tinha dito em seu santo para consolar suas filhas e servas.
Removendo a grade de ferro da janela pela qual as servas de Cristo costumam comungar e ouvir às vezes a palavra de Deus, os frades tiraram o santo corpo da maca e o seguraram em seus braços junto da janela por uma boa hora, até que dona Clara e suas irmãs tiveram dele a maior consolação, mesmo estando cheias de muitas lágrimas e aflitas de dores, porque depois de Deus ele era sua única consolação neste século.
[14]
Na tarde do sábado depois das Vésperas, antes da noite em que o bem-aventurado Francisco migrou para o Senhor, muitos pássaros, que são chamados cotovias, ficaram voando não muito alto acima do telhado da casa em que jazia o bem-aventurado Francisco, dando voltas em círculo e cantando.
Mas nós que estivemos com o bem-aventurado Francisco, que escrevemos isto sobre ele, damos testemunho de que muitas vezes o ouvimos dizer: “Se eu falar com o imperador, vou suplicar que, pelo amor de Deus e pela intervenção de minhas preces, faça um decreto por escrito, para que ninguém capture as irmãs cotovias nem lhes faça nada de mau. De maneira semelhante, que todos os “podestás” das cidades e os senhores dos castelos e das vilas, no Natal do Senhor, todos os anos, tenham que levar as pessoas a jogar trigo e outros grãos pelas estradas fora das cidades e dos castelos, para que principalmente as irmãs cotovias e outras aves tenham o que comer num dia de tão grande solenidade. E que por reverência ao Filho de Deus, que sua Virgem Mãe reclinou no presépio entre o boi e o burro nessa noite, toda pessoa, na mesma noite tenha que dar bastante ração para os irmãos bois e burros; de maneira semelhante, que no Natal do Senhor, todos os pobres tenham que ser saciados pelos ricos”.
Pois o bem-aventurado Francisco tinha mais reverência pelo Natal do Senhor que por nenhuma outra solenidade do Senhor, porque, embora em suas outras solenidades o Senhor tenha atuado pela nossa salvação, foi desde que nasceu por nós - como dizia o bem-aventurado Francisco - que teve a oportunidade de nos salvar. Por isso queria que nesse dia todo cristão exultasse no Senhor e por seu amor, pois se entregou por nós, e todas as pessoas fossem generosas com alegria não só com os pobres mas também com os animais e as aves. Sobre a cotovia, o bem-aventurado Francisco dizia: “A irmã cotovia tem um capuz como os religiosos, e é uma ave humilde, que faz de boa vontade o seu caminho para encontrar alguma comida, e mesmo que a encontre no meio do esterco dos animais, tira-a e come. Voando louva o Senhor, como os bons religiosos desprezando as coisas da terra vivem sempre nos céus. Além disso, sua roupa, isto é, suas penas, parece terra, dando exemplo aos religiosos, que não devem usar roupas delicadas e coloridas, mas parecida com a terra, como se fosse morta”. Era por isso, porque o bem-aventurado Francisco considerava essas coisas nas irmãs cotovias, que as amava muito e gostava de vê-las.
[15]
O bem-aventurado Francisco dizia freqüentemente estas coisas aos frades: “Nunca fui ladrão de esmolas, que são a herança dos pobres, sempre recebi menos do que me cabia, para que os outros pobres não fossem defraudados em sua sorte, porque fazer o contrário seria furto”.
[16]
Quando os frades ministros lhe sugeriram que concedesse alguma coisa, pelo menos em comum, para que tamanha multidão tivesse ao que recorrer, São Francisco invocou Cristo na oração e o consultou a respeito. Ele respondeu imediatamente que tirasse todas as coisas, tanto em particular como em comum, dizendo esta é a sua família, que estava sempre pronto para prove-la, por mais que crescesse, e que sempre a ajudaria, enquanto esperasse nele.
[17]
Quando o bem-aventurado Francisco estava em certo monte com Frei Leão de Assis e Frei Bonício de Bolonha para fazer a Regra - porque a primeira, que tinha mandado escrever ouvindo Cristo - muitos ministros se reuniram com Frei Elias, que era o vigário do bem-aventurado Francisco, e lhe disseram: “Ouvimos que esse Frei Francisco está fazendo uma regra nova; tememos que a faça tão áspera que não a possamos observar. Queremos que te apresentes a ele e lhe digas que nós não queremos ser obrigados a essa Regra; faça-a para ele, não para nós”.
Frei Elias respondeu-lhes que não queria ir, pois temia a repreensão de Frei Francisco. Como eles insistiam para que fosse, disse que não iria sem eles. Então, foram todos. Quando Frei Elias estava com esses ministros perto do lugar onde estava o bem-aventurado Francisco, chamou-o; quando o bem-aventurado Francisco respondeu e viu os referidos ministros, disse: “O que querem esses frades?” Frei Elias respondeu: “Estes são ministros, que, ouvindo dizer que fazes uma nova Regra, e temendo que a faças áspera demais, dizem e protestam que não querem ser obrigados a ela. Que a faças para ti, e não para eles”.
Então o bem-aventurado Francisco voltou sua face para o céu e assim falou com Cristo: “Senhor, eu não disse que não creriam em ti?” Então se ouviu no ar a voz de Cristo que respondia: “Francisco, não há nada de teu na Regra; tudo que está lá é meu”. E quero que a regra seja observada à letra, à letra, à letra, e sem glosa, sem glosa, sem glosa”. E acrescentou: “Eu sei do que é capaz a fraqueza humana e quanto quero ajudá-los. Os que não quiserem observá-la, que saiam da Ordem”. Então o bem-aventurado Francisco voltou-se para aqueles frades e lhes disse: “Ouvistes? Ouvistes? Querem que os faça ouvir outra vez?”. Então aqueles ministros, confundidos e reconhecendo sua culpa, foram embora.
[18]
Quando o bem-aventurado Francisco estava no capítulo geral em Santa Maria dos Anjos, que foi chamado capítulo das esteiras, e estavam presentes cinco mil frades, muitos irmãos sábios e doutos por sua ciência disseram ao senhor Cardeal, que depois foi Papa Gregório IX, que estava presente no capítulo, que convencesse o bem-aventurado Francisco, a seguir os conselhos dos referidos frades sábios e deixasse que eles o guiassem de vez em quando, alegando a Regra do bem-aventurado Bento, do bem-aventurado Agostinho e do bem-aventurado Bernardo, que ensinam assim e assim aviver ordenadamente.
Então o bem-aventurado Francisco, ouvindo a palavra do Cardeal sobre isso, tomou-o pela mão e o levou onde os frades estavam reunidos em capítulo e assim falou aos irmãos: “Irmãos meus, irmãos meus, Deus me chamou pelo caminho da humildade e me mostrou o caminho da simplicidade: não quero que me falem de nenhuma Regra, nem de Santo Agostinho, nem de São Bernardo, nem de São Bento. O senhor me disse que queria que eu fosse um “moço doido” no mundo; e Deus não quis conduzir-nos por outro caminho mas por esta ciência; mas por vossa ciência e sabedoria Deus vai confundir-vos. Mas eu confio nos esbirros do Senhor, que vai punir-vos através deles, e ainda voltareis ao vosso estado, ao vosso vitupério, queirais ou não”. Então o Cardeal ficou estupefato e não respondeu nada. Todos os frades ficaram com medo.
[19]
Embora o bem-aventurado Francisco quisesse que seus filhos vivessem em paz com todas as pessoas e que a todos se apresentassem como pequeninos, ensinou pela palavra e mostrou pelo exemplo que deviam ter a maior humildade diante dos clérigos. Pois dizia: “Fomos enviados para ajudar os clérigos para a salvação das almas, para que o que houver de menos neles seja suprido por nós. Cada um recebe o prêmio não segundo a autoridade mas segundo o trabalho.
Sabei, irmãos, que é agradabilíssimo para Deus o lucro ou o fruto das almas, e que se pode consegui-lo mais com a paz do que com a discórdia dos clérigos. Se eles estiverem impedindo a salvação dos povos, a vingança cabe a Deus e Ele há de retribuí-los no seu tempo. Por isso, sede submissos aos prelados, para não suscitar ciúmes no que depender de vós. Se fordes filhos da paz, lucrareis para Deus o clero e o povo, o que Deus acha mais aceitável do que lucrar só o povo, escandalizando o clero. Encobri, disse, as suas quedas, supri suas múltiplas deficiências; e quando fizerdes essas coisas, sede mais humildes”.
[20]
Uma vez alguns frades disseram ao bem-aventurado Francisco: “Pai, será que não vês que às vezes os bispos não nos permitem pregar, e nos fazem ficar muitos dias ociosos em algum lugar, antes de podermos pregar ao povo? Seria melhor que pedisses que os frades tivessem um privilégio do senhor papa, e fosses a salvação das almas”.
Respondeu-lhes com uma grande repreensão, dizendo: “Vós, Frades menores, não conheceis a vontade de Deus, e não me permitis converter todo o mundo, como Deus quer. Porque eu quero converter primeiro os prelados, pela humildade e a reverência, e quando eles virem vossa vida santa e a reverência que tendes para com eles, vão rogar eles mesmos que vós pregueis e convertais o povo. E vão convoca-lo para vós melhor do que os privilégios que quereis, que vos levarão à soberba. Se fordes alheios a toda avareza e inculcardes ao povo para que entreguem às igrejas os seus direitos, eles mesmos vão rogar que escuteis a confissão do seu povo; ainda que não devais pensar nisso, porque, se se converterem, vão saber encontrar confessores. Eu quero para mim este privilégio do Senhor: não ter nenhum privilégio que venha dos homens, a não ser prestar reverência a todos e pela obediência da santa Regra converter a todos mais pelo exemplo do que pela palavra”.
[21]
Certa vez, nosso Senhor Jesus Cristo disse a Frei Leão, companheiro do bem-aventurado Francisco: “Eu me lamento dos frades”. Frei Leão respondeu: “Por que, Senhor?”. O Senhor disse: “Por três coisas: porque não reconhecem meus benefícios que, como sabes, lhes dou abundantemente todos os dias, porque não semeiam nem colhem. E porque ficam o dia inteiro murmurando e sem fazer nada; e muitas vezes provocam uns aos outros para a ira, não se reconciliam e não perdoam a injúria que receberam”.
[22]
Uma noite, o bem-aventurado Francisco foi tão afligido pelas dores das doenças que quase não pôde descansar nem dormir naquela noite. De manhã, como a dor tivesse diminuído um pouquinho, mandou chamar todos os frades que havia no lugar e, quando se sentaram à sua frente, olhou para eles considerando-os representantes de todos os frades. E começando por um frade, abençoou a todos, pondo a mão direita na cabeça de cada um; abençoou a todos os que estavam na Religião e deveriam vir até o fim do mundo; e parece que se compadecia de si mesmo porque não tinha podido ver seus filhos e frades antes de sua morte.
Depois mandou que trouxessem pães para diante dele e os abençôou; e como não podia parti-los por causa da enfermidade, fez que um frade os partisse em muitos pedacinhos. Tomando-os, deu um pedacinho a cada um dos frades, mandando que o comesse inteiro. Pois, como o Senhor quis comer com os apóstolos na quinta feira, antes de sua morte, assim de algum modo pareceu àqueles frades que o bem-aventurado Francisco quis abençoa-los antes de sua morte e, neles, a todos os outros frades, e que comessem aquele pão abençoado como se de alguma forma estivessem comendo com os outros seus frades.
Creio que podemos ver isso claramente, porque, como não era uma quinta-feira, ele disse aos frades que achava que era uma quinta-feita. Um daqueles frades guardou um pedacinho daquele pão. E, depois da morte do bem-aventurado Francisco, alguns, que provaram dele em suas doenças, foram imediatamente libertados.
[23]
Ensinava seus frades a construir habitações pobrezinhas, de madeira e não de pedra, e lebantando essas casinhas num estilo vil. Não queria que os frades morassem em nenhum lugarzinho se não houvesse certeza do dono que retinha a propriedade. Pois sempre buscou em seus filhos a lei dos peregrinos (cfr. Ex 12,49).
[24]
Este homem não só detestava arrogância das casas como tinha horror a utensílios numerosos e muito rebuscados. Não gostava de nada que, nas mesas e nas panelas, recordasse o mundo, para que tudo cantasse a peregrinação, cantasse o exílio.
[25]
Ensinava a buscar nos livros o testemunho do Senhor e não o preço, a edificação e não a beleza. Queria ter poucos, e adequados às necessidades dos frades indigentes.
[26]
Finalmente, nos enxergões e camas sobrava uma abundante pobreza, e quem tinha alguns trapos meio conservados por cima das palhas, achava que tinha um leito de luxo.
[27]
Na verdade o amigo de Deus desprezava enormemente tudo que é do mundo, mas execrava acima de tudo o dinheiro. Por isso foi a coisa que mais desprezou desde o princípio de sua conversão, e sempre insinuou aos que o seguiam que deviam fugir dele como dia diabo. Esta era a advertência que dava aos seus: que deviam gostar de dinehiro e de esterco como se divessem o mesmo preço. Aconteceu, assim, certo dia, que um secular entrou na igreja de Santa Maria da Porciúncula para rezar e, para fazer uma oferta, colocou dinheiro junto da cruz.
Quando ele foi embora, um frade pegou simplesmente com sua mão e o jogou na janela. Chegou ao sanato o que o frade tinha feito; vendo-se descoberto, ele correu para pedir perdão, proostrou-se no chão e se submeteu ao castigo. O santo o questionou e increpou com muita dureza por ter tocado o dinheiro. Mandou que pegasse o dinheiro da janela com a própria boca e o levasse para fora da cerca do lugar para colocá-lo com a boca sobre esterco de asnos. Então o frade cumpriu a ordem com alegria e o termor encheu os corações ouvintes dos outros. Todos passaram a desprezar mais o que assim era comparado ao esterco, e cada dia eram animados por novos exemplos a desprezá-lo.
[28]
Este homem, revestido de virtude, aquecia-se mais interiormente pelo fogo divino do que por fora com uma coberta material.
[29]
Execrava os que se vestiam com roupas triplicadas e quem, fora da necessidade, usava panos macios na Ordem. Mas afirmava que a necessidade que demonstra volupptuosidade e não razão é sinal de um espírito extinto. “Quando o espírito está morno e se esfriando aos poucos na graça, faz-se necessário que a carne e o sangue busquem o que é seu. Pois, dizia, se a alma não encontrar suas delícias, que resta senão que a carne se volte para as suas? Então o apetite animal inventa algo necessário, e o sentido da carne forma a consci6encia”. E acrescentava:
[30]
“Se meu irmão tiver uma verdadeira necessidade, que sofra a falta de alguma coisa: se correr para satisfaze-la e lançá-la para longe de si, que recompensa receberá? Pois houve uma ocasião de mérito, mas ele provou cuidadosamente que não tinha gostado”. Com essas palavras e outras semelhantes, atacava os que queriam escapar das necessidades, pois não suporta-las com paciência não é outra coisa senão voltar ao Egito.
Finalmente, não queria em ocasião nenhuma que os frades tivessem mais do que duas túnicas, mas peermitia que as consertassem com remendos costurados. Mandavam que abominassem os panos rebuscados e mordia com força, diante de todos, os que faziam o contrário. E para confundi-los com seu exemplo, costurou sobre sua túnica um pedaço de saco. Mesmo na morte, pediu para ser coberto com uma túnico de saco vil. Mas permitia aos frades apertados pela doença ou outra necessidade que usassem um pano mole, por baixo, junto da carne, mas de forma que por fora fosse observada a aspereza e vileza do hábito. Pois dizia: “O rigor ainda vai ficar tão relaxado, com o domínio da tibieza, que os filhos do pobre pai também não vão se envergonhar de usar panos escarlates, mudando só a cor”.
[31]
Aconteceu em Celano, no tempo do inverno, que São Francisco tinha um pano dobrado na forma de um manto, que um amigo dos frades lhe havia emprestado. E como estava no palácio do bispo de Marsi, foi-lhe ao encontro uma velhinha pedindo esmola. Tirou na mesma hora o pano do pescoço e, embora fosse de outro, deu-o à velhinha pobre, dizendo: “Vai fazer uma túnica para você, porque está precisando bastante”. A velhinha riu espantada, não sei se de medo ou alegria, e pegou o pano de suas mãos. Correu rapidamente e passou-lhe a tesoura, com medo de que a demora trouxesse o perigo de ter que devolver. Mas quando descobriu que o pano cortado não ;ao ia bastar para a túnica, aproveitando a primeira parte da bondade, voltou ao santo mostrando a falta de pano. O santo voltou os olhos para o companheiro, que levava outro tanto de pano nas costas, e disse: “Estás ouvindo, irmão, o que essa pobrezinha está dizendo? Vamos suportar o frio por amor do Senhor. Dá o pano para a pobrezinha completar a túnica”. Ele tinha dado, o companheiro também deu, ficaram os dois despidos para que a velhinha se vestisse.
[32]
Em outra ocasião, quando voltava de Sena, encontrou um pobre e disse ao companheiro: “Temos que devolver a capa ao pobrezinho a quem pertence. Nós a recebemos emprestada até acontecer de encontrar alguém mais pobre”. O companheiro, considerando a necessidade do piedoso pai, resistia teimosamente para que não cuidasse do outro esquecendo de si mesmo. Respondeu o santo: “Não quero sere ladrão. Se não déssemos ao que tem mais necessidade, isso nos seria imputado como furto”. O outro desistiu, e ele deu a capa.
[33]
Coisa semelhante aconteceu perto da Cella de Cortona. O bem-aventurado Francisco levava uma capa nova, que os frades tinha conseguido para ele com muito esforço. Chegou ao lugar um pobre, chorando a mulher que tinha morrido e a família pobrezinha que tinha sobrado. O santo disse-lhe: “Eu te dou esta capa por amor do Filho de deus, contanto que não a d6es a ninguém se não te comprar pagando bem”. Os frades acorreram depressa para pegarem a capa e impedirem que fosse doada. Mas o pobre, criando coragem pela cara do santo pai, defendia-a como sua com unhas e dentes. Por fim, os frades recompraram a capa e o pobre foi embora recebendo o preço.
[34]
Certa vez, em Colle, no condado de Perusa, São Francisco encontrou um pobrezinho que já tinha conhecido no século. Disse-lhe: “Irmão, como vais?”. Mas ele se animou e começou a amontoar maldições sobre o seu patrão, que tirara tudo que era dele: “Graças ao meu patrão, que Deus Onipotente o amaldiçoe, só estou passando mal. Com mais pena de sua alma que de seu corpo, pois persistia num ódio mortal, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Irmão, perdoa o teu patrão por amor de Deus, para libertares tua alma. Pode ser que ele te devolva o que tirou. Se não, além de perder tuas coisas, vais perder também a alma”. E ele disse; “Não posso absolutamente perdoar, se primeiro ele não me devolver o que tirou”. Como tinha uma capa nas costas, o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Olha, eu te dou esta capa, e peço que perdoes teu patrão por amor do Senhor Deus”. Amansado e provocado pelo benefício, ele pegou o presente e perdoou as injúrias.
[35]
Quando ele estava em Sena, aconteceu que lá chegou um homem muito espiritual da ordem dos Pregadores, doutor em sagrada teologia. Tendo visitado o bem-aventurado Francisco, ele e o santo gozaram longamente de uma agradabilíssima conversa sobre as palavras do Senhor.
[36]
Mas o referido mestre interrogou sobre aquela palavra de Ezequiel: Se não avisares o ímpio de sua impiedade, vou pedir de tua mão a alma dele. Pois disse: “Bom pai, eu mesmo conheço muitos que sei que estão em pecado mortal, mas nem sempre lhes falo sobre sua impiedade. Será que vão ser exigidas de minha mão as almas dessas pessoas? Dizendo-lhe o bem-aventurado Francisco que era um idiota e por isso precisava mais ser ensinado por ele que responder sobre a sentença da escritura, o mestre acrescentou humilde: “Irmão, embora eu tenha ouvido de alguns sábios a exposição dessa passagem, vou acolher de boa vontade o que pensas sobre isso”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Se a passagem deve ser entendida de maneira universal, eu acho que o servo de Deus deve arder tanto pela vida e santidade que repreenda a todos os ímpios pela luz do exemplo e pela língua do comportamento. Eu diria que, assim, o esplendor de sua vida e o odor da fma vai anunciar a todos as suas iniqüidades”. E assim, saindo muito edificado, aquele homem disse aos companheiros do bem-aventurado Francisco: “Meus irmãos, a teologia desse homem, alicerçada na pureza e na contemplação, é uma águia que voa; mas a nossa ciência arrasta o ventre na terra.
[37]
Costumava atacar com este enigma os que não tinham óculos castos: “Um rei piedoso e poderoso mandou sucessivamente dois mensageiros à rainha. O primeiro voltou e se limitou a referir palavra por palavra. Dessa maneira, os olhos do sábio tinha ficado na cabeça, sem cair para lugar nenhum. O outro voltou, e depois de ter contado as poucas palavras, narrou uma longa história sobre a beleza da senhora: Na verdade, senhor, vi uma mulher belíssima. Feliz que quem pode aproveitar. Ele disse: Tu, servo mau, lançaste os olhos impudicos sobre minha esposa? É claro que estavas querendo comprar sutilmente o que admirastes. Mandou chamar de novo o primeiro e disse: “O que achaste da rainha?”. Ele: Ótima, porque ouviu de boa vontade e respondeu sagazmente. E não há nela nenhuma formosura? Senhor meu, isso cabe a ti olhar; eu tinha que referir as palavras. O rei deu a sentença: Tu, casto de olhos, ficareis na camera com o corpo ainda mais casto. Mas esse outro saia da casa, para não poluir meu leito”. Pois dizia: “Quem não deveria temer olhar a esposa de Cristo?”.
[38]
De vez em quando fazia estas coisas. Fervendo interiormente pela dulcíssima melodia do espírito, soltava exteriormente a voz em francês, e a veia do divino sussurro, que recebia furtivamente nos ouvidos, transbordava em júbilo francês. Algumas vezes, como vi com meus olhos, pegava um pau do chão, colocando-o em cima do braço esquerdo e segurando um arquinho na direita, passando-o pela madeira como se fosse uma viola e, fazendo os gestos adequados, cantava a Deus em francês. Todos esses tripúdios acabavam freqüentemente em lágrimas, e o júbilo se dissolvia na compaixão pela paixão de Cristo. Por isso esse santo vivia suspirando, e com repetidos gemidos, esquecido do que trazia de inferior em suas mãos, elevava-se ao céu.
[39]
Para guardar a virtude da santa humildade, depois de poucos anos, após a sua conversão, em um capítulo, diante de todos os frades da Religião, resignou ao ofício da prelatura dizendo: “Agora estou morto para vós. Mas eis Frei Pedro Cattani, a quem eu e vós todos obedeceremos”. E inclinando-se profundamente diante dele, prometeu-lhe obediência e reverência. Por isso, os frades choravam, e a dor arrancava altos gemidos, quando viam que iam ficar de certa forma órfãos de tão grande pai. Levantando-se, o bem-aventurado Francisco juntou as mãos, voltou os olhos para o céu e disse: “Senhor, eu te recomendo a família que até agora entregaste a mim. E agora, por causa das enfermidades que conheces, dulcíssimo Senhor, não podendo cuidar dela, recomendo-a aos ministros. Que eles tenham que prestar contas diante de ti no dia do juízo, Senhor, se algum dos frades por sua negligência ou mau exemplo , ou também por áspera correção, vier a perecer”. A partir daí permaneceu súdito até a morte, agindo mais humildemente que qualquer um dos outros.
[40]
Em outra ocasião entregou ao seu vigário todos os seus companheiros, dizendo: “Não quero parecer singular por essa prerrogativa, mas que os frades se juntem a mim em cada lugar, como o Senhor lhes inspirar”. E acrescentou: “Já vi um cego que tinha um cachorrinho para guiá-lo pelo caminho”. Essa era, portanto, a sua glória, de forma que, afastada toda espécie de singularidade e jactância, habitasse nele a virtude de Cristo.
[41]
Afirmava que os frades menores tinham sido enviados pelo Senhor nos últimos tempos para darem exemplos de luz aos que estavam envolvidos pela escuridão dos pecados. Dizia que se enchia de suavíssimos odores e pela virtude de preciosos ungüentos quando ouvia contar os feitos dos santos frades espalhados pelo mundo. Aconteceu que certo frade, uma vez, diante de um senhor nobre da ilha de Chipre, lançou uma palavra de injúria contra um outro frade. O qual, quando viu que o irmão estava um tanto ferido pela ferida da palavra, pegou esterco de asno e, aceso pela vingança de si mesmo, enfiou-o na própria boca para mastigá-lo, dizendo: ”Mastigue esterco a língua que derramou o veneno da ira sobre o meu irmão”. Vendo isso, aquele homem, atônito, foi embora muito edificado, e a partir daí ofereceu a si e suas coisas à vontade dos frades. Isso todos os frades observavam infalivelmente por costume: se algum deles lançasse sobre o outro uma palavra de perturbação, prostrava-se por terra para acariciar com beijos o pé do ofendido, mesmo que não quisesse. O santo exultava com essas coisas quando ouvia que seus filhos davam exemplos de santidade por si mesmos, acumulando de bênçãos digníssimas por todos os títulos esses frades que por palavra ou obra levavam os pecadores ao amor de Cristo. Pelo zelo das almas, de que estava perfeitamente repleto, queria que seus filhos correspondessem a ele por verdadeira semelhança.
[42]
Perto do fim de sua vocação para o Senhor, disse-lhe um frade: “Pai, tu vais passar, e a família que te seguiu vai ser deixada no vale das lágrimas. Indica alguém, se o conheceres na Ordem, em quem teu espírito repouse, a quem se possa impor com segurança a carga do ministério geral”. São Francisco respondeu, vestindo todas as palavras com suspiros: “Filho, não vejo um comandante para um exército tão variado, nenhum pastor para tão amplo rebanho. Mas quero descrever para vós um em que reluza como deva ser o pai desta família”. “Deve ser um homem, disse, de vida gravíssima, de grande discrição, de fama louvável. Um homem que não tenha amizades particulares, para não causar escândalo no todo enquanto gosta mais de uma parte. Um homem que seja amigo do esforço da santa oração, que reserve certas horas para a alma e outras para o rebanho que lhe foi confiado. Pois logo cedinho deve começar com os sacramentos da missa e, numa longa oração, encomendar a si mesmo e o rebanho à proteção divina. Mas depois da oração ponha-se em público para ser depilado por todos, para responder a todos, para prover a todos com mansidão. Um homem que, por acepção de pessoas, não tenha um ângulo sórdido, diante de quem não valha menos o cuidado dos menores e dos simples que o dos sábios e maiores. Um homem a que, se lhe tiver sido dado o dom de se destacar pelo dom da literatura, carregue ainda mais em seus costumes a imagem da piedosa simplicidade, e fomente a virtude. Um homem que execre o dinheiro, principal corrupção da nossa profissão e perfeição, e que, como cabeça de nossa religião, apresentando-se aos outros para ser imitado, jamais abuse de pecúlio algum”.
[43]
“Para ele deveria bastar, dizia, ter para si o hábito e o caderninho, e para os frades um porta-penas e o selo. Não seja amontoador de livros, nem muito entregue à leitura, para não tirar do seu encargo e que privilegia para o estudo. Um homem que console os aflitos, por ser o último refúgio dos atribulados, para que não venha a prevalecer nos enfermos a doença do desespero se faltarem junto dele os remédios para a saúde. Para dobrar à mansidão os atrevidos, prosterne-se, ceda alguma coisa a que tem direito para lucrar a alma para Cristo. Não feche as entranhas da piedade para os egressos da Ordem, como para ovelhas que pereceram, sabendo que as tentações são muito fortes, e podem levar a uma queda tão grande”. “Quisera que ele fosse por todos honrado no lugar de Cristo, e que em tudo lhe provessem com a benevolência de Cristo. Na verdade, convém que não se alegre com as honras, nem se deleite mais com os favores que com as injúrias. Se alguma vez precisar comer mais, assuma-o em lugares públicos e não nos escondidos, para que os outros não fiquem com vergonha de cuidar de seus corpos. Cabe principalmente a ele distinguir as consciências escondidas e fazer brotar a verdade dos veios mais ocultos. Não falhe de maneira alguma na forma viril de justiça, Virilem formam iustitie nullatenus labefactet, pois sinta tão grande cargo mais como um pêso que como uma honra. Entretanto, não nasça a moleza da mansidão supérflua, nem a dissolução da disciplina de uma indulgência relaxada, de modo que, com amor por todos, não deixe de ser terror para os que fazem o mal”. “Quero que eles tenham companheiros dotados de honestidade, que a ele e entre si dessem exemplo de todos os bens; firmes diante das angústias, afáveis como é conveniente, e que recebessem com jovialidade todos os que chegassem.. Eis, disse, como deveria ser o ministro geral”.
[44]
Interrogado uma vez por que tinha assim rejeitado todos os frades do seu cuidado, entregando-os a outras mãos, como se não lhes pertencessem, respondeu: “Filho, amo os frades como posso; mas, se seguissem meus vestígios, certamente os amaria mais e não ficaria alheio a eles. Pois há alguns entre os prelados que os arrastam para outras coisas, propondo-lhes exemplos dos antigos e fazendo pouco dos meu avisos. Mas no fim vai ser visto o que estão fazendo”. Pouco depois, quando foi oprimido por doença demasiada, em sua cama dirigiu com veemência de espírito dizendo: “Quem são esses que arrebataram de minhas mãos a minha religião e os meus irmãos? Se eu for ao capítulo geral, vou lhes mostrar qual é minha vontade”.
[45]
O bem-aventurado Francisco não se envergonhava de pedir carne para um frade doente nos lugares públicos das cidades. Mas admoestavam o que se sentiam mal a sofrer com paciência as privações, e a não criarem escândalo se não fizessem tudo que queriam. Por isso fez escrever estas palavras numa das Regras: “Rodo a todos os meus irmãos doentes que, em suas doenças, não se irem ou perturbem contra o Senhor ou contra os frades, Não peçam remédios com muita insistência; nem desejem demasiadamente libertar a carne, que logo vai morrer, e que é inimiga da alma. Dêem graças por tudo, e desejem ser como Deus quer que sejam. Pois Deus ensina com os estímulos dos flagelos e das doenças aqueles que Ele preordenou para a vida eterna, como Ele mesmo disse: repreendo e castigo os que amo (cfr. Heb 12,6; Apoc 3,19)”.
[46]
Zelava com muito ardor pela profissão da Regra comum, e deu uma bênção especial aos que eram zelosos por ela. Pois dizia aos seus que ela era o livro da vida, a esperança da salvação, a medula do Evangelho, o caminho da perfeição, a chave do paraíso, o pacto da eterna aliança. Queria que todos a tivessem, que todas a soubessem e, em toda parte servisse para conversar com o homem interior como um impulso na indolência e lembrança do juramento feito. Ensinou a tê-la sempre diante dos olhos para recordar como deviam agir e, o que é mais, que deviam morrer com ela. Houve um irmão leigo que não se esqueceu dessa recomendação, e que nós cremos que deve ser venerado entre os mártires, pois conseguiu a palma da vitória gloriosa. Pois quando os sarracenos o levaram para o martírio, segurou a Regra nas mãos levantadas, dobrou humildemente os joelhos e disse ao companheiro: ”Irmão querido, eu me proclamo culpado diante dos olhos da majestade e diante de ti por todas as coisas que fiz contra esta Regra”. À breve confissão seguiu-se a espada, pelo qual terminou a vida terminou em martírio, ficando conhecido mais tarde pelos sinais e prodígios. Tinha entrado tão jovem na ordem que mal podia suportar o jejum regular. No entanto, apesar de quase criança, levava um cilício sobre a carne. Feliz menino, que começou bem para terminar ainda melhor.
[47]
Aborrecia-se muito o bem-aventurado pai quando a ciência era procurada com desprezo da virtude, principalmente quando cada um não persistia na vocação em que tinha sido chamado desde o começo. Dizia: “Os meus irmãos que se deixam arrastar pela curiosidade da ciência vão se encontrar de mãos vazias no dia da tribulação”. Gostaria que se reforçassem mais com virtudes para que, quando encontrarem tempos de tribulação, na angústia tenham o Senhor. Pois virá, disse, uma tribulação em que os livros, não prestando para nada, vão ser jogados nas janelas e nos desvãos”. Não dizia isso porque não gostasse dos estudos das escrituras, mas para afastar a todos do cuidado supérfluo de aprender, pois preferia que fossem bons pela caridade e não sabidos pela curiosidade. Pressentia que não custariam a chegar tempos em que sabia que a ciência seria ocasião de ruína. A um de seus companheiros que estava ocupado com pregações apareceu uma vez depois de sua morte, proibiu e mandou que trilhasse o caminho da simplicidade.
[48]
Dizia que os tíbios, que não se ocupam habitualmente com nenhum trabalho, deviam ser logo vomitados da boca de Deus. Nenhum ocioso podia parecer diante dele sem que o corrigisse com dente mordaz. Assim, ele todo, um exemplo de perfeição, trabalhava e agia com as próprias mãos, não permitindo que se perdesse nada do ótimo dom do tempo. Pois uma vez disse: “Quer o que todos os meus frades trabalhem e estejam ocupados, e que os que não sabem aprendam algum ofício, para sermos menos onerosos para as pessoas e para a língua e o coração não fiquem vagando no ócio”. Mas não confiava o lucro ou pagamento do trabalho a quem o ganhava, mas ao guardião ou à família.
[49]
Encontraram-se em Roma com o bispo de Óstia, que depois foi papa, os preclaros luminares do mundo, São Francisco e São Domingos. Depois de terem conversado coisas muito agradáveis a respeito de Deus, disse-lhes o bispo: -- “Na Igreja primitiva os pastores eram homens pobres, fervorosos de caridade e não de cobiça. Por que não fazemos de seus frades bispos e prelados, para liderarem os outros pela doutrina e pelo exemplo? Surgiu, então, entre os dois santos, uma porfia, não para passar na frente mas para estimular e até obrigar a responder. Na verdade, cada um queria ser o primeiro na devoção ao outro. Finalmente a humildade venceu Francisco para que não se pusesse à frente, e também venceu Domingos, para que, respondendo primeiro, obedecesse humildemente. Domingos respondeu ao bispo: -- “Senhor, meus frades já foram promovidos a um bom grau, se o souberem reconhecer, e, se depender de mim, não permitirei que assumam outro tipo de dignidade”. Depois que ele fez esse breve discurso, o bem-aventurado Francisco se inclinou diante do bispo e disse: -- “Senhor, meus frades são chamados de menores para que não presumam ser maiores”. Sua vocação ensina-os a ficar no chão e a seguir os vestígios da humildade de Cristo, de modo que, afinal, na recompensa dos santos, sejam mais exaltados do que os outros. Se queres que produzam fruto na Igreja, mantém-nos e conserva-os no estado de sua vocação, e faze-os voltar ao chão mesmo que não queiram. E não permitas de maneira alguma que subam a uma prelatura”. Essa foi a resposta dos bem-aventurados. No fim das respostas, muito edificado com as palavras dos dois, o senhor de Óstia deu muitas graças a Deus. Quando saíram de lá, o bem-aventurado Domingos pediu a São Francisco que se dignasse dar-lhe a corda com que se cingia. O bem-aventurado Francisco custou para fazer isso, com tanta humildade quanta era a caridade com que o outro lhe pedia. Mas a devoção do feliz pedinte venceu, e ele a cingiu com muita devoção sob a túnica inferior. No fim deram-se as mãos e fizeram mútuas recomendações com muito carinho. Disse um santo ao outro: -- “Gostaria, Frei Francisco, que a tua e a minha religião fossem uma só e vivessem de forma semelhante na Igreja”. Quando foram embora para casa, o bem-aventurado Domingos disse muitos que estavam presentes: -- “Na verdade vos digo que os outros religiosos deveriam seguir o santo varão Francisco, tanta é a perfeição de sua santidade”.
[50]
Em certa ocasião, no começo, isto é quando o bem-aventurado Francisco começou a ter irmãos, permanecia com eles em Rivotorto. Uma noite, lá pela metade, quando todos estavam descansando em suas enxergas, um dos frades exclamou dizendo: “Estou morrendo, estou morrendo!”. Assustados e atemorizados, todos ao frades acordaram.
Levantando-se, o bem-aventurado Francisco disse: “Levantai-vos, irmãos, e acendei a luz”. Quando se acendeu a luz, o bem-aventurado Francisco disse: -- “Quem foi que disse: “Estou morrendo”. Aquele frade respondeu: “Sou eu”. E o bem-aventurado Francisco lhe disse: -- “O que tens, irmão? Como estás morrendo?”. E ele: “Estou morrendo de fome”. O bem-aventurado Francisco, homem cheio de caridade e discrição, para que aquele frade não ficasse com vergonha de comer sozinho, mandou logo pôr a mesa e todos comeram juntos com ele. Pois ele e outros tinham sido convertidos havia pouco tempo para o Senhor, e afligiam demais os seus corpos.
Depois da refeição, o bem-aventurado Francisco disse aos outros frades: “Irmãos meus, assim vos digo que cada um leve em conta sua natureza; porque, ainda que algum de vós possa sustentar-se com menos comida que outro, não quero que o que necessita de mais comida tente imitá-lo nisso; mas considerando sua natureza, dê a seu corpo o que lhe é necessário. Pois assim como temos que evitar o exagero no comer, que faz mal ao corpo e à alma, , assim temos que evitar a abstinência demasiada, tanto mais que o Senhor quer a misericórdia e não o sacrifício”.
E disse: “Queridos irmãos, isso que eu fiz, isto é que por caridade com nosso irmãos comemos com ele, para que não ficasse com vergonha de comer sozinho, fui obrigado a fazê-lo pela grande necessidade e a caridade. Mas eu vos digo que, nas outras coisas, não quero fazer assim, porque não seria religioso nem honesto. Mas quero e vos ordeno que cada um, segundo nossa pobreza satisfaça ao seu corpo, como for necessário”.
Pois os primeiros frades, e outros que vieram depois deles durante muito tempo, afligiam seus corpos não só com uma excessiva abstinência na comida e bebida, mas também em vigílias, frio e trabalho de suas mãos. Para isso levavam sobre a carne cinturões de ferro e as cotas de malha que podiam ter e fortíssimos cilícios, como também o mais que podiam ter. Por isso o santo pai, achando que os frades podiam ficar doentes por causa disso, e alguns já tinham adoecido em pouco tempo, proibiu em um capítulo que algum frade usasse por baixo, junto da carne, a não ser a túnica.
Nós, porém, que estivemos com ele, damos testemunho de que, embora fosse discreto com os frades desde o tempo em que começou a receber irmãos e também durante todo o tempo de sua vida, procurou entretanto que se guardassem sempre, que em questão de comidas e de coisas, a pobreza e a honestidade requeridas por nossa Religião e que eram usadas pelos frades antigos. Mas ele mesmo, ainda antes de ter irmãos, desde o começo de sua conversão e durante todo o tempo de sua vida, foi austero com o seu corpo, apesar de ter sido um homem frágil em sua juventude e de natureza fraca, e no século não podia viver a não ser delicadamente.
Certa ocasião, achando que os frades já tinham exagerado o modo da pobreza e da honestidade na comida e nas coisas, numa pregação que fez, disse a todos os frades, dirigindo-se pessoalmente a alguns deles: “Será que os frades não acreditam que meu corpo precisa de comidas especiais? Mas como convém que eu seja a forma e o exemplo de todos os frades, quero usar e ficar contente com comidas e coisas pobrezinhas, não delicadas”.
[51]
Quando o bem-aventurado Francisco começou a ter irmãos, ficava tão contente com a conversão deles e porque o Senhor lhe dera boa companhia, e os amava e venerava tanto que não lhes dizia para irem pedir esmola e principalmente porque lhe parecia que ficariam envergonhados de ir. Para poupar-lhes essa vergonha, ia todos os dias sozinho pedir esmolas. Seu corpo ficava muito cansado com isso, principalmente por ter sido homem delicado no século e débil por natureza e por causa da excessiva abstinência e aflição que suportara, e tinha ficado mais fraco desde o dia em que saíra do século. Por isso, considerando que não poderia agüentar tanto trabalho, e que eles tinham sido chamados a essa vocação, mesmo que ficassem com vergonha, e ainda não tinham pleno conhecimento, nem eram tão discretos para dizer-lhe: “Nós queremos ir pedir esmolas”, disse-lhes: “Meus queridos irmãos e filhinhos, não fiqueis com vergonha de ir pedir esmolas, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo; por isso, a seu exemplo e de sua santíssima mãe, escolhemos o caminho da pobreza verdadeira.
Esta é a nossa herança, que pelo Senhor Jesus Cristo foi adquirida e deixada para nós e para todos que, a seu exemplo, querem viver na santa pobreza”. E lhes disse: “Na verdade vos digo que muitos dos mais nobres e sábios desde século virão a esta congregação e terão como grande honra ir pedir esmolas. Por isso, ide com confiança e ânimo alegre pedir esmolas com a bênção do Senhor Deus. Deveis ir pedir esmolas com mais liberdade e alegria que alguém que oferecesse cem dinheiros por um, pois vós ofereceis a quem pedis esmolas o amor de Deus, dizendo-lhes: Dai-nos esmolas por amor de Deus, pois em comparação com Ele, o céu e a terra não são nada”.
E como ainda eram poucos, não podia mandá-los dois a dois, mas mandou cada um sozinho por aqueles castelos e vilas. E aconteceu que, quando voltaram, cada um mostrava ao bem-aventurado Francisco as esmolas que tinha conseguido, dizendo um ao outro: “Eu consegui esmola maior que tu”. E o bem-aventurado Francisco se alegrou de vê-los tão contentes e felizes. Desde então cada um pedia com mais boa vontade para ir pedir esmolas.
[52]
Nesse mesmo tempo, quando o bem-aventurado Francisco vivia com os seus irmãos que tinha então, tinha uma pureza tão grande que, desde a hora em que o Senhor lhe revelou que ele e seus irmãos deviam viver segundo a forma do santo Evangelho, quis observar isso à letra durante todo o tempo de sua vida. Por isso proibiu ao frade que fazia a cozinha para os irmãos que, se quisesse dar legumes para os irmãos comerem, não os pusesse de véspera na água quente, para o dia seguinte, como se costuma, para que os frades observassem aquela passagem do santo Evangelho: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã”. Por isso, o referido frade punha-os para amolecer só depois que os frades tinham rezado matinas. Pela mesma razão, durante muito tempo, muitos frades, em muitos lugares em que moravam por conta própria, e principalmente nas cidades, observaram isso, não querendo adquirir ou receber esmolas a não ser as que lhes fossem suficientes para um dia.
[53]
Certa ocasião, quando o bem-aventurado Francisco estava no mesmo lugar, havia aí um frade, homem espiritual e antigo na religião, que estava muito debilitado e enfermo. Pensando nele, o bem-aventurado Francisco se comoveu de piedade para com ele. 3Entretanto, como naquele tempo os frades doentes e sadios, com alegria e paciência tomavam a pobreza como abundância e em suas doenças não usavam remédios, antes, com muito mais boa vontade, faziam o que era mais contrário ao corpo, o bem-aventurado Francisco disse consigo mesmo: “Se esse irmão comesse uvas maduras bem de manhã, acho que ia fazer bem para ele”. Por isso, levantou-se um dia bem cedo, em segredo, chamou o frade e o levou para uma vinha que ficava perto da mesma igreja. Escolheu uma videira em que havia uvas boas e sadias para comer. E sentando-se com o frade junto da videira, colheu uvas para comer, para que não ficasse envergonhado de comer sozinho. Enquanto eles comiam, o frade louvou o Senhor Deus. E, durante todo o tempo que viveu, recordou-se entre os irmãos muitas vezes, com grande devoção e derramando lágrimas, daquela misericórdia que o santo pai fez por ele.
[54]
Numa ocasião, quando o bem-aventurado Francisco estava no mesmo lugar, ficava em oração numa cela que estava atrás da casa. Estava nela um dia, quando veio o bispo de Assis para visitá-lo. E aconteceu que, quando entrou na casa, bateu na porta para entrar onde estava o bem-aventurado Francisco. E abrindo a porta para si, foi entrando na cela, dentro da qual tinha sido feita uma outra celazinha de esteiras, onde estava o bem-aventurado Francisco. Como sabia que o santo pai lhe demonstrava familiaridade a afeto, foi com liberdade e abriu a esteira da pequena cela, para vê-lo. Mas logo que pôs a cabeça dentro da cela, de repente, querendo ou não, foi jogado à força para fora por vontade do Senhor, porque não era digno de vê-lo, e voltou de costas. Saiu imediatamente da cela, tremendo e assustado, e disse sua culpa diante dos frades, e que naquele dia arrependera-se de ter ido lá.
[55]
Certo frade era um homem espiritual, antigo na Religião e foi familiar do bem-aventurado Francisco. Mas aconteceu que, em certo tempo, sofreu por muitos dias de gravíssimas e muito cruéis sugestões do diabo, de modo que quase foi levado, na ocasião, ao mais profundo desespero, e era tão atormentado todos os dias que ficava com vergonha de se confessar todas as vezes. Por isso, afligia-se demais com abstinência, vigílias, lágrimas e disciplinas. Estando atribulado todos os dias, e por muitos dias, eis que pela graça de Deus veio ao lugar o bem-aventurado Francisco. E como certo dia, não muito longe daquele lugar, o bem-aventurado Francisco estivesse andando com um frade e com ele, que estava tão atribulado, o bem-aventurado Francisco se afastou um pouco do outro frade e se juntou ao que estava sendo assim tentado, e lhe disse: “Querido irmão, quero e te digo que de agora em diante não tenhas mais que confessar a ninguém as tentações e investidas do diabo, e não tenhas medo, porque não fizeram nenhum mal a tua alma. Mas, por minha licença, vais rezar sete Pai-nossos todas as vezes que fores atormentado por essas sugestões”.
O frade ficou muito contente com o que ele lhe disse, que não tinha que confessá-las, principalmente porque, como precisava confessar-se todos os dias, ficava muito confuso; e isso era a causa de sua maior dor. E o frade ficou admirado da santidade do santo pai, de como conheceu suas tentações pelo espírito Santo, pois ele não tinha confessado a mais ninguém se não aos sacerdotes. E também mudava sempre de sacerdote por causa da vergonha, pois se envergonhava de um sacerdote conhecesse toda sua enfermidade e tentação. E imediatamente, desde aquela hora em que o bem-aventurado Francisco falou com ele, ficou livre daquela grande tribulação, por dentro e por fora, quem tinha agüentado durante tanto tempo. E pela graça de Deus , pelos méritos do bem-aventurado Francisco, foi colocado numa grande calma e paz da alma e do corpo.
[56]
Vendo o bem-aventurado Francisco que o Senhor queria multiplicar o número de irmãos, disse-lhes: “”Queridos irmãos e filhinhos meus, vejo que o Senhor quer nos multiplicar; por isso acho coisa boa e religiosa adquirir do bispo ou dos cônegos de São Rufino, ou do abade do mosteiro de São Bento, alguma igreja pequena e pobrezinha onde os frades possam dizer suas Horas, e ter, junto dela, só alguma casa pequena e pobrezinha, construída de barro e ramos, onde os frades possam descansar e cuidar de trabalhos conforme as suas necessidades; porque este lugar não é adequado e esta casa é muito pequena para os frades permanecerem, uma vez que é vontade do Senhor atualiza-los, e principalmente porque não temos aqui uma igreja onde os frades possam dizer suas Horas, e se alguém morresse não seria adequado sepultá-lo aqui nem numa igreja dos clérigos seculares”.
E essas palavras agradaram aos outros irmãos. Então o bem-aventurado Francisco levantou-se e foi ao bispo de Assis, e propôs ao bispo as mesmas palavras que tinha proposta aos frades. O bispo respondeu-lhe: Ïrmão, não tenho nenhuma igreja que possa dar-te”. Ele foi aos cônegos de São Rufino e disse palavras semelhantes; mas eles responderam como o bispo.
Então foi ao mosteiro de São Bento do monte Subásio e disse ao abade as mesmas palavras que tinha dito ao bispo e aos cônegos; e também contou como o bispo e os cônegos tinham respondido. O abade ficou com pena, fez uma reunião sobre o assunto com seus irmãos e, como foi da vontade de Deus, concederam ao bem-aventurado Francisco e aos seus frades a igreja de Santa Maria da Porciúncula, a mais pobre que tinham. Também era a mais pobrezinha do que qualquer outra que havia nos arredores de Assis; o que fazia tempo que o bem-aventurado Francisco desejava. Disse o abade ao bem-aventurado Francisco: “Irmãos, nós atendemos o que pediste; mas queremos que, se vossa congregação se multiplicar, este lugar seja a cabeça de todos vós”. Isso agradou ao bem-aventurado Francisco e a seus irmãos.
O bem-aventurado Francisco ficou muito contente com o lugar concedido aos irmãos e principalmente porque a igreja tinha o nome da Mãe de Cristo, era uma igreja tão pobrezinha, e também pelo apelido que tinha. Pois era chamada de Porciúncula, nome que prefigurava que devia ser a mãe e cabeça dos pobres frades menores. Chamava-se Porciúncula por causa da região onde a igreja tinha sido construída, que desde antigamente era conhecida como Porciúncula. Pois o bem-aventurado Francisco dizia: “O Senhor quis que nenhuma outra igreja fosse concedida aos frades e que primeiros frades não construíssem, então, uma igreja nova nem tivessem outra senão aquela porque isso foi uma certa profecia, que se cumpriu com a vinda dos frades menores”.
E embora fosse pobrezinha e já quase destruída por ter muito tempo, as pessoas de Assis e da região sempre tiveram muita devoção por aquela igreja, e a tem maior ainda até hoje. Por isso, imediatamente depois que os frades foram para lá para ficar, quase todos os dias o Senhor multiplicava seu número e a notícia e a fama disso espalhou-se do por todo vale de Espoleto. Antigamente era chamada de Santa Maria dos Anjos, e a província chama-se Santa Maria da Porciúncula. Por isso, depois que os frades começaram a restaura-la, diziam os homens e mulheres daquela província: “Vamos a Santa Maria dos Anjos”.
E embora o abade e os monges tivessem concedido livremente ao bem-aventurado Francisco e a seus frades aquela igreja sem nenhuma exigência ou pagamento anual, todavia o bem-aventurado Francisco, como um bom e experimentado mestre que quis edificar sua casa sobre a pedra firme, isto é, a sua congregação sobre a grande pobreza, mandava todos os anos ele mesmo um cestinho cheio de peixinhos chamados lascas como sinal da maior humildade e pobreza, para que os frades não tivessem nenhum lugar próprio nem permanecessem am algum outro lugar que não estivesse sob o domínio de alguém, de forma que os frades nunca tivessem de modo algum o poder de vender ou alienar. E quando os frades levavam todos os anos os peixinhos para os monges, eles, por causa da humildade do bem-aventurado Francisco, que fazia aquilo por que queria, davam a ele e a seus irmãos uma vasilha cheia de azeite.
Mas nós que estivemos com o bem-aventurado Francisco damos testemunho de que ele dizia sobre aquela igreja, e confirmando a palavra, que, por causa das muitas prerrogativas que o Senhor aí mostrou e lhe foi revelado nesse lugar, que a Bem-aventurada Virgem ama esta igreja mais do que todas as outras igrejas desde mundo que ela ama. Por isso, teve por ela a maior reverência e devoção durante todo o tempo de sua vida; e para que os frades tivessem sempre uma recordação em seus corações, perto de sua morte quis escrever em seu Testamento que os frades fizessem o mesmo.
Pois, próximo a sua morte, disse ao ministro geral e aos outros frades: “Quero ordenar e deixar em testamento o lugar de Santa Maria da Porciúncula, para que sempre seja tido pelos frades com a maior reverência e devoção. O que também nossos antigos frades fizeram: pois ainda que aquele lugar seja santo, eles mantinham a sua santidade com oração contínua, de dia e de noite, e contínuo silêncio. E se alguma vez falavam depois do termo determinado para o silêncio, tratavam com a maior devoção e honestidade das coisas que diziam respeito ao louvor de Deus e à salvação das almas. E se acontecesse, o que era raro, que alguém começasse a dizer algumas palavras inúteis ou ociosas, era imediatamente corrigido por outro. Portanto, maceravam a carne não só pelo jejum, mas por muitas vigílias, frio, nudez e trabalho de suas mãos. Pois muitas vezes, para não estarem ociosos, iam ajudar as pessoas pobres em seus campos, e elas às vezes lhes davam pão por amor de Deus”.
“Com essas e outras virtudes santificavam a si mesmos e ao lugar, e os outros que vieram depois deles por muito tempo vieram de maneira semelhante, embora não tanto”. “Mais tarde, entretanto, pela vinda de muitos frades e de outros que se reuniam naquele lugar, mais do que tinha sido costume, principalmente porque era bom que todos os frades da religião fossem lá, e o mesmo acontecia com os que queriam entrar na Religião. Também porque os frades são mais frígidos na oração e nas outras boas obras, e mais dissolutas para proferirem palavras ociosas e inúteis e comunicar notícias desde século, aquele lugar não é tido pelos irmãos que ali moram e pelos outros religiosos com tanta reverência e devoção como convém e como eu gostaria”.
“Pois quero que sempre esteja sob o poder do ministro geral e por isso ele tenha maior cuidado e solicitude de providenciar por ele, especialmente para colocar aí uma boa e santa família. Os clérigos sejam escolhidos entre os frades mais santos e mais honestos, e que saibam dizer melhor o ofício em toda a religião, para que não só as outras pessoas mas também os frades os ouçam de boa vontade com grande devoção. Escolham-se frades e leigos santos, homens honestos e discretos, que os sirvam. “Também quero que nenhum frade ou outra pessoa entre naquele lugar a não ser o ministro geral e os frades que ali servem. E eles não conversem com nenhuma pessoa a não ser com os frades que os servem e com o ministro, quando os visitar.
“Quero igualmente que os frades leigos que os servem sejam obrigados a não lhes referir nenhuma palavra ou notícia deste mundo que tiverem ouvido e que não fossem úteis para a alma. E por isso quero especialmente que ninguém entre naquele lugar, para que eles conservem melhor sua pureza e santidade, e que naquele lugar não se profiram palavras vãs e inúteis para a alma, mas se conserve e mantenha todo puro e santo em hinos e louvores do Senhor. E quando algum desses irmãos migrar, onde quer que houver outro frade santo, faça o ministro geral com que ele venha para cá, no lugar do que tiver morrido. Porque, se em algum tempo os frades e os lugares onde moram decaírem da pureza, santidade e honestidade que convém, quero que este lugar seja o espelho e o bom exemplo de toda a religião e como um candelabro diante do trono de deus e diante da bem-aventurada Virgem, pelo qual o Senhor propicie aos defeitos e culpas dos frades e conserve e proteja sempre a religião e sua plantinha”.
Certa ocasião, perto do capítulo que estava para ser realizado, e que naquele tempo se fazia todos os anos em Santa Maria da Porciúncula, considerando o povo de Assis que os frades eram uma graça do Senhor, já multiplicados e multiplicando-se todos os dias, e que, principalmente quando todos se reuniam ali para o capítulo, não tinham senão uma pobrezinha e pequena cabana coberta de palha, com paredes feitas de galhos e barro, como os frades tinham feito no começo, quando foram para lá para ficar, fizeram uma reunião geral e, em poucos dias, com pressa e grande devoção, construíram lá uma casa grande com paredes de pedra e cal, sem o consentimento do bem-aventurado Francisco, que estava fora. Quando o bem-aventurado Francisco voltou de uma província e veio para o capítulo, viu aquela casa construída ali e ficou muito admirado com isso. E pensando que, por causa daquela casa, os frades iam edificar ou fazer edificar grandes casas nos lugares onde moravam ou haveriam de morar, e principalmente porque queria que aquele lugar fosse a forma e o exemplo de todos os lugares dos frades, antes do fim do capítulo, levantou-se um dia e subiu ao telhado da casa mandando que os frades subissem, e, com os frades, começou a jogar no chão as telhas com que estava coberta, querendo destruir a casa.
Quando viram isso, alguns soldados de Assis e outros que ali estavam por ordem da comuna da cidade para proteger o lugar para os seculares e forasteiros que tinham vindo de todas as partes para ver o capítulo dos frades, que o bem-aventurado Francisco e os outros frades queriam destruir a casa, foram logo a eles; e disseram ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, esta casa é da comuna de Assis e nós somos seus representantes; por isso te dizemos que não destruas nossa casa”. O bem-aventurado Francisco disse: -- “Então, se a casa é vossa, não quero toca-la”. E desceu logo dela, e os outros frades que estavam com ele também desceram. Por isso, o povo da cidade de Assis resolveu, durante muito tempo, que quem fosse o seu “podestà” teria que cobri-la e restaurar, se fosse necessário. Em outra ocasião, o ministro geral queria fazer aí uma casa pequena para os frades daquele lugar, onde pudessem descansar e dizer suas Horas, principalmente porque naqueles tempos todos os frades da religião e os que vinham à Religião vinham e recorriam àquele lugar, pelo que aqueles frades se cansavam muito quase todos os dias. Também por causa da multidão de frades que se reuniam naquele lugar não tinham um espaço onde pudessem descansar e dizer suas Horas, pois tinham que ceder aos outros os lugares onde se deitavam. Por isso passavam muitas vezes por muitas tribulações, porque, depois de muito trabalho, quase não podiam satisfazer à necessidade do corpo e à utilidade da alma.
Quando essa casa já estava quase construída, eis que voltou ao lugar o bem-aventurado Francisco e, enquanto estava descansando em uma pequena cela, de noite, ouviu de manhã o tumulto dos frades que lá trabalhavam, e começou a ficar admirado do que seria. Perguntou a seu companheiro: “Que barulho é esse? O que estão fazendo aqueles frades?”. O companheiro contou-lhe tudo como era. Ele mandou chamar imediatamente o ministro, dizendo: -- “Irmão, este lugar é forma e exemplo de toda a religião; por isso prefiro que os frades deste lugar suportem as tribulações e necessidades por amor de Deus, para que os frades de toda a religião, que vêm aqui, contem o bom exemplo de pobreza em seus lugares, em vez de falarem de suas satisfações e consolações; e os outros frades da Religião o tomassem como exemplo para edificar em seus lugares, dizendo: No lugar de Santa Maria da Porciúncula, que é o primeiro lugar dos frades, edificam-se tais e tantos edifícios, que bem podemos edificar em nossos lugares, porque não temos um lugar adequado para ficar”.
[57]
Um frade, homem espiritual, de quem o bem-aventurado Francisco era muito familiar, permanecia em certo eremitério. Considerando que, se alguma vez lá fosse o bem-aventurado Francisco, não teria um lugar apto para ficar, mandou fazer num lugar afastado, perto do lugar dos frades, uma pequena cela, onde o bem-aventurado Francisco pudesse rezar quando fosse lá. E acontece que, não muitos dias depois, chegou o bem-aventurado Francisco. Quando foi levado pelo frade para ver a cela, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: -- Essa cela me parece muito bonita. Mas, se queres que eu fique nela por alguns dias, mande fazer-lhe um revestimento tanto interno quanto externo de samambaias e galhos de árvores”.
Pois a cela não era murada mas feita de madeira. Mas como as tábuas eram planas, feitas com machado e enxó, o bem-aventurado Francisco achou que era bonita demais. O frade mandou adaptá-la imediatamente, como dissera o bem-aventurado Francisco. Pois quanto mais as celas e casas dos frades fossem pobrezinhas e religiosas, via-as com mais boa vontade e às vezes nelas se hospedava. Como tivesse ficado e rezado nela por alguns dias, eis que um dia, perto da cela, fora do lugar dos frades, um certo irmão, que estava no lugar, foi onde o bem-aventurado Francisco estava.
O bem-aventurado Francisco perguntou-lhe: “De onde vens, irmão?”. Ele disse: -- “Venho de tua cela”. O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Porque disseste que a cela é minha, vai ser outro que vai ficar nela de agora em diante, não eu”. Nós, que estivemos com ele, ouvimo-los muitas vezes dizendo aquela palavra do Evangelho: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. E dizia: “Quando esteve no cárcere, onde jejuou quarenta dias e quarenta noites, o Senhor não mandou fazer uma cela nem uma casa, ficou embaixo de uma rocha da montanha”. E por isso, a exemplo dele, não quis ter casa nem cela neste século, nem mandou fazer para si. Mais, se alguma vez acontecesse de dizer aos frades: “Ajeitem de tal forma esta cela”, depois não queria ficar nela, por causa daquela palavra do santo Evangelho: “Não vos preocupeis”. Pois perto de sua morte quis que fosse escrito em seu Testamento que todas as celas e casas dos frades não deviam ser construídas a não ser de barro e galhos, para conservar melhor a pobreza e a humildade.
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Por isso, em certa ocasião, quando estava em Sena por causa da doença nos olhos e morasse numa cela, onde depois de sua morte foi edificado um oratório para reverenciá-lo, disse-lhe o senhor Boaventura, que dera a terra aos frades, onde fora edificado o lugar dos frades: “Que te parece deste lugar?”. O bem-aventurado Francisco respondeu-lhe: “Queres que te diga como os lugares dos frades deveriam ser construídos?”. Ele respondeu: -- “Quero, pai”. Disse-lhe: “Quando os frades vão a alguma cidade, onde não têm um lugar, e encontram alguém que lhes queira dar tanta terra que possam edificar um lugar e ter uma morada e o que lhes for necessário, primeiro eles têm que considerar quanta terra lhes basta, sempre levando em conta a santa pobreza que prometemos e o exemplo que devemos dar aos outros em tudo”.
O santo pai dizia isso porque não queria, em ocasião alguma, que os frades, nas casas, igrejas, hortas ou outras coisas que usavam excedessem o modo da pobreza nem possuíssem algum lugar com direito de propriedade, mas sempre morassem nelas como peregrinos e forasteiros. Por isso queria que os frades não fossem colocados em grande número nos diversos lugares, porque lhe parecia difícil observar a pobreza em quantidades grandes. E essa foi a sua vontade desde o começo de sua conversão e até o fim na sua morte, que a santa pobreza fosse absolutamente observada. “Depois deveriam ir ao bispo da cidade e dizer-lhe: Senhor, tal pessoa, por amor de Deus e pela salvação de sua alma quer dar-nos tanta terra para que aí possamos construir um lugar; por isso recorremos a ti primeiro, principalmente porque és o pai e senhor das almas de todo o rebanho a vós confiado , como das nossas e dos outros frades que permanecerem neste lugar. Por isso queremos aí construir com a bênção de Deus e a tua”.
Mas o santo dizia isso porque o fruto das almas que os frades querem fazer no povo é melhor conseguido com a sua paz, com lucro deles e do povo, do que escandalizando os prelados e os clérigos, mesmo que o povo sai ganhando. E dizia: “O Senhor nos chamou para ajudar a sua fé e a dos prelados e clérigos da santa mãe igreja; por isso, quanto pudermos, temos que amá-los sempre, honrá-los e venerá-los. Pois é por isso que se chamam frades menores, porque tanto de nome como de exemplo e por obra devem ser humildes diante das outras pessoas deste século. E porque desde o início de minha conversão, quando me separei do século e do pai carnal, o Senhor pôs sua palavra na boca do bispo de Assis para que me aconselhasse bem no serviço de Cristo e me confortasse. Por isso, e por muitas outras coisas excelentes que considero nos prelados, não só nos bispos mas também nos sacerdotes pobrezinhos, quero amá-los, venerá-los e tê-los como meus senhores”.
“Depois de recebida a bênção do bispo, vão e façam abrir um grande sulco ao redor do terreno que receberam para a construção do lugar, e nele coloquem uma boa sebe como muro, em sinal da santa pobreza e humildade. Depois façam construir casas pequeninas de barro e galhos e algumas pequenas celas, onde os frades possam orar de vez em quando e também trabalhar, para sua maior honestidade e também para se precaver das palavras ociosas. Façam construir também igrejas; pois os frades não devem mandar fazer igrejas grandes com a desculpa de que é para pregar ao povo nem por alguma outra desculpa, porque há maior humildade e melhor exemplo quando os frades vão a outras igrejas para pregar, para observarem a santa pobreza e a sua própria humildade e honestidade”.
“E se alguma vez forem visitados por prelados ou clérigos, religiosos ou seculares, as casas pobrezinhas, as celas e as igrejas existentes no lugar vão ser uma pregação para eles, e ficarão edificados”. E disse: “Pois muitas vezes os frades mandam construir grandes edifícios, rompendo nossa santa pobreza e dando ocasião de murmuração e mau exemplo para o próximo. Depois, com a desculpa de ir para um lugar melhor ou mais são, abandonam aqueles lugares e edifícios. E, por isso, os que aí deram suas esmolas e outros que vêem e ouvem ficam muito escandalizados e perturbados. Por isso é melhor que os frades façam construir lugares e edifícios pequenos e pobrezinhos, observando sua profissão, e dando bom exemplo ao próximo, do que fazerem contra a sua profissão e darem mau exemplo aos outros. Porque, se alguma vez acontecesse que os frades, com a desculpa de um lugar mais honesto, abandonassem os lugares pequenos e pobrezinhos, haveria por isso muito mau exemplo e escândalo”.
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Naqueles dias e na mesma cela em que o bem-aventurado Francisco tinha dito essas palavras ao senhor Boaventura, uma tarde, como quisesse vomitar por causa do mal do estômago, aconteceu-lhe que, tendo feito muita força, vomitasse sangue, e assim ficou vomitando sangue durante toda a noite e até o amanhecer. Quando os companheiros viram que ele estava quase morrendo por causa da fraqueza e da dor da doença, disseram-lhe com muita dor e derramando muitas lágrimas: “Pai, que vamos fazer? Abençoa a nós e aos teus outros irmãos. Além disso, deixa aos teus frades alguma lembrança da tua vontade, para que, se o Senhor quiser chamar-te deste século, os teus frades sempre possam dizer e ter na memória: Nossa pai deixou estas palavras para seus filhos e frades em sua morte”.
Mas ele lhes disse: “Chamai-me Frei Bento de Piratro”. Esse frade era um sacerdote, discreto, santo e antigo na Religião, que de vez em quando celebrava na cela do bem-aventurado Francisco; porque, embora estivesse doente, sempre que podia queria ouvir a missa de boa vontade e devotamente. Quando o frade chegou perto dele, disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Escreve como eu abençôo todos os meus frades, os que estão na Religião e os que virão até o fim do século”.
Pois era costume de Francisco que, sempre, nos capítulos dos frades, com os frades se reuniam, abençoar e absolver, no fim do capítulo, todos os frades presentes e os outros que estavam na Religião, e abençoava também todos os que deveriam vir a esta Religião; e não só nos capítulos mas também muitas outras vezes abençoava todos os frades que estavam na Religião e que haveriam de vir.
E o bem-aventurado Francisco lhe disse: “Como por causa da fraqueza e da dor da doença não consigo falar, manifesto brevemente nestas três palavras, a minha vontade para os meus frades, isto é: que em sinal da lembrança de minha bênção e de meu testamento, sempre amem uns aos outros, sempre amem e observem nossa senhora, a santa pobreza, e que sempre permaneçam fiéis e submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe igreja”. Também aconselhava os frades a temerem e se cuidarem do mau exemplo; além disso amaldiçoava a todos que, que por desordenados e maus exemplos, provocassem as pessoas a blasfemar a Religião e a vida dos frades e os frades bons e santos, que por isso se envergonhavam e afligiam.
[60]
Durante um tempo, quando o bem-aventurado Francisco vivia junto da igreja de Santa Maria da Porciúncula e os frades ainda eram poucos, o bem-aventurado Francisco ia, às vezes, por aquelas vilas e igrejas ao redor da cidade de Assis, anunciando e pregando aos homens que fizessem penitência. E carregava uma vassoura para varrer as igrejas. Porque o bem-aventurado Francisco ficava muito sentido quando entrava numa igreja e via que não estava limpa, e por isso, sempre, depois que pregava ao povo, acabado o sermão, fazia reunir todos os sacerdotes que havia no lugar, num lugar afastado, para não ser ouvido pelos seculares, e pregava a eles sobre a salvação das almas, mas principalmente para que tivessem um cuidado solícito por conservar limpas as igrejas, os altares e tudo que serve para celebrar os divinos mistérios.
[61]
Pois, num dia em que o bem-aventurado Francisco fora a uma igreja de uma vila da cidade de Assis, começou a varre-la, e logo se espalhou o boato naquela vila, principalmente porque ele visto e ouvido de boa vontade por aquelas pessoas. Mas quando isso foi ouvido por um sujeito chamado João, da maior simplicidade, que estava arando num campo seu perto daquela igreja, ele foi logo para lá e o encontrou varrendo a igreja. Disse-lhe: “Irmão, dá-me a vassoura, porque quero te ajudar”. E, tomando a vassoura, dele, varreu o resto.
E, sentado, disse ao bem-aventurado Francisco: “Irmão, já faz tempo que tenho vontade de servir a Deus, e mais ainda depois que ouvi falar de ti e de teus frades, mas não sabia como chegar a ti. Mas depois que aprouve a Deus que eu te visse, quero fazer tudo que te agradar”. O bem-aventurado Francisco, considerando o seu fervor, exultou no Senhor, principalmente porque tinha, então, poucos frades e porque lhe parecia que poderia ser um bom religiosos, por sua pura simplicidade. Então lhe disse: “Irmão, se queres ser de nossa vida e sociedade, é preciso que te desapropries de todas as tuas coisas que podes ter sem escândalo, e que dês tudo aos pobres, segundo o conselho do santo Evangelho, pois foi isso que fizeram os meus frades, que puderam”.
Ouvindo isso, ele foi imediatamente para o campo, onde deixara os bois, soltou-os e trouxe um para o bem-aventurado Francisco, dizendo: “Irmão, servi durante tantos anos a meu pai e a todos de minha casa; ainda que seja pequena esta parte da minha herança, quero tomar este boi como a minha parte e dá-lo aos pobres, como melhor te parecer segundo Deus”. Mas quando seus parentes e irmãos, que ainda eram pequenos, viram que queria abandoná-los, começaram a chorar tão fortemente e tão alto, eles e todos da casa, que por isso moveu-se a piedade do bem-aventurado Francisco, principalmente porque a família era grande e fraca.
Então o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Preparai e fazei uma refeição para nós todos comermos juntos, e não choreis, porque vou deixar-vos alegres”. Eles logo prepararam, e todos comeram com muita alegria. Depois da refeição, o bem-aventurado Francisco lhes disse: “Este vosso filho quer servir a Deus, por isso vós tendes que ficar alegres, não tristes. E não só segundo Deus, mas também de acordo com este século, isso será atribuído a vós para honra e proveito das almas e dos corpos, porque Deus fica honrado pela vossa carne, e todos os nossos frades serão vossos filhos e irmãos. E porque é uma criatura de Deus e quer servir ao seu Criador, aquele para quem servir é reinar, não posso nem devo devolvê-lo a vós; mas, para que recebais e tenhais uma consolação por causa dele, quero que ele se exproprie desse boi em vosso favor, como a pobres, ainda que ele devesse dá-lo a outros pobres, segundo o conselho do santo Evangelho”.
E todos ficaram consolados com as palavras do bem-aventurado Francisco, e se alegraram principalmente porque o boi lhes foi devolvido, porque eram pobres. E porque o bem-aventurado Francisco amava demais e sempre lhe agradava a santa simplicidade, em si e nos outros, logo que o vestiu com os panos da Religião, levava-o como seu companheiro. Pois ele era de tamanha simplicidade que se achava obrigado a fazer tudo que o bem-aventurado Francisco fizesse. Por isso, quando o bem-aventurado Francisco estava em alguma igreja ou em algum outro lugar afastado, para a oração, ele queria vê-lo e espiá-lo, para se conformar com todos os seus gestos.
Então, se o bem-aventurado Francisco dobrasse os joelhos, ou juntasse as mãos para o céu, ou cuspisse, ou tossisse, ele fazia tudo igual. E o bem-aventurado Francisco começou a questioná-lo, com muita alegria, sobre esse tipo de simplicidade. Ele respondeu: “Irmão, eu prometi fazer tudo que tu fazes, por isso quero fazer tudo que tu fazes”. O bem-aventurado Francisco ficava admirado e alegre com isso, vendo-o em tão grande pureza e simplicidade. Pois começou a ser tão perfeito em todas as virtudes e bons costumes, que o bem-aventurado Francisco e os outros frades ficavam muito admirados de sua perfeição. E não muito tempo depois, ele morreu naquela santa perfeição. Por isso o bem-aventurado Francisco, com muita alegria interior e exterior, falava entre os seus irmãos do seu comportamento, e não o chamava de Frei João mas de São João.
[62]
Em certa ocasião, o bem-aventurado Francisco andava pregando pela província das Marcas. Aconteceu que um dia, quando estava pregando ao povo de uma vila, um homem se aproximou dele, dizendo: “Irmão, quero deixar o século e entrar na tua Religião”. O bem-aventurado Francisco disse-lhe: “Irmão, se queres entrar na Religião dos frades, primeiro é preciso que, de acordo com a perfeição do santo Evangelho, dês todas as tuas coisas aos pobres, e depois te livres de tua vontade em todas as coisas”. Ouvindo isso, ele foi rapidamente e, levado pelo amor carnal e não espiritual, deu todas as suas coisas aos seus parentes. E voltou ao bem-aventurado Francisco, dizendo-lhe: “Irmão, eu me desapropriei de tudo que era meu”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Como fizeste? Ele respondeu: “Irmão, dei tudo que era meu a alguns parentes meus, que tinham necessidade”. O bem-aventurado Francisco, percebendo logo, pelo Espírito Santo, que o homem era carnal, disse-lhe: “Vai pelo teu caminho, Irmão Mosca, porque deste o que era teu aos parentes e queres viver de esmola entre os frades”. Ele pegou imediatamente o seu caminho, sem querer dar as suas coisas aos outros pobres.
[63]
Nesse mesmo tempo, como o bem-avenrturado Francisco morasse no lugar de Santa Maria, aconteceu que, para o proveito de sua alma, foi introduzida nele uma gravíssima tentação do espírito, de modo que seu espírito e seu corpo ficaram muito atribulados, por dentro e por fora. Chegou a ponto de se afastar da familiaridade com os irmãos, principalmente porque, por causa dessa tentação, não podia se mostrar alegre entre eles, como era seu costume. Afligia-se não só pela abstinência de comida mas também pela de palavras; ia muitas vezes para a oração no bosque que havia perto da igreja, para mostrar melhor sua dor e para poder derramar suas lágrimas mais abundantemente diante do Senhor, para que, no meio de tanta tribulação, o Senhor, que tudo pode, se dignasse mandar-lhe remédio do céu.
Como já tivesse sido tão atribulado por essa tentação durante mais de dois anos, de dia e de noite, aconteceu que um dia, quando estava em oração na igreja de Santa Maria, foi-lhe dita em espírito aquela palavra do santo Evangelho: “Se tivesses fé como um grão de mostarda e dissesses àquele monte para sair de seu lugar e se transferir para outro, isso aconteceria”. São Francisco respondeu: “Que monte é esse?”E lhe foi respondido: “Esse monte é a tua tentação”. Disse o bem-aventurado Francisco: “Portanto, Senhor, faça-se em mim como disseste”. E ficou livre imediatamente, a ponto de lhe parecer que nunca tinha tido aquela tentação.
[64]
Certa vez, num dia em que o bem-aventurado Francisco tinha voltado para a igreja de Santa Maria da Porciúncula, encontrou aí o simples Frei Tiago com um leproso cheio de feridas, que tinha ido para lá no mesmo dia. O santo pai tinha recomendado muito a ele aquele leproso e principalmente todos os outros leprosos que estivessem muito chagados. pois naqueles dias os frades moravam nos hospitais dos leprosos. Mas esse Frei Tiago era como um médico dos que estavam muito chagados, e de boa vontade tocava suas feridas, trocava-os e cuidava deles.
O bem-aventurado Francisco disse a Frei Tiago, como se o estivesse repreendendo: ”Tu não devias levar assim os irmãos cristãos, porque não é honesto nem para ti nem para eles”. O bem-aventurado Francisco chamava os leprosos de “irmãos cristãos”. Mas o santo pai disse isso porque, embora gostasse de que os ajudasse e servisse, não queria que levasse para fora do hospital os muito chagados, principalmente porque esse Frei Tiago era muito simples e muitas vezes ia à igreja de Santa Maria com algum leproso, e principalmente porque as pessoas costumavam ter asco dos leprosos que fossem muito chagados. Tendo dito isso, o bem-aventurado Francisco logo se repreendeu e disse sua culpa a Frei Pedro Cattani, que então era o ministro geral, principalmente porque o bem-aventurado Francisco achou que o leproso ficou envergonhado por causa da repreensão de Frei Tiago. E por isso disse sua culpa, para satisfazer a Deus e ao leproso.
E disse o bem-aventurado Francisco a Frei Pedro: “Eu te digo que confirmes a penitência que quero fazer por isso e não me contradigas”. Disse-lhe Frei Pedro: “Irmão, faça-se como te agradar”. Pois Frei Pedro tinha tanta veneração e respeito pelo bem-aventurado Francisco, e lhe era tão obediente, que nem presumia mudar sua obediência, embora nessa e em muitas outras ocasiões ficasse por isso aflito interior e exteriormente.
O bem-aventurado Francisco disse: “Que seja esta a minha penitência: que eu coma no mesmo prato com o irmão cristão”. E assim se fez: quando o bem-aventurado Francisco sentou-se à mesa com o leproso e os outros frades, foi posta uma escudela entre os dois. Pois o leproso estava todo machucado e ferido, principalmente tinha os dedos com que comia contraídos e sangrentos de modo que sempre, quando os punha no prato, derramava sangue nele. Vendo isso, Frei Pedro e os outros frades ficaram muito tristes, mas não tinham coragem de dizer nada, por respeito ao santo pai. Quem escreveu isto, viu e prestou testemunho.
[65]
Certa vez, o bem-aventurado Francisco ia pelo vale de Espoleto e com ele ia Frei Pacífico, que foi da Marca de Ancona e no século era chamado “rei dos versos”, nobre e cortês mestre dos cânticos. E se hospedaram num hospital de leprosos de Trevi. E o bem-aventurado Francisco disse a Frei Pacífico: “Vamos à igreja de São Pedro de Bovário, porque quero ficar lá esta noite”.
A igreja não estava muito longe do hospital e ninguém ficava lá, principalmente porque naquele tempo tinha sido destruído o castelo de Trevi, de modo que ninguém permanecia no castelo ou na vila de Trevi. E acontece que quando o bem-aventurado Francisco ia indo para lá, disse a Frei Pacífico: “Volta para o hospital, porque quero ficar sozinho aqui nesta noite, e volta a mim amanhã bem cedo”.
Mas quando o bem-aventurado Francisco lá ficou sozinho e disse o completório e outras orações, quis descansar e dormir mas não pôde, e seu espírito começou a temer e a sentir sugestões diabólicas. Levantou-se imediatamente e saiu fora da casa persignando-se e dizendo: “Da parte de Deus onipotente eu vos digo, demônios, que façais tudo que vos foi permitido por nosso Senhor Jesus Cristo para prejudicar meu corpo, porque estou preparado para agüentar tudo, pois o maior inimigo que eu tenho é o meu corpo: por isso vingar-me-ei de meu adversário e inimigo”. Pararam na mesma hora aquelas sugestões. Ele voltou para o lugar onde se deitava, aquietou-se e dormiu em paz.
Quando amanheceu, Frei Pacífico voltou para junto dele. O bem-aventurado Francisco estava em oração diante do altar dentro do coro; Frei Pacífico ficou em pé, esperando-o fora do coro, diante do crucifixo e rezando ao mesmo tempo ao Senhor. E quando Frei Pacífico começou a rezar, foi elevado em êxtase, se no corpo ou fora do corpo Deus soube, e viu muitas cadeiras no céu, entre as quais uma mais eminente que as outras, gloriosa e fulgente, e ornada com todas as pedras preciosas. Admirando sua beleza, começou a pensar consigo mesmo o que era essa cadeira e a quem pertencia. E logo ouviu uma voz que lhe dizia: “Esta cadeira foi de Lúcifer, e no seu lugar vai sentar-se nela o bem-aventurado Francisco”. E voltando a si, logo o bem-aventurado Francisco saiu ao seu encontro. Ele se jogou imediatamente aos pés do bem-aventurado Francisco, em forma de cruz, considerando-o como se já estivesse no céu, por causa da visão que tivera sobre ele, e lhe disse: “Pai, perdoa-me os meus pecados e roga ao Senhor que me perdoe e tenha misericórdia de mim”. E, estendendo a mão, o bem-aventurado Francisco o fez levantar-se e soube que tinha visto alguma coisa na oração. Parecia todo mudado, e falava ao bem-aventurado Francisco não como a alguém que vivia na carne mas como a alguém que já reinava no céu. Depois, como de longe, porque não queria contar a visão ao bem-aventurado Francisco, Frei Pacífico interrogou o bem-aventurado Francisco dizendo-lhe: “O que achas de ti mesmo, irmão?”.
O bem-aventurado Francisco respondeu e lhe disse: “Eu acho que sou um homem mais pecador que qualquer outro que haja no mundo”. E na mesma hora foi dito a Frei Pacífico no coração: “Nisso tu podes saber que foi verdadeira a visão que tiveste”; porque como Lúcifer foi jogado daquela cadeira por sua soberba, assim o bem-aventurado Francisco, por sua humildade, vai merecer ser exaltado e sentar-se nela”.
[66]
Certa vez, quando o bem-aventurado Francisco estava em Rieti e hospedado por alguns dias num quarto de Tebaldo Sarraceno por causa da doença dos olhos, disse, um dia, a um de seus companheiros, que, no século, sabia tocar cítara: “Irmão, os filhos deste século não entendem das coisas divinas; pois instrumentos como as cítaras, os saltérios de dez cordas e outros instrumentos, que eram usados nos tempos antigos pelos santos homens para louvar a Deus e consolar as almas, agora são usados por eles para a vaidade, o pecado e contra a vontade de Deus. Por isso eu gostaria que conseguisses em segredo com alguma pessoa honesta uma cítara com que me fizesses um verso honesto e com ela diremos coisas das palavras e louvores do Senhor, principalmente porque o corpo está aflito por grande doença e dor. Por isso eu gostaria, nesta oportunidade, de reduzir a própria dor do corpo para alegria e consolação da alma”.
Pois o bem-aventurado Francisco, em sua enfermidade, fizera alguns louvores do Senhor, que de vez em quando fazia que fossem ditos por seus companheiros para o louvor de Deus e para consolação de sua alma, mas também para edificação do próximo. O frade respondeu-lhe: “Pai, fico com vergonha de ir buscar, principalmente porque as pessoas desta cidade sabem que no século eu sabia tocar cítara; temo que pensem que estou sendo tentado a ser citarista de novo”. O bem-aventurado Francisco lhe disse: “Então, irmão, vamos deixar disso”. Mas na noite seguinte, quase à meia-noite, o bem-aventurado Francisco estava acordado e eis que, ao redor da casa onde estava deitado, ouviu uma cítara tocando uma música mais bonita e mais agradável do que jamais tinha ouvido em sua vida. E ia tocando tão longe quanto se podia ouvir e e depois voltava tocando. E fez isso por uma boa hora.
Por isso, considerando o bem-aventurado Francisco que era obra de Deus e não de um homem, encheu-se do maior gozo e com o coração exultante louvou o Senhor com todo afeto por ter-se dignado consolá-lo com tal e tão grande consolação. E, quando se levantou de manhã, disse ao seu companheiro: “Irmão, eu te pedi e não me satisfizeste; mas o Senhor, que consola seus amigos na tribulação, dignou-se consolar-me nesta noite”. E assim contou-lhe tudo que tinha acontecido. E os frades ficaram admirados, achando que isso era um grande milagre. E souberam de verdade que tinha sido uma obra de Deus para consolação do bem-aventurado Francisco e principalmente porque, de acordo com uma lei do podestá, não só à meia-noite mas mesmo depois do terceiro toque de sino, ninguém ousava andar pela cidade. E porque, como contou o bem-aventurado Francisco, ia e voltava por uma boa hora em silêncio, sem voz e sem barulho da boca, como era obra de Deus, para consolar o seu espírito.
[67]
Na mesma ocasião, por causa da enfermidade dos olhos, o bem-aventurado Francisco permaneceu junto da igreja de São Fabiano, que fica perto da cidade, e onde havia um pobre sacerdote secular. Pois naquele tempo o senhor papa Honório estava com os outros cardeais na mesma cidade. Por isso muitos dos cardeais e dos outros grandes clérigos, pela reverência e devoção que tinham pelo santo pai, visitavam-no quase todos os dias.
Ora, aquela igreja tinha uma pequena vinha que ficava junto da casa em que permanecia o bem-aventurado Francisco, e nessa casa só havia uma porta, por onde entravam na vinha quase todos os que o visitavam, principalmente porque naquele tempo as uvas estavam maduras e o lugar era ameno para se descansar. E aconteceu que, por essa situação, perdeu-se quase toda a vinha. Porque alguns colhiam uvas e as comiam ali mesmo, outros colhiam e levavam, e outros ainda a esmagavam com seus pés. Por isso o sacerdote começou a ficar escandalizado e perturbado, dizendo: “neste ano eu perdi a minha vinha. Porque, ainda que seja pequena, colhia dela tanto vinho que dava para a minha necessidade”. Ouvindo isso, o bem-aventurado Francisco mandou chamá-lo à sua presença e lhe disse: “Não se perturbe mais nem se escandalize, porque não podemos fazer outra coisa. Mas confia no Senhor, porque Ele, por mim, seu pequeno servo, pode restituir o teu dano. Mas me diga: quantas cargas tiveste quando tua vinha rendeu mais?”.
O sacerdote respondeu-lhe: “Pai, treze cargas”. Disse-lhe o bem-aventurado Francisco: “Não fiques triste agora nem digas alguma palavra injuriosa para ninguém, nem te queixes com alguém, mas tem fé no Senhor e nas minhas palavras; e se tiveres menos do que vinte cargas de vinho, eu vou fazer completar para ti”. Por isso o sacerdote se acalmou e ficou quieto. E aconteceu, por disposição divina, que teve vinte cargas, e não menos, como lhe dissera o bem-aventurado Francisco. O sacerdote ficou muito admirado com isso, e também todos os outros que ouviram, considerando que era um grande milagre, pelos méritos do bem-aventurado Francisco, principalmente porque não só tinha sido devastada mas, porque se estivesse carregada de uvas e ninguém tirasse nada, parecia ao sacerdote e aos outros que era impossível tirar dali vinte cargas de vinho. Por isso nós que estivemos com ele damos testemunho de que sempre que dizia: “É assim, ou vai ser”, assim acontecia. E nós vimos muitas coisas que se cumpriram quando vivia e também depois de sua morte.
[68]
No mesmo tempo o bem-aventurado Francisco permaneceu, para cuidar da enfermidade dos olhos, no eremitério dos frades em Fonte Colombo, perto de Rieti. Como certo dia visitasse-o o médico oculista dessa cidade e ficasse com ele por algumas horas, como costumava, quando quis ir embora, disse o bem-aventurado Francisco a um de seus companheiros: “Ide e fazei que o médico coma otimamente”. O companheiro respondeu: “Pai, nós o dizemos com vergonha, porque somos tão pobres que ficamos envergonhados de convidá-lo e dar-lhe agora de comer”.
O bem-aventurado Francisco disse a seus companheiros: “Homens de pouca fé, não me façais dizer mais nada”. Disse o médico ao bem-aventurado Francisco e a seus companheiros: “Irmão, justamente porque os frades são tão pobres, de mais boa vontade quero comer com eles”. Esse médico era muito rico e muitas vezes que o bem-aventurado Francisco e seus companheiros o tinham convidado, não quis comer lá. Então os frades foram e preparam a mesa, e com vergonha puseram um pouco de pão e vinho que tinham e um pouco de verduras que tinham feito para eles mesmos.
Mas quando se sentaram à mesa, quando ainda tinham comido só um pouco, bateram à porta do eremitério. Um dos frades levantou-se, foi e abriu a porta. Lá estava uma mulher trazendo uma grande cesta cheio de um belo pão e de peixes, pastéis de camarão, mel e uvas quase recentes, que tinham sido enviados ao bem-aventurado Francisco por uma senhora de um castro que ficava a quase sete milhas do eremitério. Quando viram isso, os frades e o médico ficaram muito admirados, considerando a santidade do bem-aventurado Francisco. Por isso, o médico disse aos frades: “Meus irmãos, nem vós nem nós conhecemos como devemos a santidade deste santo”.
[69]
Certa vez, quando o bem-aventurado Francisco ia para Celle de Cortona, aconteceu que, quando passava pelo caminho ao pé de um castro chamado Limisiano, perto do lugar dos frades de Prégio, uma senhora nobre do mesmo castro veio com muita pressa para falar com o bem-aventurado Francisco. Quando um dos companheiros do bem-aventurado Francisco viu aquela senhora tão cansada do caminho vindo tão apressada, correu disse ao bem-aventurado Francisco: “Pai, pelo amor de Deus esperemos essa senhora, porque vem atrás de nós, e está muito cansada pelo desejo de falar conosco”. O bem-aventurado Francisco, homem cheio de caridade e de piedade, esperou-a. Mas quando a viu fatigada e vindo com grande fervor de espírito e devoção, disse-lhe: “Que desejas, senhora?”. Ela lhe respondeu: “Pai, rogo que me bendigas”.
O bem-aventurado Francisco lhe disse: “És casada ou solteira?”. E ela: “Pai, faz tempo que o Senhor me deu a boa vontade de servi-lo. Tive e tenho um grande desejo de salvar minha alma, mas tenho um marido tão cruel e contrário a mim e a ele mesmo no serviço de Cristo; por isso minha alma se aflige com muita dor e angústia até a morte”. O bem-aventurado Francisco, considerando o fervoroso espírito que ela tinha, e principalmente que era jovem e delicada segundo a carne, moveu-se de piedade por ela, abençoou-a e lhe disse:. “Vá e, quando encontrar teu marido em casa, dize-lhe de minha parte que rogo a ele e a ti por amor daquele Senhor que para nos salvar suportou a paixão da cruz, que salveis vossas almas em vossa casa”.
Quando ela voltou e entrou em casa, encontrou o marido em casa, como lhe dissera o bem-aventurado Francisco.